Vai ter beijo?

Expectativa de beijo gay em "Amor à Vida" acende debate nacional

Personagens podem protagonizar cena inédita no horário nobre da Globo

18/01/2014 | 17h02
Expectativa de beijo gay em "Amor à Vida" acende debate nacional Montagem sobre fotos TV Globo/Reprodução
O trio homossexual que faz sucesso em "Amor à Vida": e Eron (Marcello Antony), Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano) Foto: Montagem sobre fotos TV Globo / Reprodução

O clima de paquera entre o ex-malvado Félix (Mateus Solano) e o sushiman de coração mole Niko (Thiago Fragoso) não só ajudou a elevar a audiência de Amor à Vida na faixa nobre da TV Globo, como lançou em torno da trama a expectativa por uma cena que pode entrar para a história da emissora: o primeiro beijo gay em novelas do canal mais assistido nos lares brasileiros, especialmente nesse horário da programação.

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Num país em que a união civil homoafetiva é reconhecida, mas a homofobia não é considerada crime, mostrar um beijo homossexual na novela das nove ainda deixa a emissora na dúvida, mesmo com o apelo de telespectadores com a hashtag #beijalogo, que tem aparecido com força nas redes sociais.

– O beijo gay seria mais um avanço trazido da própria sociedade, que caminha em conjunto com a teledramaturgia. Uma é reflexo da outra. Mas colocar ou não um beijo gay no roteiro é uma decisão autoral – diz Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela Universidade de São Paulo (USP).

O autor, Walcyr Carrasco, teria recebido carta branca para incluir o beijo gay em Amor à Vida, algo que ele faria no último capítulo da trama, no dia 31. Mas toda a expectativa criada também poderia ser uma espécie de preparação do clima para que o primeiro beijo homossexual no horário nobre da emissora se concretize somente no próximo folhetim – Em Família, de Manoel Carlos, que terá Giovanna Antonelli e a gaúcha Tainá Muller como um casal de lésbicas no núcleo principal, a partir de 3 de fevereiro.

– Espero que aconteça agora, se não isso pode caracterizar que, além de homofóbica, nossa sociedade é machista – diz Carlos Magno Fonseca, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (ABGLT).

Na avaliação de Fonseca, o par romântico gay ter se tornado o grande protagonista de Amor à Vida já foi uma grande conquista. Bruno (Malvino Salvador) e Paloma (Paolla Oliveira) perderam a graça faz tempo, e o texto bem-humorado do triângulo amoroso formado pela "bicha má" Félix, pelo "Carneirinho" Niko e pela "lacraia do olho azul" Eron (Marcello Antony) colaborou para que o trio recebesse mais destaque a cada capítulo. A ousadia dos diálogos, que incluem termos do universo gay sem soarem pejorativos, é elogiada pelo jornalista André Fischer, um dos quatro brasileiros na lista de 500 gays mais influentes da história, conforme a revista holandesa Wink.

– A novela trouxe o linguajar da comunidade gay de uma maneira engraçada. É difícil imaginar que as pessoas vão mudar de canal por causa de um beijo gay quando você já teve Niko e Félix discutindo quem seria passivo e quem seria ativo se eles fossem dormir juntos – comenta Fischer, criador do Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade.

Novelas pautam debates nacionais

Autor do livro Almanaque da Telenovela Brasileira, Nilson Xavier explica que homossexualidade se enquadra, no jargão novelístico, no chamado merchandising social. Desde a reforma agrária nos anos 1970, passando por temas como questão racial, adoção, violência contra a mulher e tantos outros, muitas novelas foram capazes de pautar debates importantes, com grande repercussão. O beijo homossexual representaria o rompimento de mais um tabu:

– Em várias televisões do mundo, isso já é bastante corriqueiro. No entanto, o Brasil demonstra um conservadorismo muito grande em não levar ao ar o tal beijo gay.

A opinião é parecida com a de Leandro Colling, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade. Para ele, o beijo gay só é um tabu na TV por "pura homofobia".

– O beijo não é a salvação da pátria, mas, simbolicamente, seria importante, pois o tema ganharia maior visibilidade. Precisamos de mais políticas públicas de enfrentamento à homofobia – destaca.

Após um ano pautado por polêmicas entre a comunidade gay e o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) com suas declarações homofóbicas, Félix e Niko levam para a sala de estar dos brasileiros o debate sobre as relações homoafetivas em outro tom. Resta acompanhar os capítulos finais para ver se o casal terá ou não um final feliz – e que repercussões a novela será capaz de provocar na sociedade com isso.

Será que sai beijo gay em Amor à Vida? A editora do TV Show Camila Saccomori comenta a polêmica:

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