A cidade de Wiederspahn

Arquiteto Theo Wiederspahn foi responsável por parte da arquitetura mais significativa da Capital

Alemão projetou construções como o Edifício Ely, o Santander Cultural, o Margs e o Memorial do RS

Por: Fábio Prikladnicki
14/07/2012 - 05h03min
Arquiteto Theo Wiederspahn foi responsável por parte da arquitetura mais significativa da Capital Adriana Franciosi/Agencia RBS
O Edifício Ely foi adquirido em 1982 pela rede Tumelero e teve recentemente concluída sua revitalização Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS  

Da janela de seu apartamento, em um prédio do Centro Histórico de Porto Alegre, Günter Weimer, 72 anos, aponta para um casarão na esquina da Rua Duque de Caxias com a Rua General João Manoel:

- Está vendo aquele telhado ali? É um palacete projetado por Theo Wiederspahn que está pedindo, pelo amor de Deus, para ser recuperado.

Aposentado de três universidades do Rio Grande do Sul, entre elas a UFRGS, onde atualmente leciona como professor colaborador, Weimer é o maior especialista na obra do alemão que foi, segundo ele, o mais importante arquiteto em atividade no Estado na primeira metade do século 20. São de Wiederspahn algumas das mais representativas construções históricas do Centro da Capital, como os prédios onde atualmente funcionam o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (antiga Delegacia Fiscal da Receita Federal), o Memorial do Rio Grande do Sul (Correios e Telégrafos), a Casa de Cultura Mario Quintana (Hotel Majestic) e o Edifício Ely, que foi reinaugurado no dia 26 de junho, em um projeto de revitalização que marcou os 90 anos de sua construção. O arquiteto também foi responsável por edificações em outras cidades gaúchas. São mais de 500 projetos criados, nem todos executados. Entre os que saíram do papel, muitos foram demolidos para dar lugar a construções mais recentes. Alguns estão apenas parcialmente preservados: do Edifício Previdência do Sul (depois Cine Guarany, atual Banco Safra), na Rua dos Andradas, resta a fachada original.

Confira galeria de fotos dos prédios de Theo Wiederspahn

- No Brasil, prédio velho é sinônimo de "bota abaixo". Não sou fã de conservar tudo; se o prédio é ruim, se foi mal projetado, deve ser demolido para dar lugar a um novo. Mas, quando há um projeto de qualidade, deveria ser conservado, como ocorre em todo lugar do mundo - defende Weimer.

Uma extensa pesquisa do professor resultou, em 2009, no livro Theo Wiederspahn - Arquiteto (Edipucrs). Parte do acervo consultado está, desde 2008, no DELFOS - Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUCRS. São 687 pastas com projetos e estudos, além de livros e revistas que pertenceram ao arquiteto. O acervo ainda está sendo catalogado, e a consulta é restrita por causa da fragilidade do material, a exemplo de desenhos em papel vegetal. Coordenador do acervo, o professor de arquitetura Paulo Bicca informa que um objetivo é a publicação das cadernetas de campo, escritas em alemão:

- A arquitetura dele tem muito a nos ensinar do ponto de vista da organização dos espaços internos, de sua composição e do cuidado com os detalhes. A Casa de Cultura Mario Quintana é, ao mesmo tempo, o projeto de um edifício e de um pedaço da cidade, como se fossem a mesma coisa. Quem não se emociona ao passar pela travessa que une a Andradas com a Sete de Setembro?

Uma parte significativa de materiais que elucidariam aspectos fundamentais da arquitetura de Wiederspahn, no entanto, foi perdida junto com o acervo da construtora de Rudolf Ahrons, a maior do Rio Grande do Sul na época, onde Wiederspahn trabalhou de 1908, ano em que se estabeleceu no Brasil, a 1915, quando a empresa foi fechada.

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Theodor Alexander Josef Wiederspahn nasceu em 1878 na cidade de Wiesbaden, na Alemanha. Era um dos 13 filhos (dos quais seis sobreviveram) do carpinteiro e construtor Heinrich e de Christine Wiederspahn. Mudou-se para Porto Alegre com a segunda mulher, Maria Haffner. De família católica, Theo - como ficou conhecido - celebrou a nova união na Igreja Evangélica. O casal teve dois filhos, Heinz Willy e Hanna Gerda, já falecidos. São as netas que guardam lembranças pessoais. Susie Wiederspahn, 74 anos, filha de Heinz, recorda-se da infância na chácara no bairro Ponta Grossa, que ainda pertence à família, onde o avô se dedicava aos hobbies da apicultura e da marcenaria:

- Convivi com ele até seus últimos dias. Minha opinião é que se sentia frustrado porque não viu o reconhecimento. Isso veio mais tarde, depois de falecido (em 1952). Trabalhou até o fim. Deixou um lápis sobre a prancheta de desenho, onde estava o projeto de uma igreja evangélica.

Vera Maria Lütz Uber, 70 anos, filha de Gerda, completa:

- Ele teve duas falências. Acho que morreu pensando que toda sua obra seria, aos poucos, destruída.

Os modernos desprezaram o ecletismo de Wiederspahn, estilo que recuperava e combinava referências de diferentes épocas históricas, como o barroco e o clássico. Hoje, aquele ecletismo com acento alemão é reconhecido como traço positivamente distintivo da paisagem do Estado, como afirma Maturino da Luz, professor do UniRitter e da PUCRS:

- A arquitetura germânica era o que nos diferenciava na época. No Rio, a influência era mais francesa e, em São Paulo, italiana. A obra de Wiederspahn ombreia com as melhores do Brasil na época.

Com o passar das décadas, o trabalho do arquiteto conheceu outras fases. Projetos com apliques rebuscados como os do Memorial do Rio Grande do Sul e do Margs deram lugar a prédios que apresentavam cada vez menos enfeites. Wiederspahn aderiu progressivamente à simplicidade, como pode ser visto em igrejas e outras instituições evangélicas de cidades como Cachoeira do Sul, Novo Hamburgo e Canela. Esta evolução é um retrato das transformações do Rio Grande do Sul na primeira metade do século 20, um itinerário que talvez apenas recentemente tenha começado a ser compreendido na plenitude. O professor Günter Weimer resume:

- A arquitetura mais significativa do Estado é essa da primeira metade do século passado. Wiederspahn é figura-chave nesse contexto. Não é o único, mas não há ninguém com a projeção que ele tinha.

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Edifício Ely

Construído em 1922 para o comerciante Nicolau Ely, o prédio na Rua da Conceição foi adquirido em 1982 pela rede de lojas de materiais de construção Tumelero. No dia 26 de junho deste ano, foi concluído um projeto de revitalização, marcando os 90 anos da construção.

Casarão da Duque de Caxias

Palacete residencial datado de 1919, na esquina entre as ruas Duque de Caxias e João Manoel, no centro da Capital, hoje é uma propriedade privada inventariada pela prefeitura de Porto Alegre, o que significa que não podem ser realizadas modificações que o descaracterizem.

Santander Cultural

Wiederspahn venceu, em 1919, uma concorrência para a construção da sede do Banco Nacional do Comércio em Porto Alegre. O projeto definitivo é de 1927. O prédio, onde hoje funciona o Santander Cultural, foi reformulado, na década de 1930, pelo arquiteto polonês Stefan Sobczak.

Casa de Cultura Mario Quintana

No final dos anos 1920, Wiederspahn propôs passarelas para ligar as duas alas do antigo Hotel Majestic. O prédio foi transformado, em 1990, em centro cultural administrado pelo governo do Estado - hoje, um dos símbolos da paisagem urbana da Capital.

Margs e Memorial do RS

Entre os projetos mais representativos do arquiteto, estão o Memorial do RS e o Margs, com estruturas semelhantes que compõem uma espécie de díptico. São típicas da primeira fase de Wiederspahn, com detalhes rebuscados nas fachadas.

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