Ao som do Nirvana

Michel Laub apresenta seu novo romance, "A Maçã Envenenada"

Escritor autografa nesta segunda-feira, em Porto Alegre, livro em que protagonista espelha vivências pessoais em tragédias históricas dos anos 1990

Por: Carlos André Moreira
01/09/2013 - 20h03min
Michel Laub apresenta seu novo romance, "A Maçã Envenenada" Diogo Zanatta/Especial
Foto: Diogo Zanatta / Especial  

É curioso evocar Mario Quintana para falar de A Maçã Envenenada, romance de Michel Laub sobre rock, exército e o genocídio de Ruanda. Mas o fato é que em uma das quadras de Espelho Mágico o poeta escreveu versos que resumem um pouco do espírito que percorre o livro: "Por pior que seja a situação da China, nossos calos doem muito mais".

A Maçã Envenenada, que Laub autografa hoje, na Palavraria, é o segundo livro de uma trilogia sobre como personagens lidam com a sobrevivência a uma tragédia pessoal que ecoa uma outra tragédia, histórica. O primeiro foi o elogiado Diário da Queda, que mostra o campo de extermínio Auschwitz como um eco a assombrar uma família de geração em geração.

No novo romance (cujo título foi tirado de um verso da canção Drain You, do Nirvana), as relações entre o aspecto pessoal e o histórico são mais tênues. O protagonista relembra meses cruciais de sua vida, em 1993, ano da vinda de Kurt Cobain ao Brasil para o Hollywood Rock, e os relaciona com o suicídio do cantor, meses depois, e com a provação sofrida por Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio de Ruanda. Dois fatos ocorridos com pessoas reais quase no mesmo dia de 1994.

— Eu já vinha trabalhando em uma história que tinha quartel e Kurt Cobain no meio, mas só tomou forma depois que entrevistei Immaculée e percebi que ela começou a se esconder dos que queriam matá-la no dia seguinte, ou no mesmo dia, talvez, dependendo do fuso horário, em que Kurt Cobain se matou — diz Michel.

O terceiro volume da trilogia está em produção e deve abordar um episódio dos anos 2000. Qual, Michel não revela. Em A Maçã Envenenada, o contraponto entre um ídolo pop que se matou no auge do sucesso e uma mulher que se salvou no meio de um dos mais brutais genocídios da história forma o eixo em volta do qual o narrador reconstrói sua vida entre 1993 e 1994.

Forçado a trancar a faculdade de Direito para se matricular no CPOR, o protagonista deve decidir se foge do Exército, correndo o risco de deserção, para encontrar a namorada no show do Nirvana, ou se resolve, antes, uma situação que pode comprometê-lo. Embora Cobain e Immaculée sejam pretextos para as reflexões do narrador (em 101 blocos numerados, numa variação da estrutura de O Diário da Queda e do conto Animais, publicado na revista Granta), a relação tumultuada do protagonista com a namorada instável e seu drama pessoal é que estão em primeiro plano.

— Desde o início, não quis algo tão direto. Isso se reflete um pouco nessa forma talvez um pouco mais fria e distanciada com que eu falo do genocídio de Ruanda. Um judeu nunca conseguirá ter esse olhar diante de Auschwitz — comenta.

Embora ainda lide com uma estrutura tortuosa, bastante eficiente em esconder, até o limite, quais são os reais eventos que está narrando, A Maçã Envenenada tem uma prosa menos suntuosa que a de Diário da Queda. Na obra anterior, o próprio fato de o narrador ter de lidar com uma extensa bibliografia sobre o assassinato em massa de judeus encorpava a vertente “literária” da narrativa, com uma reflexão não apenas sobre o que foi Auschwitz, mas também sobre o que restará do episódio na memória do mundo dentro de alguns anos.

A Maçã Envenenada não se aprofunda tanto, talvez porque fosse impossível mesmo, ao casar rock e genocídio.


A MAÇÃ ENVENENADA — Michel Laub. Romance. 120 páginas, R$ 29,50. Sessão de autógrafos nesta segunda-feira, às 19h30min, na Palavraria — Livros & Café (Vasco da Gama, 165, fone 3268-4260).

Confira Drain You, a canção do Nirvana que inspirou o título do livro A Maçã Envenenada

 
 
 
 
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