Rainha de Troia

Walderez de Barros: "As tragédias gregas nos ajudam a perceber melhor as possibilidades humanas"

Atriz protagoniza a peça "Hécuba" neste sábado (5/5) e neste domingo (6/5) na Capital

05/05/2012 | 06h01
Walderez de Barros: "As tragédias gregas nos ajudam a perceber melhor as possibilidades humanas" João Caldas/Divulgação
Walderez de Barros está em tragédia grega dirigida por Gabriel Villela Foto: João Caldas / Divulgação

Distante dos palcos desde 2005, a atriz Walderez de Barros interpreta a personagem-título da tragédia Hécuba, de Eurípides, com direção de Gabriel Villela. As apresentações são neste sábado (5/5), às 21h, e neste domingo (6/5), às 18h, no Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº, fone 51 3227-5100), em Porto Alegre. A atriz concedeu a seguinte entrevista por e-mail.

Zero Hora — O que a senhora encontrou em Hécuba que não encontraria em outra tragédia grega? Em que consiste, na sua visão, a particularidade desse texto?
Walderez de Barros —
Hécuba é a terceira tragédia grega que represento, Já havia feito as personagens Clitemnestra e Medeia, ambas com direção de Jorge Takla. Restava Hécuba como outra grande personagem trágica que eu sempre quis conhecer e representar. Gabriel (Villela, diretor) tinha o desejo de dirigir uma tragédia grega, particularmente as do ciclo troiano. Então, como diria a minha avó, juntamos a fome com a vontade de comer. Hécuba sempre me interessou não apenas como personagem trágica, mas principalmente pelas questões levantadas. Em suas tragédias, Eurípides se colocou contra o imperialismo grego. Ele mostrava os horrores da guerra, falava dos perdedores e não dos heróis. O mito de Hécuba, presente também de forma exemplar em sua outra tragédia, As Troianas, serve para Eurípides mostrar com clareza o seu pensamento.

ZH — A sua última participação no teatro havia sido com Fausto Zero, de Goethe, também dirigida por Villela. O que a levou a passar anos longe dos palcos?
Walderez —
Com Fausto Zero, de Goethe, fiquei em cartaz no teatro até 2005, quando participamos do Festival de Teatro de Moscou. Depois disso, participei de várias leituras dramáticas teatrais, inclusive de Hécuba, com direção do Gabriel. Como se vê, já pensávamos em Hécuba. Mas somente no ano passado (2011) surgiram as condições favoráveis para que pudéssemos realizar o nosso desejo de encenar essa peça. Eu nunca me afastei do teatro. Costumo dizer que teatro é minha terra natal, e terra natal está sempre dentro de nós. Mas televisão também sempre foi um lugar que visitei, desde o início da minha carreira. Atualmente, não faço teatro e televisão ao mesmo tempo, é muito cansativo. Por essa razão, como nos últimos anos fiz várias novelas seguidas, fiquei impossibilitada de fazer teatro.

ZH — Na sua formação, a filosofia teve um papel importante. Ela lhe abriu uma maneira diferente de abordar o teatro e, em específico, a tragédia grega?
Walderez —
Costumo brincar dizendo que tenho certa intimidade com os gregos, eu os observo desde os tempos da faculdade de filosofia. E desde essa época adquiri o hábito de me interessar por questões filosóficas e metafísicas, mas não como filósofa, e sim como atriz que quer conhecer melhor a si mesma e as personagens que representa, os seres humanos em geral. As tragédias gregas são narrativas míticas, suas personagens podem ser entendidas como formas arquetípicas da natureza humana e de suas eternas questões. Elas falam da estrutura do nosso psiquismo. Nesse sentido, as tragédias gregas nos ajudam a perceber melhor as possibilidades humanas, especificamente da nossa civilização ocidental, que nasceu lá na Grécia. Por isso, mergulhar nesse universo trágico desperta tanto meu interesse.

ZH — Quem é Hécuba, na sua interpretação? O que chama a atenção da senhora na personagem?
Walderez —
O mito de Hécuba sempre me atraiu porque narra a história de uma mulher que já foi rainha de Troia, já teve tesouros incontáveis, teve muitos filhos e perdeu tudo, perdeu a própria identidade, tornou-se uma escrava dos gregos, vencedores da guerra. No episódio narrado na peça, Hécuba descobre que a filha que ainda estava com ela vai ser sacrificada e outro filho, que havia sido enviado a um reino vizinho para ser salvo, foi assassinado. Hécuba resolve se vingar das atrocidades de que foi vítima inocente. Segundo o mito, Hécuba ao final se transforma numa cadela de olhos flamejantes, ou seja, numa força instintiva. A peça não narra apenas o drama pessoal da protagonista, não expõe somente elementos datados, particulares. Eurípides, em sua narrativa trágica, usa o mito de Hécuba para nos fazer pensar nas questões universais da natureza humana.

ZH — A senhora tem novos convites para outros espetáculos para breve?
Walderez —
Até o primeira semestre do próximo ano estarei na televisão, farei a próxima novela de Glória Perez, na Globo.

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