Pampianas

Luiz Coronel: O faquir das Índias Orientais

22/02/2014 | 08h10

Respeitável público, El Gran Circo Mexicano chegou em Aceguá.

Palhaços batem tambores. Latem cuscos e saltam malabaristas.

Desfilam pelas ruas domadores, acrobatas e coristas.

O álacre cortejo passa pela Casa Perez.

Qual tartarugas põem a cabeça para fora do casco, famílias caseiras vêm para as janelas. A vida agora é um espetáculo.

Caminhonetes alegorizadas anunciam Silk, o maior faquir das Índias Orientais.

A cada noite, maior o público.

Entra Silk com sua capa preta de mórbidos adereços de velas e caveiras.

Entre volteios esvoaçantes, mergulha Silk em seu jazigo.

O túmulo improvisado é coberto com serragem.

Um tapete roxo sobre o fúnebre espaço.

A corista de meias rendadas, montada num tordilho ornamental, circula pelo picadeiro.

Domina o côncavo espaço circular um clima de suspiros lancinantes, lúgubres silêncios, sufoco.

A saída de Silk dos subterrâneos da morte é triunfal.

Porém, um dia, Silk, o faquir, apaixona-se pela filha do protético municipal e se manda para lugar incerto e não sabido.

O circo pegou goteira e solidão. Sem o faquir, mirrava a olhos vistos.

"De onde menos se espera, daí mesmo que não sai nada", dizia o Barão.

Lá pelas tantas, Fagundino alardeou que bem conhecia os meandros e canudinhos do debandado faquir amoroso.

Não deu outra, El Gran Circo Mexicano resplandece.

Manto, cova, caixão, serragem, tapete, bandinha. O passado reluz com a mesma luminosidade.

Fagundino assume o túmulo.

Na terceira volta ao picadeiro, entre sorrisos e beijos da ruiva equestre, o cavalo se empina e relincha exatamente em cima do corpo do sepulto Fagundino.

Lá do fundo das galeras, o Velho Maragato se pôs de pé e gritou:

– El hombre está muerto!

O faquir improvisado tinha tomado o partido do além. Para ingressar no paraíso, tiveram de tirar serragem de suas orelhas.

A noite terminou na gendarmeria para uma averiguação de las responsabilidades.

A autoridade uruguaia advertia:

– Para la justicia de nuestro país si uno no es culpable, todos los son.

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.