Virtual x real

Quanto vale o show pelo visor do celular?

Artistas opinam sobre o público que se preocupa cada vez mais em socializar na internet um espetáculo musical do que de fato assisti-lo

28/07/2012 | 05h02
Quanto vale o show pelo visor do celular? reprodução/Edu Oliveira
Foto: reprodução / Edu Oliveira

Faça um teste e tente se lembrar da última vez que você foi a um show em que não havia alguém com uma câmera fotográfica ou telefone celular levantado. Difícil, não é?
Desde a popularização dos equipamentos digitais, parece que sempre tem alguém (você mesmo ou quem está na sua frente) com uma tela luminosa em punho. Mas o afã de gravar todas as imagens e compartilhar o momento nas redes sociais o quanto antes nem sempre é visto como um tributo por quem está tocando no palco.

Na última semana, o vocalista do Iron Maiden, Bruce Dickinson, chegou ao ponto de xingar um espectador que não tirava os olhos do celular durante uma apresentação da banda nos EUA. A postura do cantor foi considerada extrema por músicos entrevistados pelo Segundo Caderno, embora eles admitam que vislumbrar uma plateia de cabeça baixa, teclando em seus smartphones, está longe do que consideram ideal.

– A melhor ideia que temos de um show seria a das reações espontâneas que acontecem ali e só ali. E a reação espontânea que acontece agora é tuitar "estou emocionado" – aponta o guitarrista do Pato Fu, John Ulhoa.

Vocalista da banda que melhor sintetiza o poder da internet na construção de uma carreira, Lucas Silveira mantém os fãs da Fresno sempre atualizados, atuando em praticamente todas as frentes virtuais. Mas ressalva que isso tem hora:

– Ficar se preocupando com redes sociais, enquadramentos, flash e carga de baterias durante um show, um filme, uma peça de teatro é o mesmo que jogar seu dinheiro fora. O cara paga para assistir a um show, mas acaba não assistindo. Nem possibilitando os que ficaram em casa de assistirem direito, visto que seu vídeo de celular provavelmente ficará horrível.

Outra formação gaúcha de rock que se consolidou graças à atuação na rede, a Tópaz também concorda que quem fica de cabeça baixa no smartphone ou vendo o show pelo visor da câmera – ou, pior, de um tablet, como se tem visto – não aproveita o momento em sua plenitude. Mas reconhece o valor dessa prática para a banda.

– Antes de gravarmos nossos vídeos, muita gente nos conheceu pelos filmes que o pessoal fazia nos primeiros shows. Alguns deles, inclusive, ainda têm mais visualizações do que os oficiais – diz Alexandre Nickel, vocalista da Tópaz.

Beto Bruno, frontman da Cachorro Grande, também aponta o excesso de preocupação em socializar um show pela internet em vez de vivenciá-lo, mas reconhece que essa prática acaba revertendo em benefício para o grupo:

– Não dá pra negar que é bacana a pessoa que está na apresentação tuitar que está gostando, que a casa está lotada. Só não dá pra fazer isso o tempo todo, sabe? Parece que esse povo tem uma necessidade de mostrar que não está de fora de nenhuma festinha.

Para a pesquisadora e professora da pós-graduação em Comunicação da Unisinos Adriana Amaral, quem costuma passar o tempo todo conectado – inclusive em sala de aula – não vê problemas em estender esse comportamento para um ambiente de espetáculo musical. Pelo contrário, afirma tratar-se de um movimento natural e irreversível.

– Da mesma forma que fotografar e filmar, tuitar, postar no Instagram ou comentar no Facebook são só mais itens a cumprir durante um show. Não vejo nisso desrespeito com relação ao artista, mas existe o estranhamento, principalmente por parte dos mais velhos – pontua Adriana.

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