Drama em corpo estranho

Estreia nesta sexta "Albert Nobbs", com a indicada ao Oscar Glenn Close

Atriz vive um homem em filme dirigido pelo filho de Gabriel García Marquez

16/05/2012 | 14h17
Estreia nesta sexta "Albert Nobbs", com a indicada ao Oscar Glenn Close lionsgate/Divulgação
Glenn Close vive mulher que se passa por mordomo na Irlanda do século 19 Foto: lionsgate / Divulgação

É do ofício do ator fingir ser o que não é. E o desafio por vezes é mais radical, como viver um personagem do sexo oposto. A Academia de Hollywood, por exemplo, tem apreço por essa modalidade de empenho, tanto que fez Albert Nobbs figurar na recente festa do Oscar com um peculiar duplo reconhecimento.

As duas atrizes protagonistas do drama que estreia nesta sexta na Capital foram indicadas pelo belo trabalho que fazem interpretando homens.

Não é exagero destacar que Glenn Close carrega nas costas o filme dirigido pelo colombiano radicado nos EUA Rodrigo García, filho do escritor Gabriel García Marquez. Além do papel principal, a atriz assina como coprodutora e corroteirista e é a autora de uma das canções da trilha sonora. E sua intimidade como projeto vem dos anos 1980, quando interpretou o mesmo personagem no teatro. A intensidade desse envolvimento, porém, fez o trabalho de Glenn ficar numa dimensão superior à do filme.

Albert Nobbs é a identidade assumida por uma mulher desde a adolescência. Filha bastarda e renegada, ela percebeu que, passando-se por homem, seria mais fácil sobreviver à violência e aos abusos. Nobbs é apresentado na maturidade, como o fleumático mordomo de um hotel na Dublin do final do século 19.

A postura pétrea e discreta do serviçal é abalada pela chegada do pintor Hubert Page (vivido pela atriz Janet McTeer, indicada ao Oscar como coadjuvante), chamado para fazer reparos no local. Page descobre o segredo de Nobbs e, por razões que não cabe detalhar, entre eles brota uma cumplicidade afetiva. Nobbs decide levar adiante o plano de abrir um negócio e, a exemplo do novo amigo, formar uma família, elegendo como parceira uma jovem colega (Mia Wasikowska).

É pena que o filme não faça desse conflito de identidade elemento de uma narrativa com mais fôlego, pois opta por iluminar mais o personagem em si do que seus conflitos ou sua interação com o ambiente em que vive. Esse crossdressing providencial já foi melhor encenado em filmes como Yentl, Tootsie, Meninos Não Choram e, mais recentemente, Tomboy.

Apesar de toda a engrenagem se movimentar a seu favor, Glenn Close não levou o Oscar, mais um vez, em sua sexta indicação. E lhe dar uma estatueta agora, além de justo, bem que poderia reparar as que não levou por trabalhos como Ligações Perigosas e Atração Fatal.

 
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