O infinito de Wallace

Inédito no Brasil, romance 'Infinite Jest', de David Foster Wallace, ganha tradução de Caetano Galindo

Norte-americano, morto em 2008, também ganha força com obras em português

12/02/2013 - 15h01min
Inédito no Brasil, romance 'Infinite Jest', de David Foster Wallace, ganha tradução de Caetano Galindo Divulgação/Divulgação
David Foster Wallace (1962 – 2008) é autor de uma obra complexa, considerada de difícil tradução Foto: Divulgação / Divulgação  

“Este honesto tabelião era um dos homens mais perspicazes do século. Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”, ironizou Machado de Assis no conto O Empréstimo. Mais uma vez, aí está. Vai-se o homem, chegam os elogios.

O norte-americano David Foster Wallace (1962 – 2008) foi um dos escritores mais perspicazes das últimas décadas. Suicidou-se em 2008, após tomar o antidepressivo Nardil por 20 anos, e teve suas cinzas jogadas na ilha chilena de Masafuera pelo amigo e também escritor Jonathan Franzen.

Agora, lembrou Franzen em artigo na revista New Yorker, “um establishment literário que nunca pré-selecionou um dos seus livros para um prêmio nacional o declara um tesouro perdido do país”. Após o artigo, publicado em 2011, um romance póstumo de Wallace, The Pale King (O rei pálido), foi finalista do Pulitzer e vencedor de outro prêmio, o Salon Book. Em 2012, uma biografia sobre o escritor veio à tona: Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace (Toda história de amor
é uma história de fantasmas
), de D.T. Max. Também em 2012 foi lançada a compilação de ensaios Both Flesh and Not (Tanto com carne quanto não, em tradução livre).

No Brasil, Wallace também ganha força. Após lançar Breves Entrevistas com Homens Hediondos, com 23 contos, em 2005, a Companhia das Letras publicou no ano passado Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, com ensaios, e deverá colocar nas prateleiras até o final deste ano Infinite Jest, o maior romance de Wallace. Apontado pela revista Time como um dos cem melhores livros em inglês publicados de 1923 até hoje, Infinite Jest é considerada uma obra extremamente complexa de ser vertida para outras línguas e deverá ser um desafio para o tradutor, o curitibano Caetano W. Galindo, professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná. Mas Galindo tem as credenciais certas: já traduziu Thomas Pynchon, a quem Wallace é comparado, e Ulisses, de James Joyce, quase um tabu entre tradutores.


Busca infinita

Caetano W. Galindo narrou o desafio de traduzir o título de Infinite Jest no blog da Companhia das Letras:

“Infinite Jest (que a princípio pode querer dizer algo como Piada Infinita) é uma citação. De quando Hamlet, do Hamlet, segura nas mãos a caveira de Yorick, o bobo da corte, e lembra que na sua infância conheceu aquele fellow of infinite jest, um camarada que não parava de brincar…

(...) Mas um problema recorrente da tradução de citações é que, a não ser em casos muito óbvios (ser ou não ser), elas tendem a se perder.

(...) Segundo, Infinite Jest é também, no livro, o título de quatro filmes que teriam sido feitos (eles são mais um boato que um fato) pelo pai do personagem principal, que, na verdade, foi fazendo um atrás do outro, sempre, como tentativa de completar uma obra perfeita, que nunca o satisfez. Infinite Jest IV é o filme que aparentemente existe e está sendo usado por terroristas, dado o seu potencial infinito de diversão.

(...) Terceiro, e bem importante, a escolha do título de uma tradução é sempre conjunta. E, na verdade, quem tem (e deve ter) a palavra final são os editores. Eu mesmo devo ter emplacado menos de 20% dos meus títulos sugeridos até hoje.

A minha opinião? Ainda não sei.

(...) Meu documento de Word se chama Infinda Graça, que inclusive fica perto da Infinita Graça que o Erico lembra que o Millôr usou no Hamlet. Eu gosto da ligeira dupla leitura fonética com “fim da graça” e gosto, sim, até da leve ressonância
religiosa do termo graça. O livro tem ALTAS ressonâncias no mínimo místico-religiosas.

Deve ser isso que eu vou propor.

Veremos.”


Conheça as obras de Wallace em português

Infinite Jest
Romance que projetou Wallace no círculo literário dos EUA, em 1996. Por conta da depressão e dos excessos com drogas e álcool, o autor somou passagens por clínicas psiquiátricas. Refletiu essa turbulência na complexa e fragmentada narrativa do livro, uma projeção futurista ambientada na superpotência resultante da unificação de EUA, Canadá e México. Nessa sociedade, uma atração de TV exerce uma espécie de poder hipnótico sobre os espectadores, espelhando a visão mordaz de Wallace sobre a indústria do entretenimento e a publicidade. Será lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo
Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo reúne textos de Wallace publicados na imprensa americana – no formato de grandes reportagens, crônicas e ensaios. Entre os relatos, que seguem a vertente do jornalismo literário temperados com o humor irônico do autor, estão suas impressões sobre uma viagem pelo Caribe a bordo de um cruzeiro de luxo, um perfil do tenista Roger Federer, uma palestra sobre Franz Kafka e coberturas de eventos como uma feira agropecuária e um festival da lagosta. Editora Companhia das Letras, disponível em formato e-book a R$ 31,50, em média.

Breves Entrevistas com Homens Hediondos
Breves Entrevistas com Homens Hediondos foi lançado nos EUA em 1999 e reúne 23 contos. Wallace aborda temas que lhe eram íntimos, como dependência de drogas e depressão, e outros pelos quais ele tinha particular interesse, destacando perversões
sexuais, desvios de comportamento, relacionamentos afetivos e o poder nocivo da mídia na vida contemporânea. O autor exercita sua verve satírica e o experimentalismo formal combinando referências eruditas e populares – recorre, a exemplo de Infinite Jest, a extensas notas de rodapé. Editora Companhia das Letras, R$ 62

 
 
 
 
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