Longa-metragem “Bitols” retrata de maneira anárquica a cena rock gaúcha da década passada

Filme, que é um falso documentário, estreia hoje na Sala P.F. Gastal

29/04/2010 - 05h50min
Longa-metragem “Bitols” retrata de maneira anárquica a cena rock gaúcha da década passada Gustavo Razzera, Divulgação/
Filme retrata a cena cultural do Bom Fim dos anos 90 Foto: Gustavo Razzera, Divulgação  

Escritor forjado na cena underground porto-alegrense, Daniel Pellizzari brincava que um dia honraria as tradições gaúchas publicando um romance histórico – um livro que retrataria batalhas épicas do século passado, no caso, o duelo entre a magrinhagem do Bom Fim e os conservadores do bairro nos anos 1990. É cinema, e não literatura, mas o coletivo Cinema8ito resolveu contar a mesma piada: seu filme Bitols, que estreia hoje na Sala P.F. Gastal com direito à sessão comentada (às 19h), é um falso documentário sobre a saga de uma banda de rock daquela época.

Bitols é ao mesmo tempo nenhuma e todas as bandas daquela cena. É formada por Paulo (Leo Felipe), Jorge (Leonardo Machado), João (Bruno Bazzo) e o muito engraçado Ringo (Carlinhos Carneiro, da banda Bidê ou Balde), o destaque do quarteto. Eles são apresentados em todos os momentos fundamentais de sua “carreira”: escolhendo o nome com que serão chamados, gravando (de maneira precária) a primeira fita demo, brigando por mulher (Rita, interpretada por Biah Werther), bebendo cerveja em copo de plástico, comprando drogas na velha Osvaldo Aranha e fazendo um (péssimo) show num Garagem Hermética praticamente vazio.

– Bobagens comuns a algumas bandas – diz André Arieta, o diretor.

A aventura é entremeada por imagens reais captadas à época pelos integrantes do projeto, nas quais aparecem figuras conhecidas do rock local como Plato Divorak, Frank Jorge, Júpiter Maçã e Carlos Eduardo Miranda. Este último discursando contra a “vagabundagem” da gurizada que prefere se acabar no bar a trabalhar por sua música, numa imagem que resume o espírito “rir de si mesmo” do filme.

Não é ao longo de todos os seus 83 minutos, no entanto, que o diretor brinca de não se levar a sério.

– Ao mesmo tempo em que construímos o filme, trabalhamos a sua desconstrução. Não seria com um longa careta que essa história seria contada – afirma Arieta, referenciado em títulos como o marginal Meteorango Kid (1969), de André Luiz Oliveira.

Diferentemente do clássico geracional Deu Pra Ti, Anos 70 (1981), de Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti, com o qual estabelece diálogo evidente, Bitols tem uma estrutura anárquica, quase ensaística. Foi produzido e será distribuído com uma estratégia “de guerrilha”, “tri Teixeirinha”, como anunciado pela equipe: custou cerca de R$ 200 mil, um quarto dessa quantia financiado com dinheiro público (o Fumproarte), e será exibido primeiro na P.F. Gastal, depois em sessões esparsas organizadas com o apoio de cineclubes do Interior e até do Exterior, em programas que também incluirão shows da banda Nelson Realista, de Arieta (autor da trilha sonora). A volta a salas como a do Instituto NT (em junho) igualmente não está descartada.

Bitols é o primeiro de pelo menos quatro longas gaúchos que estreiam nas próximas semanas – os outros são A Casa Verde e Em Teu Nome, ambos de Paulo Nascimento, e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo. O primeiro e o mais, digamos, sui generis de todos.

Filme passará hoje na Sala P.F. Gastal

 

 
 
 
 
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