ABC com o pé na estrada

Antecipando o longa de Walter Salles, confira o ABC de "On The Road"

De A a Z, personagens, lugares e outros aspectos marcantes da obra de Jack Kerouac

16/05/2012 | 06h06
Antecipando o longa de Walter Salles, confira o ABC de "On The Road" Divulgação/MK2 Productions
Sam Riley (E) como Sal e Garrett Hedlund como Dean em cena do filme "On the Road" Foto: Divulgação / MK2 Productions

A estreia em Cannes da adaptação cinematográfica de On the Road satisfaz uma curiosidade cultivada pelos fãs do livro há quatro décadas: como transpor para o cinema a atmosfera libertária do livro que influenciou mais de uma geração? O romance de Jack Kerouac é uma espécie de documento fundador e carta de intenções do movimento beat, capitaneado por uma geração disposta a implodir o academicismo da literatura e a cantar as ruas da América com a poesia e o vigor dos fraseados de jazz.

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Praticamente tudo no movimento beat gravita, em um momento ou outro, em torno de On the Road. Com a chegada do filme, novos holofotes serão lançados sobre a obra. A editora do romance no Brasil, a L&PM, prepara uma nova edição da obra, em tamanho convencional (até agora, ela estava disponível apenas em formato pocket), com apresentação e posfácio revisados pelo tradutor Eduardo Bueno. Já que se deve falar muito de On the Road nos próximos meses, elaboramos um conciso ABC da obra para iniciantes:

Aventura: On the Road narra as viagens do jovem Sal Paradise pelos Estados Unidos no fim dos 1940 e início dos 1950. O rapaz começa a história vivendo com uma tia em Nova Jersey, até que conhece o exaltado Dean Moriarty, com o sonho de viver a vida na estrada e de tornar-se escritor. Inspirado pelo amigo, Sal percorre as imensidões americanas de carona ou de ônibus - em companhia de Dean em parte do caminho.

Brasiliense: Primeira editora a trazer On the Road para o Brasil, em 1984. A publicação inaugurou a série Circo de Letras. Os 62 títulos da coleção apresentariam ao país grandes nomes de vanguarda - entre eles, outros beats, como Lawrence Ferlinghetti e William Burroughs.

Califórnia: Destino da primeira das viagens de Sal em On the Road, em 1947. Com US$ 50 no bolso, de ônibus e de carona, Sal passa por Chicago e Denver para encontrar seus amigos Dean e Carlo Marx (pseudônimo de Allen Ginsberg). De lá, segue para San Francisco.

Dean Moriarty: Pseudônimo de Neal Cassady, mentor de Kerouac na vida aventuresca. Cassady apareceria em outras obras de Kerouac com o nome de Cody Pomeroy. Bonito e sedutor, espécie de farol para a geração beat, também é mencionado por Ginsberg em Uivo: "N.C. herói secreto destes poemas, garanhão / e Adonis de Denver".

Eduardo Bueno: O jornalista Eduardo "Peninha" Bueno é um porta-voz nacional da contracultura beatnik. Ele e Antônio Bivar assinaram a primeira tradução brasileira de On The Road, em 1984. Peninha refez, desta vez sozinho, a tradução para a edição de bolso de 2007 - a mesma que ganhará edição convencional em 2012.

Flórida: Último lar de Kerouac. Ele morreu em 21 de outubro de 1969, aos 47 anos, em Saint Petersburg, Flórida, vítima de hemorragia interna em decorrência de cirrose.

Gabrielle: Gabrielle-Ange Lévesque era a mãe de Kerouac, com quem o autor morou a maior parte de sua vida, quando não estava viajando. O escritor terminou seus dias cuidando de sua "memère" idosa e doente.

Howard Cunnell: Especialista que organizou a publicação em livro, em 2007, do texto constante no "rolo" original em que Kerouac datilografou On the Road.

Influência: Como escreve Eduardo Bueno no prefácio: "Difícil imaginar a obra de Sam Shepard, de Bob Dylan, de Charles Bukowski, de Jim Morrison, de Lou Reed, de Tom Wolfe, de Bret Easton Ellis, de Joni Mitchell, de Wim Wenders, de Hunter Thompson, de Neil Young, de Jim Jarmusch, de Jay MacInerney, de Beck, de Bono, de Tom Waits, de Gus Van Sant, de Bob Wilson, de Walter Salles sem On the Road."

Jazz: Kerouac declaradamente estruturava sua prosa para mimetizar o estilo espontâneo e fluido das improvisações características do bebop.

Kerouac: Segundo Léo-Alcide Kéroack, pai de Jack, as origens da família remontam aos celtas da Cornualha. No século 18, os "Kernuaks" se transferiram para terras concedidas pela coroa britânica no Canadá. Em 1880, o avô do escritor, Jean-Baptiste, mudou-se para os Estados Unidos. Até os cinco anos, Kerouac (cujo prenome era Jean-Louis) falava não o inglês, mas um dialeto do francês de Quebec.

L&PM: Atual editora da obra de Kerouac no Brasil. Além de On the Road em formato de bolso e do manuscrito original, a casa prepara uma nova edição da obra, em formato convencional. Também publicou Os Subterrâneos, Big Sur, Tristessa, Os Vagabundos Iluminados, Visões de Cody, O Livro dos Sonhos e Anjos da Desolação, entre outros.

México: País em que se desenrolam acontecimentos centrais de On the Road. Sal e Dean cruzam a fronteira, bebem, fazem festas em bordéis. Até que Sal cai gravemente doente com uma crise de disenteria, e Dean o deixa para trás e segue viagem.

Nova York: Nascido em Massachussetts, Kerouac passou boa parte da vida ligado a Nova York. Estudou na escola preparatória Horace Mann e ingressou na Universidade Columbia, pela qual jogou futebol americano. Foi lá também que Kerouac conheceu, em 1946, a maioria dos demais integrantes da geração beat, como Neal Cassady, Allen Ginsberg e William Burroughs.

Old Bull Lee: Pseudônimo do poeta William Burroughs, autor de Almoço Nu. Mais velho do que seus companheiros, estava na casa dos 30 anos quando se conheceram - os demais tinham pouco mais de 20 anos.

Primeiro Terço: Nome da autobiografia escrita por Neal Cassady e publicada em 1971, três anos após sua morte, aos 41, no México. O livro aborda o "primeiro terço" da vida do autor. Criado pelo pai em um ambiente masculino de pobreza e alcoolismo, Cassady narra uma infância desajustada transitando por reformatórios.

Quadrinhos: A história dos principais nomes do movimento foi contada na obra Os Beats (Benvirá. Tradução de Érico Assis), com desenhos de Harvey Pekar. O artista brasileiro João Pinheiro lançou uma biografia em quadrinhos: Kerouac (Devir).

Recorde: O rolo em que Jack Kerouac escreveu a primeira versão de On the Road foi a leilão em 2001. Foi arrematado por James Irsay, dono do time de futebol americano Indiana Colts. O valor pago foi recorde para um original literário: US$ 2,43 milhões (o equivalente a R$ 5,64 milhões na época e a R$ 4,86 milhões hoje).

Sal Paradise: É o narrador de On the Road - e alter ego de Jack Kerouac (foto abaixo). Em outras obras, Kerouac retomaria basicamente o mesmo personagem sob os nomes de Jack Duluoz (no grande ciclo que inclui Big Sur, Os Subterrâneos, Tristessa, Visões de Cody, Anjos da Desolação, entre outros) e Ray Smith (Os Vagabundos Iluminados).

Telex: Kerouac escreveu On the Road em três semanas de 1951, em um rolo de papel para telex com 37m de comprimento (ao lado). O original tem diferenças significativas da versão publicada: o texto é um continuum sem parágrafos e quase sem pontuação, traz passagens sexuais explícitas, e os nomes são declinados sem pseudônimos.

Utah: Estado norte-americano onde nasceu Neal Cassady. O local é fortuito. A mãe de Cassady deu à luz no meio de uma viagem em direção a Los Angeles.

Viking Press: Kerouac demorou seis anos para encontrar uma editora disposta a publicar On the Road. Em 1957, a Viking Press aceitou o livro, não sem antes exigir alterações no texto.

Walter Salles: O cineasta brasileiro de Central do Brasil e Diários de Motocicleta assumiu o encargo de levar o romance aos cinemas em 2010. O produtor Francis Ford Coppola adquiriu os direitos ainda em 1968, mas só no século 21 conseguiu tocar o projeto.

Xamanismo: On the Road é, de acordo com a definição de Kerouac, "uma história sobre dois amigos católicos em uma viagem espiritual pelo país tentando encontrar Deus".

Yeats: Poeta irlandês (1865 - 1935), um dos autores lidos com paixão pelos beats. A lista inclui ainda individualistas vorazes como Rimbaud, Baudelaire, Blake, Jack London, Dostoievski, Thomas Wolfe e Walt Whitman.

Zênite: On the Road foi a primeira obra publicada por Kerouac - seus outros livros seriam sempre comparados com este. O romance foi, na definição do tradutor Eduardo Bueno, a "glória e a danação" do autor.

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