Para ver na TV e teclar

Um olho na TV, outro no computador: cresce o fenômeno chamado segunda tela

Espectadores cada vez mais interagem entre si e com a própria programação

27/04/2013 | 05h31
Um olho na TV, outro no computador: cresce o fenômeno chamado segunda tela Jean Schwarz/Agência RBS
Caroline Kirsch assistiu à estreia do seriado "Hannibal" ao mesmo tempo em que acessava conteúdos extras com um aplicativo no celular Foto: Jean Schwarz / Agência RBS

Na novela das nove, você não aguenta mais os desencontros de Morena e Théo. No jogo de futebol, o time adversário está perdendo por 4 a 0. Em seu seriado favorito, um dos personagens principais morreu. Como dividir essas sensações diante da TV? Se você pensou imediatamente nas redes sociais, já faz parte do grupo que está mudando a forma com que espectadores interagem entre si e com a própria programação. E mais: que está fazendo as emissoras vislumbrarem novas oportunidades de negócios, mantendo o público sintonizado no mesmo canal.

Fenômeno segunda tela: experiência coletiva

De acordo com pesquisa do Instituto Ipsos Marplan, 64% dos brasileiros conectados à internet assistem à TV ao mesmo tempo em que usam tablets, smartphones e notebooks. Já segundo o Ibope, 70% buscam na internet conteúdos sobre os programas a que assistem, enquanto 80% mudam de canal influenciados por comentários nas redes sociais. Esses números dimensionam um fenômeno já estabelecido no Brasil e conhecido como segunda tela.

Reflexo da tecnologia disponível aos telespectadores, a tendência vem sendo incorporada pelas emissoras. O seriado Hannibal, da AXN, foi lançado no país na semana passada com um aplicativo. No tablet ou smartphone, são acessados conteúdos além dos disponíveis na TV, como a história de vida dos personagens. A possibilidade de acessar informações em outras plataformas é o que atrai espectadores como a publicitária Caroline Kirsch, 28 anos.

— No celular, acesso informações que eu não teria só assistindo ao programa. Essa provocação das emissoras deixa o conteúdo mais interessante — comenta Caroline, que assistiu aos primeiros episódios de Hannibal simultaneamente ao app (aplicativo) do canal.

Pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Fábio Canatta destaca que o fenômeno dá nova vida à grade de horários, que estaria perdendo sentido diante da oferta dos conteúdos sob demanda, escolhidos conforme o gosto do telespectador:

— Isso vai dar novo gás aos anunciantes e às formas de aproveitar a publicidade em todas as plataformas.

A Rede Globo já entrou na onda e lançou, no início do ano, o app Com—VC, oferecendo informações adicionais sobre personagens de alguns programas. É justamente a adesão das grandes emissoras e a popularização do conceito de segunda tela que devem fazer com que estratégias do tipo se tornem frequentes no Brasil.

Para Sheron Neves, mestre em estudos televisivos pela Birkbeck, da University of London, e professora de transmídia na ESPM-Sul, em poucos meses os brasileiros estarão habituados a baixar aplicativos de programas e interagir com os conteúdos oferecidos. Ela cita os Estados Unidos como exemplo de país onde a prática já é rotineira. Na Europa, o uso de apps para explorar conteúdos também já é comum. O filme holandês APP, por exemplo, apresenta parte da narrativa no smartphone.

— As experiências dos usuários estão mudando. Na segunda tela, as pessoas participam de um evento, têm iniciativa, fazem parte da narrativa — analisa Fábio Canatta.

O fenômeno da segunda tela só deve aumentar. De acordo com pesquisa da Motorola, 43% dos brasileiros já usaram mídias sociais para recomendar um programa de TV a outra pessoa. Se continuar dessa forma e nesse ritmo, em pouco tempo cada programa terá seu próprio aplicativo, o que também deverá acontecer com transmissões esportivas. Se as redes sociais estão mudando a forma como as pessoas se comunicam, agora é a maneira como se vê e se faz televisão.

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.