Que compor música de concerto é uma tarefa masculina, não há dúvida. Não há razão biológica, psicológica ou cerebral para isso. É apenas uma constatação: olhando para trás, a hegemonia masculina é absoluta, mesmo que um dos primeiros compositores de quem se sabe o nome - quem sabe até o primeiro - foi uma mulher, Hildegard von Bingen, nas antiguidades do século 11. Bento 16 não deixou de ser papa antes de proclamar Santa Hildegard como 35ª Doutora da Igreja, isso em outubro de 2012. A música, para ela, era mais uma das tantas mensagens assopradas diretamente por Deus, e não faz muito que as suas canções místicas começaram a circular por aí, transformando a veneranda Hildegard em sucesso medieval de vendagem.
Sim, olhando para trás, tudo começa com Santa Hildegard.
Depois dela, há um imenso deserto feminino, com uma árvore aqui, outra ali. Uns exemplos: há dois séculos, o Dr. Mendelssohn achava que, de seus dois filhos, só Felix devia ser compositor. Fanny não podia - melhor seria casá-la e caso encerrado. Pois o marido de Dona Fanny incentivou suas aventuras musicais e dizem que, se não fosse a condição de gênero, talvez ela tivesse sido melhor compositora do que o irmão. Vem bem a calhar a historieta que se conta do casal Mahler. Entrando em casa após o casamento, o empedernido Gustav diz para sua também compositora e agora esposa Alma: "Nesta casa só cabe um compositor". Ao que ela, mais do que depressa, fechou os cadernos de canções e se foi a colecionar amantes.
O Rio Grande do Sul também foi um deserto feminino na composição musical, mas só até Esther Scliar, já em pleno século passado. Ela ultrapassou os preconceitos de gênero e se transformou numa das personalidades fascinantes da música local para, logo em seguida, ser uma das grandes mestras de música que o Brasil conheceu. Toda a sua música está gravada e pode ser acessada em sites formais e informais. As partituras já são mais difíceis de obter, pois muitas ainda estão em manuscrito e circulam de forma caseira. Na memória dos alunos, ela ficou gravada muito profundamente, e não se pode passar sobre a história da música brasileira de concerto sem passar por esse nome, Esther Scliar, que ressoa novidade, rigor, destemor, modernidade.
Depois de Esther, já não foi tão excepcional, tão surpreendente, encontrar compositor-mulher. Em tempo bem mais recente, há Elaine Thomazi, que, depois de estudar aqui, foi ter aulas com Tristan Murail na Universidade de Columbia em Nova York e se bandeou para Londres, seu pouso de hoje.
Lourdes Saraiva vem da mesma geração. Uma olhada rápida no Soundcloud mostra, num par de cliques, duas obras bem fascinantes: The Path of the Thousand Doors para percussão, hipnótica nas cores que vão mudando de degrau a degrau, e Poema Místico para Piano. Essa peça de 2012, registrada pela pianista Luciane Cardassi, é bem inacreditável - são duas camadas que se juntam, um poema recitado aos pedaços e aos mistérios pela pianista e o piano propriamente dito que se toca como se fosse Debussy. Ah, essa Lourdes é cheia de ideias!
Outra compositora daqui é Susana Almada, que colocou em música os poemas juvenis de Lya Luft e depois se foi a compor para orquestra e para solos de piano. Noite Estrelada, por exemplo, é quase uma alucinação do piano em torno do Boi Barroso do folclore gaúcho. A inspiração de Susana sempre foi profunda, escura, mas não se sabe onde ela poderia ter chegado como compositora pois, assim como Esther Scliar, ela decidiu sair da vida antes do tempo, deixando na promessa todo um caminho a percorrer.
Tanto Susana quanto Lourdes e Elaine saíram do Instituto de Artes da UFRGS que, já há um par de décadas, é escola importante de composição musical. Agora mesmo, há compositoras em formação por lá. Há Touanda Beal e Carolina Amaral, próximas da porta de saída da formação acadêmica.
Há Marina Marcon e Irmã Paula Graminho ainda no início. Cada uma delas tem um estilo diferente de enfrentar os problemas de composição da música de concerto. Aliás, como deve ser. Foi-se o tempo em que se pensava que ensinar composição era aplicar conhecimentos monolíticos para transformar os alunos em bolachas de pacote, todas iguais e cheias de calorias vazias. Agora se busca a boa técnica, mas também se procura a maior variedade possível de sotaques, tropeçando nas individualidades como boas pedras no caminho.
São muitas as compositoras de hoje com suas encomendas, estreias, prêmios. Se for feita uma lista do estado da arte da década de 2010, o resultado será bem mais tranquilizador do que a dupla de compositoras do século 19 (a Clara e a Fanny...). Aí vêm Kaija Saariaho, Judith Weir, Olga Neuwirth, Chaya Czernowin, Ada Gentile, Isabel Mundry, Unsuk Chin. Uma vez começando a lista, não há como parar. Os sotaques são diferentes, os mundos são imensos e, melhor, estão sendo criados agora mesmo.