Paralelo 30

Juarez Fonseca: Saracura de volta, 30 anos depois

Um dos mais populares grupos dos anos 1970 e 80 se reúne para apresentações e documentário em 2014

Por: Juarez Fonseca
06/07/2013 - 12h01min
Juarez Fonseca: Saracura de volta, 30 anos depois Divulgação/Divulgação
Documentário dirigido por Liliana Sulzbach e argumentos de Carol Bensimon e Fabrício Carpinejar deve estrear em 2014 Foto: Divulgação / Divulgação  
Às vezes, o que parece impossível acontece. É o caso da reaglutinação do grupo Saracura, que está em pleno processo para se realizar em 2014, quando terão se passado 30 anos de sua extinção. Mais popular banda gaúcha na virada da década de 1970 para a de 80, o Saracura desapareceu inexplicavelmente no auge do sucesso, tendo em cinco anos feito dezenas de shows pelo Rio Grande do Sul e um LP até hoje disputado, nunca lançado em CD. Nico Nicolaiewsky, Sílvio Marques e Fernando Pezão, os remanescentes da formação original (que se completava com Flávio Chaminé, falecido em 2004), começaram nesta semana uma série de reuniões de planejamento para a volta. Sua empolgação faz lembrar os primeiros encontros, em 1978, época em que Porto Alegre assistia ao surgimento de uma expressiva nova geração musical.

Instigado pela produtora e cineasta Liliana Sulzbach, o projeto, em fase de desenvolvimento, prevê shows com artistas convidados, documentário sobre a trajetória da banda e uma série de ficção, para veiculação em TV. Essa série, criada a partir de quatro letras de músicas do disco, terá argumentos de Carol Bensimon e Fabrício Carpinejar, com roteiros e direção de Liliana. Mas os cinco anos do Saracura justificam tudo isso? O material já reunido, com centenas de recortes de jornais, fotos, gravações dos shows (mesmo precárias) e textos de pesquisadores como Arthur de Faria, comprova o status de fenômeno do grupo, mesmo observado à distância de três décadas. Entre outros feitos, foi a primeira banda gaúcha a fazer turnês de estrutura profissional com shows em ginásios de todo o Estado.

– Nossa mistura de rock com música regional antecipou em 10 anos o que ocorreria em âmbito nacional depois, com o manguebeat, por exemplo – diz Nico.

O primeiro show do Saracura estreou em 7 de novembro de 1978 no Teatro do Círculo Social Israelita (hoje Hebraica), depois de uns seis meses de ensaios no porão da casa de Maria Cristina Raimundo, a Gata, primeira baterista, com Nico no piano e acordeão, Sílvio no violão e Chaminé no baixo. Gata e Chaminé eram roqueiros, tocavam juntos na banda Bobo da Corte; Nico e Sílvio tinham mais influência da MPB. E já estavam cercados de amigos, como o conhecido compositor Cláudio Levitan, que passava suas músicas para eles. Os ensaios exaustivos moldaram o estilo da banda, que, antes desse primeiro show, foi sucesso de execução na Rádio Continental com a canção Flor. O show permaneceu três semanas em cartaz, com lotações esgotadas sempre. E o que é melhor: conquistou um público que, dali para frente, seguiria o Saracura.
A sequência veio numa onda vertiginosa. O segundo show, mais quatro semanas no Israelita, em 1979, foi dirigido por Kleiton Ramil, logo depois do fim do Almôndegas. No mesmo ano, Gata se retira dando lugar a Fernando Pezão, que tocara na última formação do Almôndegas – pode-se dizer que o grupo passava o bastão para o Saracura. Em 1980, eles conhecem Mário Barbará, maior revelação dos festivais nativistas, e dão início a uma parceria que multiplica o sucesso e, no ano seguinte, os leva ao festival MPB Shell, da Rede Globo, defendendo Velhas Brancas, de Barbará. O grupo passa a fazer três shows por ano, com repertório diferente. Em 1982, vem o primeiro disco, independente, com músicas de Nico e Sílvio (Flor), Levitan (Marcou Bobeira), Barbará (Xote da Amizade), Kledir Ramil (Xote de Jaguarão). Era para ter 10 faixas, saiu só com oito – duas foram censuradas.

A gravadora paulista Continental relança o disco em 1983 e contrata o Saracura para gravar o novo em seus estúdios. “Agora vamos transar com a máquina e teremos de cuidar para não sermos engolidos”, declarou Nico a este colunista em matéria publicada por ZH em setembro daquele ano. Mas não houve segundo disco, nem a turnê nacional programada para 1984. Surpreendentemente, o grupo se desmancha.
– Eu me sentia incapacitado de fazer coisas mais legais do que a gente tinha feito e fui parando – lembra Sílvio.

Nico e Pezão não recordam maiores desacertos. Para Nico, as “coisas foram esfriando”. Além do disco e da bela memória daqueles tempos (estavam na casa dos 20 e poucos anos), restaram cerca de 60 canções praticamente inéditas. Algumas delas poderão ser aproveitadas agora, ao lado das novas que pensam em compor para o show da volta. Se o projeto de Liliana não prevê um disco, eles consideram a possibilidade de gravar. E quem serão os convidados, além dos guitarristas Léo Henkin e Zé Flávio (outro ex-Almôndegas), velhos parceiros? Não revelam. Mas poderiam ser, por exemplo, Humberto Gessinger, Thedy Corrêa e Frank Jorge, que não perdiam os shows do Saracura.
 
 
 
 
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