Infinitas conexões

Humberto Gessinger reúne convidados em seu primeiro trabalho solo

Participações incluem os músicos Luiz Carlos Borges, Bebeto Alves, Nico Nicolaiewsky, Frank Solari e Tavares

01/02/2013 | 17h49
Humberto Gessinger reúne convidados em seu primeiro trabalho solo Caco Konzen/Especial
Foto: Caco Konzen / Especial

Humberto Gessinger já foi uma banda, montou um trio e se aventurou em dupla. Mas, para gravar o vigésimo disco de sua carreira, decidiu pela solidão – ou quase isso. Talvez, bem longe disso.

Em seu primeiro trabalho assinado como artista solo, Gessinger chamou um time que atravessa a história da música do Rio Grande do Sul para conectar gêneros e épocas. Conexão é a palavra de ordem. Mas o plano inicial não era esse. À medida que as músicas começaram a ser desenhadas em meio à turnê do Pouca Vogal, ao lançamento do livro Nas Entrelinhas do Horizonte, a uma animada vida virtual e a partidas de tênis, Gessinger explica que elas foram "pedindo" pelos convidados.

– Gravava uma demo e pensava: "Essa música ficaria perfeita com o Frank Solari" ou "Bah, a gaita do (Luiz Carlos) Borges daria muito certo aqui". E senti que era isso o que eu queria fazer, trabalhar com gente diferente e não com uma banda fixa – explica.

De repente, estava formada uma linha que unia representantes de gêneros variados da música feita no Rio Grande do Sul ao longo do tempo. De Luiz Carlos Borges ("um mestre da música regional"), passando por Bebeto Alves ("um dos que fizeram a ponte necessária com o pop"), Nico Nicolaiewsky ("aquela coisa bem porto-alegrense, bem Bom Fim"), Frank Solari ("um músico universal") até Tavares, ex-Fresno ("representa muito bem a nova geração"). Sem contar duas formações de músicos dos Engenheiros do Hawaii.

Em fase de gravação, o disco ainda não tem nome ou data de lançamento – deve chegar às lojas entre o fim de março e começo de junho. O que se sabe é que, musicalmente, deverá lembrar a produção de Gessinger dos anos 1990, com canções mais longas e variando entre o rock e o regional. Logo, que o ouvinte não se espante ao escutar uma gaita tocada com pedais de distorção.

– É nesse espaço nebuloso, sem muita classificação, que eu quero localizar este disco – define o músico.

Em vídeo, ouça trechos do disco solo de Humberto Gessinger




ENTREVISTA: Gessinger nas entrelinhas

Humberto Gessinger recebeu o Segundo Caderno no início da semana, em meio às gravações do seu novo disco. No estúdio Submarino Amarelo, o cantor, compositor e instrumentista aguardava a chegada de Luiz Carlos Borges, um dos mais celebrados músicos regionalistas em atividade, que gravaria participação em uma das faixas.

Sentado ao lado de um Nord Electro vermelho, coberto de adesivos com logotipos das diferentes fases do Engenheiros do Hawaii e do Pouca Vogal, Gessinger falou sobre os 50 anos que completa no final de 2013, sua trajetória, o processo criativo, seu legado e por que prefere cair na estrada a ficar em estúdio.

Engenheiros do Hawaii
"Sempre me perguntam se não vou fazer uma turnê comemorativa, tocar disco na íntegra, essas coisas. Mas, honestamente, não tenho planos para nada disso ainda. Pelo menos não oficialmente, nada que vá levar o nome da banda ou de um disco em especial. Há alguns discos dos Engenheiros que eu tocaria exatamente da mesma forma, outros que tocaria de maneira diferente, enfim. Sigo tocando músicas dos Engenheiros, claro, mas quero seguir adiante.Acho importante saber celebrar o passado sem se apegar a ele."

Pouca Vogal
"O Pouca Vogal foi uma universidade, cresci demais como músico durante esses anos na estrada com o Duca (Leindecker). Transportar as músicas do Engenheiros para aquele formato reduzido, por exemplo, exigiu um poder de foco e concentração gigantesco que eu não nem sabia que tinha. Hoje, sou um músico melhor no palco, sei trabalhar melhor ali do que antes do Pouca Vogal, não tenho dúvida. E com o projeto eu tinha vontade até de fazer um show nas Missões no estilo Live at Pompeii, do Pink Floyd."

Estrada versus estúdio
"Não vejo a hora de cair na estrada! Na próxima semana, começamos os ensaios, e a ideia é fazer shows antes mesmo de lançar o disco. Gosto muito de estar no palco, de sentir o público, é uma conexão diferente. E desta vez será uma experiência toda nova, porque venho melhor preparado depois do Pouca Vogal. Já o estúdio, enxergo como uma obrigação, um espaço que não considero nada especial, é feito para trabalhar e nada mais. Na realidade, tenho o saco cheio de estúdio, já vi botão demais na minha vida, não aguento mais (risos)."

Trabalho autoral
"Não conseguiria jamais ser um artista de banda cover, só consigo criar e tocar a minha própria música. E fico realmente impressionado com quem consegue ir de Van Halen a Ivete Sangalo como se fosse a coisa mais normal do mundo.A maioria das pessoas tende a depreciar quem toca em banda cover, mas enxergo muito valor ali. É preciso entrar em outra sintonia, em outra vibração, para tocar bem a música dos outros. Eu não consigo, acho que morreria de fome se dependesse disso (risos)."

Chegando aos 50
"A sensação que tenho é de que ainda há muito mais a fazer, a descobrir, bem mais do que olhar para trás e contemplar o que já fiz. E esse disco é um exemplo disso, revela muito do que eu sou, dessa vontade de continuar a fazer as coisas, de olhar para frente. Inclusive, tinha uma vontade muito grande de gravar um DVD desse disco no dia do meu aniversário, mas é 24 de dezembro, acho que não teria muito público (risos). E é engraçado que, no que toca à música, só tenho ouvido coisa antiga, rock progressivo, música regional. Ouço muita coisa, mas não fico procurando nada, não. Nos últimos tempos, até pela parceria com o Nico (Nicolaiewsky), fui ouvir tudo do Musical Saracusa, que era a banda preferida da minha adolescência."

Letras datadas
"Claro que ninguém quer fazer uma música que dure 15 minutos e seja esquecida, mas vou confessar uma coisa: adoro ser datado. Talvez não tanto musicalmente, mas no que diz respeito ao texto. Minhas letras têm total conexão com o tempo em que foram escritas, elas pertencem a um determinado período da minha vida, têm relação com o que acontecia na época. Acho isso fantástico, não vejo como seria diferente. E, ao mesmo tempo, pessoas da minha idade que vêm me dizer que o filho de 15 anos gosta mais da minha música do que elas próprias gostam hoje. Interessante isso."


>> As faixas do álbum

- Essas Vidas da Gente (Gessinger / Bebeto Alves)
- Recarga (Gessinger / Duca Leindecker) – com Luiz Carlos Borges
- Segura a Onda, Dorian Gray (Gessinger) – com Nico Nicolaiewsky
- Milonga do Xeque Mate (Gessinger) – com Frank Solari
- Bora (Gessinger)
- Tchau Radar (Gessinger / Tavares)
- Sua Graça (Gessinger)
- Plano B (Gessinger / Fernando Aranha /Pedro Augusto / Gláucio Ayala)
- Lá e Cá (Gessinger / Leindecker)
- Tudo Está Parado (Gessinger / Jota Quest)
- A Ponte para o Dia (Gessinger / Bebeto Alves) – com Bebeto Alves

 
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