A arte do diálogo

"Escrever todo mundo pode, mas ser lido é uma construção constante"

Confira entrevista com Eliane Brum, que lança livro nesta segunda-feira, em Porto Alegre

30/06/2013 - 18h14min
"Escrever todo mundo pode, mas ser lido é uma construção constante" Lilo Clareto/Divulgação Arquipélago Editora
Eliane Brum tem mais de 40 prêmios por reportagens escritas Foto: Lilo Clareto / Divulgação Arquipélago Editora  

Zero Hora – Como você enxerga o fato de seus textos serem um fenômeno de compartilhamento na Internet?

Eliane Brum – Há varias narrativas na internet. Escrever todo mundo pode, mas ser lido é uma construção constante de credibilidade e reputação. Sinto que o que eu estou escrevendo está dialogando com as pessoas. O texto vira um debate. Hoje a gente escreve "textos-debates". E aprendo bastante com os leitores, eles me mostram muitas coisas que aprofundam o meu olhar. Eu não escrevo pensando no que dá ou não audiência. Acho que escrever pensando na audiência é jornalisticamente condenável e também uma prisão que não me interessa. Escrevo só sobre o que acho relevante. E insisto no que acho relevante, mesmo que não tenha audiência. Neste sentido, talvez o exemplo mais claro sejam minhas colunas sobre moradores de rua. Escrevi várias, uma delas _ Uma História de Luz _ está no livro. Na análise conjunta da audiência, as colunas sobre moradores de rua são as menos lidas, é como se as pessoas se recusassem a enxergá-los em todos os lugares, inclusive na coluna. Por isso, escrevo sobre o tema sempre que tenho oportunidade. Dito isso, é claro que fico muito contente pelo fato de minhas colunas terem boa audiência, porque escolho minhas melhores palavras e desejo que elas sejam lidas, porque acredito naquilo que faço – sou o que faço.

"A Menina Quebrada e outras Colunas de Eliane Brum" terá sessão de autógrafos nesta segunda-feira, na Livraria Cultura do Bourbon Country, em Porto Alegre

ZH – Qual é a tua coluna mais lida?

Eliane – A coluna com mais pageviews está em torno de 900 mil, é Meu Filho, Você Não Merece Nada. Tem 228 mil "curtir" no Facebook e foi tuitada 4.666 vezes. Isso foi no site da Época. O restante, eu não tenho como avaliar. As pessoas copiam e colam nos seus blogs.

ZH – Qual a média de comentários dos teus posts?

Eliane – Varia muito. Comentários se pulverizam bastante, hoje migraram para o Facebook e para o Twitter.

ZH – Você consegue identificar o perfil do público para quem está falando? Que tipos de temas tendem a fazer maior sucesso?

Eliane – É muito variado. A minha coluna tem essa característica que é que as pessoas nunca sabem o que encontrar lá. Tem política, comportamento... é misturado. Esse ritmo foi mantido no livro. Os textos têm estilos diversos, cada história que a gente conta pede suas próprias palavras, tem que se descobrir o jeito de contar.

ZH – Você sente que precisa ter bastante propriedade sobre os assuntos que aborda?

Eliane – Eu preciso estar tomada por algum tema, essa é a primeira verdade que eu ofereço, e só escrevo se acho que tenho algo a acrescentar ao debate, contar de outro ângulo o quê não tenha sido falado antes. Uma parte importante do meu tempo é dedicada a essa coluna. Eu tenho consciência da responsabilidade desse lugar. Eu acho que, para escrever, tenho que ter boas dúvidas, e alguma propriedade, senão eu não me autorizo a escrever. Quando é um tema da semana que eu sinto que preciso ter mais pesquisa, eu viro a noite. Acordo às 4h ou às 5h da manhã e começo a trabalhar. Se a coisa aperta, eu acordo às 3h.

ZH – Como é a sua rotina? Você tem algum ritual para escrever?

Eliane - Eu viajo bastante, então a rotina muda. Mas quando estou em casa, eu acordo às 5h da manhã. Normalmente, sem despertador _ detesto despertador. Quando eu passei a trabalhar em casa, eu descobri que o meu horário era esse. A primeira coisa que eu faço é botar a chaleira pra tomar chimarrão, eu preciso. Enquanto a água esquenta, eu faço um exercício de olhar a paisagem na frente da minha janela, que é bem paulistana, para tentar ver o que está diferente, sentir o dia que começa e que a gente não sabe no que vai dar. Só depois eu vou escrever. Tomo café às 9h, leio jornal, cozinho. Mas sempre tem outras coisas, sempre estou fazendo uma grande reportagem, escrevendo um livro, a coluna. As entrevistas, eu faço pessoalmente, três vezes por semana. Leio muito, preciso ler todos os dias para viver. É onde eu consigo desligar. Eu leio na banheira _ era um sonho antigo que eu tinha. Nos meus dias mais felizes, eu entro na banheira, leio um livro inteiro, e saio da banheira. O meu recorde foi ficar 7 horas na banheira. Também vejo muitos filmes e seriados, como Mad Men.

ZH – Como é o processo de gestação de cada coluna?

Eliane – Eu me movo pelas dúvidas e escrevo pra desacomodar. Não posso dizer se consigo ou não, mas espero que, ao final de uma coluna minha, o leitor fique perturbado. Para fazer isso, eu primeiro preciso me provocar, desacomodar. É um processo que eu já fazia nas reportagens.

ZH – Mas então você vive em um estado permanente de dúvida, de angústia?

Eliane – Eu não sou uma angustia ambulante, mas eu me movimento pela vida assim. Eu tenho muita fome de mundo, tento pensar e saber se eu estou pensando direito. A gente tem padrões de pensamento.

ZH – A internet oferece muitas distrações para quem tenta ler um texto longo. Você já teve que brigar muito para poder escrever os textos do tamanho que você queria na internet?

Eliane – Eu defendo isso por onde eu vou. A internet serve pra vários formatos. Para os jornalistas, a melhor novidade que a internet trouxe é a possibilidade de escrever mais. Eu acho uma tremenda bobagem (a imposição de textos curtos na internet), não faz nenhum sentido. Eu passei a vida inteira ouvindo que leitor não gosta de texto longo, com a internet a gente pode provar que isso não é verdade.

ZH – Se você já tem tanta penetração na internet e acha que o meio se presta a textos longos, por que lançar um livro, colocar no papel?

Eliane – As colunas estão fragmentadas na internet. O livro é a história de um percurso. Tem uma fotografia de um momento atual a partir do meu olhar. Coletânea não é apenas juntar, é uma história que tu conta.

ZH – Como foi o processo de seleção das colunas?

Eliane – Foi meio duro, eu sou bem passional com as minhas coisas. As colunas são vivas para mim, eu me senti traindo algumas. Tiramos as entrevistas, esse foi o primeiro critério. Eu tento resgatar grandes entrevistas que não tem espaço no impresso, a mais longa daria 50 páginas no livro. Escolhi os textos que contavam a melhor a história de um momento. A primeira ideia era fazer 40, convenci o Tito (Montenegro, o editor) que 50 era mais bonito. No fim, entraram 64 colunas.

ZH – Tenho a impressão que é muito mais comum ver textos longos publicados na internet por veículos norte-americanos do que brasileiros. Você acha que, neste sentido, você é uma exceção no Brasil?

Eliane – Acho que é uma percepção correta, até porque, em geral, os sites republicam o que foi publicado no impresso, que tem um tamanho limitado. Me parece que os textos longos na internet têm sido produzidos em espaços alternativos.

 
 
 
 
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