Cinema

Colunista Roger Lerina opina sobre os filmes "Calafate, Zoológicos Humanos" e "O Som ao Redor"

Longas foram exibidos no Festival de Cinema de Gramado nesta quinta-feira

17/08/2012 | 19h47
Colunista Roger Lerina opina sobre os filmes "Calafate, Zoológicos Humanos" e "O Som ao Redor" Festival de Cinema de Gramado/Divulgação
"O Som ao Redor" fala sobre a instalação de uma milícia em um bairro de classe média do Recife Foto: Festival de Cinema de Gramado / Divulgação

No Festival de Cinema de Gramado o colunista Roger Lerina assistiu nesta quinta-feira à noite a dois longas, um nacional e um estrangeiro, que concorrem a Kikitos. Veja a opinião dele:

Calafate, Zoológicos Humanos

De Hans Mülchi

O último longa-metragem estrangeiro da competição foi outro documentário — dos cinco competidores, apenas dois títulos eram de ficção. Calafate, Zoológicos Humanos (2011) foi ainda o segundo representante do Chile no certame — lembrando também que o documentário argentino Diez Veces Venceremos tem como personagem um indígena chileno e foi filmado em boa parte no país vizinho. O filme de Hans Mülchi recupera um traumático episódio da história dos povos originários do sul do continente: o sequestro em fins do século 19 de aborígenes patagônios e da região da Terra do Fogo para serem exibidos em cidades da Europa como atrações exóticas de "zoológicos humanos".

Calafate adota o estilo de investigação histórica para retraçar o caminho desses índios arrancados de suas terras por empresários europeus com a conivência do governo chileno. Alternando entrevistas com pesquisadores, fotos e documentos de época e depoimentos de representantes contemporâneos desses grupos nativos chilenos, o filme prende a atenção graças ao tom detetivesco — que remete aos bons programas de TV nessa linha de canais como History Channel. Esse tema já rendeu um grande filme recente de ficção: Vênus Negra (2010), impressionante drama do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche sobre uma mulher africana apresentada na Europa como número de feira popular.

O problema de Calafate é que, da metade para o final, a narrativa vai perdendo força ao se concentrar nos trâmites para o traslado dos restos de índios, encontrados em um museu antropológico de Zurique, de volta para Punta Arenas, no Chile. Por excesso de respeito e solenidade com o processo de reparação de um crime cometido há 130 anos, o filme abre mão de seu caráter cinematográfico, apequenando-se como um registro meramente documental.

O Som ao Redor

De Kleber Mendonça Filho

A bruxa voltou: um dos filmes mais aguardados desta edição do Festival de Gramado, a sessão oficial de quinta-feira de O Som ao Redor (2012) foi interrompida perto do fim por problemas de... som. A ironia vai além do título: o longa do diretor Kleber Mendonça Filho tem um desenho de som primoroso, em que ruídos, barulhos e músicas ganham corpo como um personagem a mais da história. A queima do driver da caixa central, responsável pelas altas frequências do som do cinema, tornou os diálogos incompreensíveis — lembrando transtornos ocorridos nas primeiras sessões do festival. O defeito, felizmente, foi solucionado, e na manhã seguinte o filme foi reexibido sem incidentes.

O Som ao Redor coloca uma lupa sobre um bairro de classe média de Recife, em que os moradores aceitam a vigilância oferecida por uma milícia, comandada por Clodoaldo (o sempre excelente ator Irandhir Santos). Boa parte dos imóveis da região pertence à família do corretor João (Gustavo Jahn, realizador catarinense que dirigiu uma série de filmes experimentais em Porto Alegre). A chegada desse grupo de seguranças aparentemente não altera a banalidade do cotidiano dessa comunidade urbana — mas ao longo do filme percebe-se um rumor que denuncia o subterrâneo mal-estar das coisas.

Como nos curtas Vinil Verde (2004) e Recife Frio (2009), Kleber flerta com o cinema fantástico e de horror em sua estreia no longa de ficção, criando um clima de mistério e tensão dramática que vai envolvendo o espectador de maneira crescente, até o clímax do desfecho.

Ao mesmo tempo, O Som ao Redor faz uma sutil radiografia da singular acomodação de classes no Brasil, em que patrões e empregados dividem os mesmos espaços em enganosa harmonia — apesar da evidente estratificação social que, no caso do filme, reproduz no ambiente urbano o coronelismo rural nordestino. Uma produção de estridente contundência temática e estética, que lembra o cinema do austro-alemão Michael Haneke — uma espécie de Caché (2005) nos trópicos.

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