A revisão da obra

Vitor Ramil fala sobre novo songbook e disco

O músico, que lança no Theatro São Pedro o novo trabalho, recebeu ZH em Pelotas. Os ingressos para os shows já estão esgotados

08/06/2013 - 08h55min
 Vitor Ramil fala sobre novo songbook e disco  Marcel Ávila/Especial
Vitor diante da Catedral do Redentor, em Pelotas Foto: Marcel Ávila / Especial  

Começo de tarde ensolarada em Pelotas. Pelas grandes janelas do casarão entram raiozitos de sol que tornam dispensáveis as luzes artificiais pendentes do teto. As tábuas do chão da sala não recebem o sol vespertino, cobertas por caixas. São muitas. Quase escondem a mesa e o piano. Dentro delas, livros e discos novinhos, que aguardam a assinatura cuidadosa do autor.

Com a chegada da reportagem de Zero Hora, Vitor Ramil interrompe a labuta que vem preenchendo seus dias e parte das noites: autografar mais de mil discos e cerca de 400 livros para presentear a parcela dos fãs que participou ativamente de sua última empreitada. Com a aproximação da data de lançamento do disco Foi no Mês que Vem e do Songbook que traz as 62 canções mais importantes de sua carreira, o músico pelotense pouco saía de casa. Precisava dar conta de assinar o material prometido na proposta de crowdfounding que ajudou a financiar o projeto. Para os que compraram as maiores cotas, discos e livros autografados seriam enviados antes da divulgação do trabalho para o grande público.

– O pessoal ficou muito entusiasmado com a proposta de financiamento coletivo e participou mesmo. Vejo isso tudo como uma aproximação com o meu público – afirma Ramil.

Uma aproximação e tanto. A oportunidade de participar de todas as etapas da elaboração do disco e do livro, recebendo informações exclusivas, opinando e tendo acesso a fetiches de fã, como os autógrafos, levou 863 pessoas, de oito países, a adquirirem as cotas do crowdfounding. Em alguma medida, todos eles fazem parte do momento que exprime, talvez com mais contundência, a maturidade da arte de Vitor Ramil. O homem do caminho contrário, o artista da invenção a partir de uma ideia fora do lugar, resolve rever-se. Ao olhar para si, não o faz sozinho – como sempre foi seu estilo. Convida o público e reflete sobre a carreira.

– Meu primeiro critério era usar um pouco de cada disco. Mas já não me sinto muito à vontade com algumas coisas, tem músicas muito antigas. O público pedia canções nos shows que não estavam nos meus planos. Aí resolvi mesclar. Um pouco do que fazia muito sentido para mim, um pouco do desejo do público. Felizmente, esses dois conceitos se encontraram várias vezes.

O resultado é um resumo. Mas, importante, trata-se de Vitor Ramil. Com ele, nenhum resumo é só revisão. É também reinvenção. Prova são as 32 faixas de Foi no Mês que Vem – e mais a faixa bônus exclusiva para os colaboradores do projeto, Semeadura, cujo download era parte da contrapartida do financiamento coletivo. Gravado em Buenos Aires, Porto Alegre e Rio de Janeiro e mixado nos Estados Unidos, o disco relê a carreira de Ramil com as lentes da síntese que ele começou a construir, de forma concreta, a partir de Ramilonga e do ensaio A Estética do Frio. Eliminados os excessos do início da carreira, restou neste trabalho uma espécie de essência que permeia tudo. As sete cidades postuladas por ele em 1997 finalmente espraiam-se pela obra: Foi no Mês que Vem é um exercício acabado de rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza e leveza. E, sempre, da melancolia existente desde o princípio.

 

- Em vídeo, confira o depoimento de Vitor Ramil

 

A "Casa" no coração de Satolep

Para ouvir Vitor Ramil não é necessário estar aqui ou lá. Compreender seu processo de criação, no entanto, requer algum itinerário. O longo texto biográfico que antecede as partituras no songbook, assinado pelo jornalista Juarez Fonseca, trata o casarão da família Ramil em Pelotas como "A Casa", mais um personagem que urde e possibilita o processo criativo do artista. Foi para morar nela que Vitor voltou do Rio, com a Estética do Frio na cabeça. Foi no sofá da sala onde entrevistado e repórteres tomavam café que ele compôs canções como Deixando o Pago.

– Terminei a música e comecei a chorar. Sinto fisicamente o momento de criar, que para mim é o ponto mais alto da vida artística. Até gravo discos e faço shows, mas nada se compara ao momento de compor – explica.

Construída nos anos 1920 e adquirida pelos Ramil na década de 60, quando o caçula Vitor tinha quatro anos, a casa é mais uma entre os muitos prédios históricos enfileirados na rua Dr. Amarante, no centro de Pelotas. Nela estão as mais remotas lembranças da família, reunida desde sempre em torno da música. Nela, o patriarca Kleber escutava os tangos que o emocionavam às lágrimas. Ali a mãe, Dalva, insistiu para que o pequeno estudasse violão, aos 11 anos. E naquelas salas Vitor ouvia Beatles, Milton, Caetano, Chico, Lupicínio e tantas outras influências nos discos dos irmãos. Naquela mesma sala, cheia de caixas de discos e livros por assinar, o guri assistiu aos ensaios dos Almôndegas, grupo fundado pelos manos Kleiton e Kledir.

Quando voltou do Rio de Janeiro com a mulher, Ana Ruth, e os filhos pequenos, Ian e Isabel, Vitor encontrou um casarão vitimado pelo tempo. O madeiramento do telhado estava castigado pela umidade e pelos cupins, as ricas escaiolas originais que ornavam as paredes dormiam escondidas sob camadas de tinta. E ele foi recuperando, restaurando, despretensiosamente. Ao voltar, não pensava em fundar uma estética, nem sabia onde queria se estabelecer. Precisava apenas recomeçar. Encontrou, no entanto, o espaço que desde sempre ecoou no centro de sua criatividade. E renasceu.

– Para mim foi importante ter saído, vivido em outros lugares, principalmente no Rio. Consegui ver as coisas de longe. Mas a verdade é que não me imagino morando em outro lugar que não seja esta casa. Lugares novos me fazem sentir deslocado, desacomodado. Aqui vivo minhas sensações desde pequeno, uma simples luz na janela me desencadeia um processo de criação.

Do centro, que é "a casa", emana a Satolep subvertida por ele e cantada sob múltiplos olhares em seu cancioneiro. O que ele sempre sentiu, intuitivamente, ao estar no seu lugar, acabou sendo fundamental para que formulasse um novo jeito de pensar a arte, a partir do Sul, a partir do frio. Apesar de toda essa interdependência entre a cidade invertida e seu artista, engana-se quem pensa que Vitor Ramil é daqueles deslumbrados que anda pela cidade a exaltá-la. Pelo contrário. É impossível passear com ele por Pelotas sem que observe um casarão mal conservado, um monumento histórico negligenciado, um prédio moderno que esconde o casario de alguma rua, o lixo que subtrai do olhar toda a beleza. No momento seguinte, no entanto, uma nesga da luz oblíqua e dourada do outono ilumina um ângulo da cidade. E ela volta a ser a Satolep encantada e repleta de nuanças e neblinas.

Nos dias de sol, não é difícil encontrar a janela do casarão da Dr. Amarante aberta, por onde se pode ver Vitor e seu amigo, o dálmata Mango, cada um ocupando a sua cadeira. Mango alterna momentos de sono com instantes de vigília, cumprindo seu papel de protetor. Vitor escreve, responde e-mails, lê as velhas enciclopédias que gosta de colecionar. Durante o dia dificilmente toca. Quando não está às voltas com o trabalho, está no teto tentando matar cupins. À noite, pega o violão e compõe. Quando a inspiração não está nos cômodos da velha casa, sai para caminhar pela cidade em companhia da mulher e de amigos. Vive em passos tranquilos, sem saber ao certo o que vai fazer depois, qual será o próximo projeto. Ele sempre acredita que não virão próximos projetos. Mas eles vêm. Sempre novos. Sempre em Satolep.

 

Obra revista, obra nova

Conhecedores da obra de Vitor Ramil já sabem a história: ele estava sem camisa, em casa, no calor do Rio de Janeiro, quando viu uma matéria sobre o Carnaval fora de época na televisão. Gente suada, dançando, muita música, alegria. Logo depois, a apresentadora falava do frio que fazia no Rio Grande do Sul como algo exótico, estrangeiro, pitoresco. Assim nasceu uma ideia que virou quase um movimento: A Estética do Frio. No centro do argumento estava a possibilidade de olhar para o Sul, suas gentes e sua arte, com uma outra lente, sob uma nova perspectiva que não considerasse esse ponto geográfico como periferia do Brasil e sim como centro de confluência cultural da região dos pampas, do Prata.

O desconforto daquela tarde quente de Copacabana era a materialização de uma inquietude despertada muito antes. A busca pela identidade do caçula que procurava seu lugar na numerosa e talentosa família desde que se entende por gente permaneceu no âmago da personalidade de Vitor e o levou a pensar, com o tempo, para além dos limites da casa, da família, de Pelotas.

– Eu tinha uma percepção do Rio Grande do Sul como um centro de confluência cultural da região do Prata, com uma identidade própria em função dessa confluência. E queria fugir dos estereótipos. Não admitia a figura idealizada do gaúcho, mas também não me identificava com o Brasil tropical. Aí veio a coisa do frio, com traços e valores que são nossos.

O retorno ao Sul que originou Ramilonga a partir dessa estética foi o ponto de partida para que Vitor começasse a transpor para a forma da canção essa inquietude. Tarefa nada simples. A busca pela identidade sulina, que orbita em torno do frio e do Prata, não cabia nas formas populares em que a canção brasileira estava edificada. Não poderia ser só samba, só rock, só bossa nova.

Foi quando Vitor reencontrou, na tradição do cancioneiro platino, a forma que poderia expressar todo esse ideário novo: a milonga. No ensaio que abre o songbook, o professor de Literatura da UFRGS Luís Augusto Fischer comenta que, no sul do Brasil, há quem faça samba como um carioca e milonga como um uruguaio. Até o aparecimento de Vitor Ramil, no entanto, não havia, na canção ou no romance, quem tentasse chegar ao nó entre esses dois universos culturais. "Depois dele e em grande medida por causa dele, essa condição veio a tornar-se mais comum, mais compreensível, de parte a parte", afirma Fischer.

"O cancionista mais parece um malabarista. Tem um controle de atividade que permite equilibrar a melodia no texto e o texto na melodia, distraidamente, como se para isso não despendesse qualquer esforço. Só habilidade, manha e improviso. Apenas malabarismo". A formulação de Luiz Tatit, professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e estudioso da canção popular brasileira, tenta explicar a habilidade do cancionista em equacionar melodia e letra ao ponto de fazê-las parecerem parte indissociável uma da outra. Em sua argumentação, exposta em profundidade no livro O Cancionista, Tatit afirma ainda que melhor é a canção quanto mais ela se aproximar da fala cotidiana. Com simplicidade e naturalidade.

Pois ouvir Foi no Mês que Vem, a revisão da obra de Vitor Ramil pensada por ele mesmo, mais parece a junção da Estética do Frio com o idioma das ruas das cidades do Sul do país, montada sobre o esqueleto da milonga. E o que deveria ser uma compilação da carreira torna-se praticamente uma coisa nova. A economia e a simplicidade que haviam começado em Ramilonga e atingido seu ponto máximo em délibáb passam a contaminar, agora, toda a obra de Vitor, regravada em voz, violão e alguma percussão.

O cantor Vitor, que sempre esteve a serviço do compositor, também encontra uma espécie de plenitude. Tatit observa que, por representar a fala, a figura do intérprete foi ficando em segundo plano no universo da canção, justamente porque o compositor de melodia e letra seria a voz mais adequada para executá-las. Neste novo disco, assim como em délibáb, a voz de Ramil está à vontade.

– De alguma forma, eu sempre contei com o envelhecer. Apostei tudo na maturidade, para fazer coisas consistentes. Mas ainda continuo em busca dessa síntese que nos revele.

Ele não sabe onde procurar a síntese que busca e que admite ter feito, em alguns momentos. Mas sabe onde não vai encontrar.

– Jamais poderei ser um cantor de sucesso, por exemplo. Não me imagino repetindo fórmulas para tocar no rádio. Não vejo graça em me repetir.

 

 

Notícias Relacionadas

Acabou 07/06/2013 | 17h46

Ingressos para os shows de Vitor Ramil na Capital estão esgotados

Cantor se apresenta nos dias 12, 13 e 14 de junho no Theatro São Pedro

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.