
- Se eu tivesse programado, seria um golpe baixo de merchandising - afirma Rubem Grilo sobre a coincidência de completar 66 anos em 28 de setembro, dia da abertura da exposição individual Xilogravuras - Ferramentas, Objetos Imaturos, Aparelhos de Precisão e Outras Inutilidades.
Com 174 obras - em parte, inéditas - criadas desde 1990, a mostra faz parte das comemorações dos 30 anos do Museu do Trabalho, na Capital.
Mineiro de Pouso Alegre radicado no Rio, Grilo é referência na arte brasileira. Como artista, curador e professor, dedica-se à tradicional técnica de gravação sobre matriz de madeira. Garante que, na era das novas tecnologias, a xilogravura continua pertinente como sempre.
- Até que ponto nos transvestimos de tecnológicos apenas em obediência ao tempo em que vivemos? - questiona, em entrevista por telefone a Zero Hora.
Em meio à angústia de que tudo pode ser substituído, a técnica aparece como um gesto de resistência:
- Quando fazemos xilogravura, estamos discutindo nossos dilemas de hoje. É um gesto solitário por meio do qual o homem se resgata frente a outras determinações que não sejam sua vontade interior.
Essa reafirmação do indivíduo é também a resistência do particular sobre o universal. Para o artista, a xilogravura não é um gesto nostálgico, mas dinâmico.
Parte das obras da exposição dialoga com as máquinas do acervo permanente do Museu do Trabalho. Assim, as ferramentas e os objetos imaginados por Rubem Grilo nas xilogravuras refletem, sob alguns aspectos, a condição dos aparelhos presentes fisicamente no museu, testemunhas do universo de trabalho de outros tempos. Hoje substituídas por dispositivos tecnológicos, as máquinas conservam sua função estética.
- Se pensarmos do ponto de vista utilitário, a xilogravura também seria anacrônica, pois pertence ao tempo dos primeiros impressos. Mas, como meio de expressão, o uso da mão é um gesto original do ponto de vista do registro humano de nossa presença na Terra.
Trinta anos de história
Teares, bigornas e guilhotinas para cortar papel fazem parte do acervo de máquinas do Museu do Trabalho, criado em 1982 para conservar a memória laboral do Rio Grande do Sul. Em seus 30 anos, que serão comemorados no dia 7 de dezembro, consolidou-se também como espaço de exposições de artes visuais.
Desde a década de 1980, diferentes mídias coexistem. O Teatro do Museu do Trabalho abriga ensaios e espetáculos. Por meio do consórcio de gravuras, a instituição populariza a coleção de obras de arte.
- Quando assumi a sala de exposições, no início da década de 1990, era difícil convencer um artista a expor aqui. Hoje, temos uma lista de dezenas de interessados _ compara Hugo Rodrigues, coordenador do museu. _ Nosso trabalho continuará o mesmo. A ideia é dar espaço para os jovens, que é uma das nossas características, e para artistas de fora do Estado com um currículo importante, como é o caso do Rubem.
Programe-se
Rubem Grilo debaterá a xilogravura com convidados no Auditório do Atelier Livre (Erico Verissimo, 307), em Porto Alegre. As atividades serão de quarta a sexta-feira, às 18h, com entrada franca.