Desabafo

Fernando Meirelles comenta sobre a pouca bilheteria de "Xingu"

Cineasta lamentou a baixa popularidade do filme, apesar dos sucessos de crítica

04/05/2012 | 16h22
Fernando Meirelles comenta sobre a pouca bilheteria de "Xingu" Clara Gouvêa/Divulgação
Fernando Meirelles Foto: Clara Gouvêa / Divulgação

Na última quarta-feira, José Pedro Goulart abordou em sua coluna no Segundo Caderno a baixa bilheteria alcançada pelo filme Xingu, sobretudo no Rio Grande do Sul. E deu a palavra a um dos grandes inconformaados com essa situação: o cineasta Fernando Meirelles, produtor do filme. Meirelles, que desistiu de gravar a adaptação de Grande Sertão: Veredas por pensar que, assim como os índios, os jagunços poderiam não agradar ao grande público. Procurado por ZH, o cineasta deu seu depoimento a respeito do assunto:

"Meu aborrecimento é pelo fato de, além da crítica, o filme ter sido bem recebido por quem assistiu. Xingu ficou em terceiro lugar pelo voto da audiência no festival de Berlim, em sexto entre 100 filmes no festival de Tribecca na semana passada. Tem sido aplaudido sistematicamente depois das sessões em São Paulo e no Rio e no entanto o grande público parece não ter se mobilizado para ir ver. Nos sites onde fala-se sobre o filme, o que mais se lê são coisas do tipo: "Fui assistir arrastado, mas me surpreendi." Não esperávamos este desinteresse pelos índios ou por questões de preservação do patrimônio natural do Brasil.

Diariamente recebemos a bilheteria de cada cinema onde o filme está sendo exibido, é curioso observar que enquanto nos cinemas com tradição de filmes mais autorais ou diferentes, Xingu continua indo muito bem, já nos cinemas mais populares o resultado é muito fraco.

Além de algumas salas em São Paulo e no Rio, Xingu está indo bem no Amazonas e no Pará, também vai bem no Espírito Santo, sabe-se lá por que. No Rio Grande do Sul, porém, o filme fez uma carreira desastrosa um pouco melhor no Iguatemi, mas mesmo assim muito fraco. RS foi o estado que menos se interessou pela história dos Irmãos Villas Boas, seguido por Santa Catarina e Minas Gerais. Isso na verdade não surpreende. Sabemos que quem nasce no Rio Grande do Sul nunca diz que é brasileiro, diz antes que é Gaúcho, vindo de um estado que faz divisa com o Brasil ao norte. Alguns filmes que fazem sucesso por aí nem são percebidos no resto do país e o oposto também é verdade. O fato de vocês serem bastante independentes do país em termos culturais é algo positivo, mas nós, os produtores de cinema, deveríamos ficar mais atentos a isso e, ao lançar nossos filmes, preparar sempre uma campanha de lançamento para o Brasil e uma especial para o Rio Grande do Sul. Sem piada. Tenho certeza que funcionaria melhor se fosse feito assim.

Quanto a mim, em vista deste resultado, coloquei de lado minha intenção de adaptar Grande Sertão:Veredas, como havia planejado fazer no ano que vem. Tenho medo de ninguém estar minimamente interessado em ver jagunços em 2014. O filme certamente seria um desastre no Rio Grande do Sul, ao menos que eu colocasse umas botas de cano alto e umas bombachas no Riobaldo. Está aí uma boa ideia para eu pensar. Viver é muito perigoso."


LEITOR COMENTA A POSIÇÃO DE MEIRELLES:

Lendo o desabafo de Fernando Meirelles sobre o fracasso de Xingu no Rio Grande do Sul, fiquei pensando nas causas. Pensei em mim, que sou formado em Ciências Sociais e teoricamente deveria me interessar pelo filme. Num primeiro momento, não tive vontade de assitir.

Com tantas opções que lazer e filmes em cartaz, algo precisa me seduzir, chamar a minha atenção para a sala de cinema. Não basta a temática ou o título do filme. Numa viagem recente, havia uma matéria sobre o filme na revista de bordo da companhia aérea. Só então comecei a pensar no filme. No hotel em que me hospedei logo após a viagem, havia uma promoção: os hospedes ganhavam dois ingressos para assistir Xingu em qualquer cinema no Brasil. Voltei para Porto Alegre decidido a ver o filme.

Estava em exibição em dois cinemas, em apenas dois horários fixos. Fiquei tentado a desistir. Mas, fui. Como diz Meirelles, de fato, quem assiste se surpreende com a beleza do filme. É muito bom. Contudo, não basta ser bom. Prova disso é que tantos outros filmes, não tão bons, alcançam maior interesse e bilheteria. Por quê?

Talvez a resposta esteja na cultura, ou seja, na rede de textos, símbolos, conhecimentos que estão presentes em nossas mantes. Cultura implica em relações estabelecidas historicamente. Se pensarmos no título do filme, Xingu, o que significa para a maioria do público cinéfilo?

Talvez, muitos sequer façam a relação com o parque, com os índios, os Irmãos Vilas Boas. Os atores principais também não mobilizam público. Então, se o nome não gera significado, os atores não atraem e a história é desconhecida da maioria, o que levaria centenas de pessoas aos cinemas? Sem uma campanha promocional forte ou grande repercussão midiática, se torna muito difícil alavancar o filme, que compete com blockbusters.

Sobre a questão do Rio Grande do Sul, Meirelles faz uma crítica equivocada. Que filme gaúcho ou com temática gaúcha foi um sucesso no Estado na última década?Quantas pessoas foram ao cinema ver Netto Perde sua Alma? Tolerância? Concerto Campestre?Noite de São João? Diário de um Novo Mundo? Valsa para Bruno Stein? Antes que o Mundo Acabe? O público foi mirradinho. Ou seja, não se trata de bairrismo, ou todos esses filmes teriam sido um sucesso de bilheteria. Bombachas, bota de cano alto e vocabulário gaudério não são suficientes. Assim como contar a história de herois brasileiros que desbravaram o interior e salvaram nações indígenas do desaparecimento não é suficiente, não garante o interesse do público.

Em outras palavras, uma boa história bem produzida não basta para gerar a curiosidade e lotar as salas de cinema. Talvez Fernando Meirelles encontre bons subsidios para alavancar interesse observando seu maior sucesso, Cidade de Deus. O que há naquela fórmula (conteúdo e forma) que pode ser reproduzido em outros filmes?

Meirelles tem a resposta, mas talvez não queira ser um cineasta e produtor refém de seus próprios argumentos exitosos, afinal, é um artista.

Cordialmente,
Alexander Goulart
Licenciado em Ciências Sociais, Jornalista

 
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