Um dos grandes

"Foi no Mês que Vem" coloca Vitor Ramil entre os maiores compositores da música brasileira

"Fazer a síntese pediu muito do artista conhecido pelo altíssimo nível de exigência"

Por: Juarez Fonseca*
11/06/2013 - 16h13min
"Foi no Mês que Vem" coloca Vitor Ramil entre os maiores compositores da música brasileira Satolep Press/Divulgação
Foto: Satolep Press / Divulgação  

O álbum duplo Foi no Mês que Vem é o suprassumo de Vitor Ramil, a prova definitiva de sua condição de um dos maiores compositores brasileiros. As 32 faixas dos dois CDs de certa forma condensam as 108 canções lançadas em nove discos entre 1981 e 2010.

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Fazer a síntese pediu muito do artista conhecido pelo altíssimo nível de exigência. Ouvindo o álbum repetidamente, desfaz-se aos poucos a memória das gravações originais e vem a impressão de que, ao relê-las, Vitor se imbuiu do propósito de cantar como se fossem inéditas – e vale dizer que seis delas ele grava pela terceira vez. Ligada a essa, outra impressão que salta é a da unidade. Como pode soar tão homogênea e íntegra uma coleção de músicas que atravessa a história de um compositor dos 18 aos 50 anos?

É o que temos em Foi no Mês que Vem. Comentei todos os discos de Vitor, e ele nunca deixou de me surpreender pelo rigor e pelo bom gosto estético. Esta reunião de antigas novidades concentra sensibilidade, delicadeza, humor sutil, olhares biográficos, comentários históricos e literários, reflexões filosóficas, pensares incomuns sobre o amor. Para isso, mobilizou convidados como Fito Páez, Jorge Drexler, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Pedro Aznar, os manos Kleiton e Kledir, a cantora Kátia B, o percussionista Marcos Suzano (com quem dividiu o disco Satolep Sambatown), o violonista argentino Carlos Moscardini (parceiro em délibáb) e, entre outros, as revelações da nova geração porto-alegrense Bella Stone e Ian Ramil.

A essência melancólica é parte indissociável da música de Vitor desde o início e aqui se mostra ainda mais, tanto pela voz dele, que acha a forma exata de expressão e sentimento, quanto pelas letras. Cercado por arranjos como os de Vagner Cunha para a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro, especialmente felizes em Perdão e em O Primeiro Dia, e os demais de Vitor (para violão ou violão e outro instrumento), o conjunto de letras se impõe com uma poética vigorosa, rara na música brasileira. Longe de Você é apenas um exemplo: "Tô vivendo em outra dimensão / Longe de você / Habitando o fundo de um vulcão / Que eu domestiquei / Todo dia deixo o sol entrar / Mas a luz não vem".

Em vídeo, Vitor Ramil fala sobre a casa que inspira suas obras:

O violão de Vitor atravessa o álbum do início ao fim – só não está em uma música, única não gravada antes, a antiga (anos 1980) Tango da Independência. E é tão preciso e rico, que eu arriscaria dizer que ele pode ser concertista de violão. Os detalhes também revelam a meticulosidade do artista, como a tuba (por Santiago Castelani) fazendo o papel do contrabaixo original em Sapatos em Copacabana, a leitura em francês de um texto de Paul Gauguin (pela filha Isabel Ramil) em Noa Noa. E o que dizer das melodias? Não há sequer uma apressada; você vai ouvindo, Livro Aberto, Invento, Neve de Papel, À Beça, Noturno, Astronauta Lírico, Livros no Quintal, Deixando o Pago, e as melodias vão capturando sua sensibilidade para o belo.

A qualidade técnica do álbum é notável, a capa e o encarte-pôster revelam o grande talento da jovem artista plástica gaúcha Nara Amelia. Algumas outras coisas que eu gostaria de dizer ficaram para trás. Mas, ouvindo Foi no Mês que Vem, o leitor vai descobri-las.

* Jornalista, crítico musical e colunista do Cultura.
Autor de um dos textos do Songbook Vitor Ramil.

 

Confira de quais discos foram retiradas as músicas
que compõem o repertório do álbum duplo "Foi no Mês que Vem":

Estrela, Estrela (1981)
> Estrela, Estrela*

A Paixão de V Segundo Ele Próprio (1984/1998)
> Satolep*
> Ibicuí da Armada

Tango (1987/1996)
> Sapatos em Copacabana
> Joquim*
> Passageiro*
> O Tango da Independência*
> Loucos de Cara*

À Beça (1995)
> Não É Céu*
> Grama Verde*
> Foi no Mês que Vem*
> À Beça
> A Resposta

Ramilonga (1997)
> Ramilonga*
> Noite de São João*
> Milonga de Sete Cidades
> Deixando o Pago* (também presente em délibáb, de 2010)

Tambong (2000)
> Espaço*
> Valérie*
> Quiet Music*

(Este disco também inclui versões de Não É Céu; Grama Verde; Foi no Mês que Vem; Estrela, Estrela e À Beça, que estão no novo disco)

Longes (2004)
> O Primeiro Dia
> Neve de Papel*
> Noturno
> Longe de Você
> Perdão
> Noa Noa*
> Livros no Quintal

Satolep Sambatown (2007)
> Livro Aberto*
> Invento*
> Viajei
> Que Horas Não São
> Astronauta Lírico*

*Músicas prováveis do repertório dos shows de lançamento

MPB, 32 faixas, Satolep Music,
R$ 35 (CD duplo), à venda no site www.vitorramil.com.br .

Songbook Vitor Ramil
Livro com 62 partituras de músicas. Editora Belas-Letras, 312 páginas, R$ 45, à venda no www.vitorramil.com.br .

 
 
 
 
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