Desafio do transporte da Capital

Problemas com lotação, atrasos e frequência das linhas de ônibus afastam os usuários, diz especialista

Pesquisadores em transporte apontam melhorias para tornar os coletivos mais atraentes em Porto Alegre

16/05/2012 | 19h17

O universitário Franco Abruzzi Ghiggi, 23 anos, circula por Porto Alegre de carro. Vai de casa para a faculdade, visita amigos, passa pelo CTG. Roteiros que poderiam ser feitos de ônibus — se ele considerasse o sistema mais atraente.

Mudar a opinião do rapaz, que se multiplica pela Capital, desafia quem planeja desafogar as ruas de uma cidade com média próxima de um carro para cada dois habitantes, onde ecoa a polêmica causada pela declaração do gerente de fiscalização de trânsito da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).  Tarciso Kasper deu a entender que frequentadores de shows mais caros, como o recente Los Hermanos, não voltam para casa de ônibus.

Apesar de causar revolta nas redes sociais, a fala traduz um comportamento adotado por parte dos espectadores dos espetáculos. Por questão de sobrevivência viária, os gestores públicos precisam convencer, em shows ou durante o dia, o motorista a deixar o automóvel na garagem para embarcar em ônibus.

Na opinião do doutor em transportes urbanos e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luis Antonio Lindau, problemas com lotação, dificuldades de embarque e desembarque, atrasos e frequência das linhas afastam os usuários. A solução atende pela sigla Bus Rapid Transit (trânsito rápido de ônibus).

— É um transporte de superfície, que usa rodas, mas com qualidade de metrô — resume Lindau, presidente da Embarq Brasil, entidade que promove a sustentabilidade no transporte urbano no país.

A EPTC também aposta no modelo, que coloca coletivos mais modernos e articulados, comportando mais passageiros, a circular em corredores exclusivos. A previsão é ter em funcionamento no final do próximo ano 11 linhas urbanas, espalhadas em três corredores (Protásio Alves, João Pessoa e Bento Gonçalves), sendo que dois já estão em construção.

Inteligente, com mais opções de estações de transbordo e alimentado por linhas de coletivos comuns, o BRT promete aliviar o fluxo de ônibus na região central da cidade e elevar a velocidade média das viagens de 15km/h para 25km/h.

— Este sistema ágil e com corredores é fundamental para dar mais eficiência à tabela horária dos ônibus — afirma o presidente da EPTC, Vanderlei Cappellari.

Já o professor Lindau prefere aguardar o término do projeto operacional do BRT para atestar sua possível eficiência.

— É um bom começo adotar o conceito, mas o ideal é que tenha uma rede com centenas de quilômetros.

Enquanto o sistema não é realidade, outras mudanças podem tornar o ônibus mais amigável. Desde julho do ano passado, a segunda passagem passou a ser gratuita na Capital. Pelos cálculos da EPTC, o benefício ajudou a aumentar o número de passageiros de 1,1 milhão para 1,25 milhão por dia.

Ex-presidente da EPTC e professor da UFRGS, Luiz Afonso dos Santos Senna aponta que melhorias nas paradas e formas mais fáceis de identificar as linhas também são importantes. Outro aspecto é tirar a pecha de que ônibus é um meio transporte das classes mais pobres.

— O ônibus sempre teve a característica de chegar na periferia, mas com o nível de congestionamentos crescendo nas ruas, apostar em conforto e agilidade fará esse estigma desaparecer.

Como melhorar

Zero Hora consultou especialistas em transporte para indicar possíveis melhorias no sistema de ônibus da Capital. Confira o que eles sugerem e o que a EPTC prepara para qualificar o serviço.

— Mais espaço e agilidade nos veículos

Menos usuários em pé e viagens mais rápidas são fatores que incentivam a migração do carro para o transporte coletivo.

EPTC: a aposta é o BRT, um ônibus rápido que circula em corredor exclusivo, com previsão de funcionamento para o final de 2013. Serão três corredores. Racional, com carros que comportam mais passageiros, dará ao usuário mais opções de integração com outras linhas, além de ajudar a desafogar o centro, congestionado pelos coletivos. A mudança terá impacto na eficiência dos ônibus convencionais.

— Conforto

Ônibus novos, adaptados para pessoas com deficiência e oferta de ar-condicionado trazem mais conforto para os usuários.

EPTC: a idade média da frota porto-alegrense é de quatro anos, sendo que mais da metade dos veículos são adaptados e boa parte tem ar-condicionado. Os BRTs serão todos carros novos.

— Cobrança da passagem fora do ônibus

O ideal é que a compra da passagem seja feita na estação, fora do ônibus, o que diminui as filas na porta do coletivo e facilita o embarque. A ideia excluiria as atuais catracas.

EPTC: as linhas envolvidas no BRT terão bilhetagem externa e embarque no nível da superfície, o que facilita o acesso do usuário ao ônibus. Os demais coletivos da cidade, por enquanto, permanecerão iguais.

— Aviso sonoro das paradas

Informar o usuário por qual estação ele passa e qual é a próxima parada é uma facilidade típica do metro.

EPTC: está em estudo a implantação do sistema nos carros das linhas BRT. Por enquanto não há previsão de incluir a ferramenta nos demais coletivos.

— Mapas e informações em tempo real nas estações e paradas

Facilita a vida do usuário indicações do tempo que falta para o próximo ônibus passar. Um mapa didático, fixado nas estações e paradas, também ajuda o cidadão a se localizar.

EPTC: a indicação do tempo que falta para a próxima viagem será contemplada no sistema BRT, que também terá mapas nas estações. Para os ônibus comuns, está em fase de desenvolvimento a confecção de adesivos com os mapas das linhas. O material será fixado nas paradas.

— Nomes e identificações mais simples para as linhas

Os especialistas consideram confusa a forma como as linhas são identificadas, algumas com números e outras com letras. O sistema atrapalha, em especial, quem é de fora da cidade. Uma sugestão seria adotar linhas identificadas por cores, como nos metrôs.

EPTC: cada empresa que realiza o transporte tem sua própria identidade visual. Além dos números das linhas, os ônibus informam em letreiros os locais por onde o coletivo passa. O telefone 156 e o site www.poatransporte.com.br podem tirar as dúvidas dos usuários.

Os ônibus urbanos na Capital

360 linhas urbanas
25 mil viagens por dia
1.671 veículos
887 adaptados para pessoas com deficiência
383 com ar-condicionado
Idade média da frota
4 anos
1,25 milhão
de passageiros por dia

Linhas mais utilizadas

T4 23 mil passageiros
T11 22 mil passageiros
T7 19 mil passageiros

DETALHE ZH

A linha C4 Balada Segura segue em funcionamento na Capital. Desde dezembro, quando passou a funcionar, conduziu 13,5 mil passageiros até 30 de abril. O ônibus circula diariamente, das 22h às 4h40min, nos bairros Bom Fim, Cidade Baixa, Centro Histórico e Moinhos de Vento.

Leia mais:
"Quem paga R$ 300 para ver Bob Dylan não vai voltar de ônibus"
"Opinião não é a da EPTC", afirma diretor-presidente sobre frase polêmica
Falta de estrutura frustra quem vai a shows na Capital
Blog Remix: Vá a shows (mas já vá sabendo que)
Mariana Kalil: Vou a shows no Dia de São Nunca

 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.