Coluna

Cintia Moscovich: A Copa vai bailar

O Carnaval é uma parte da brasilidade que, por mais mercantilização que tenha sofrido, ainda permanece nobre e bela

10/03/2014 | 11h05

Quem esteve na Marquês da Sapucaí no Carnaval e assistiu ao desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio viu de perto uma parte rara do Brasil - uma parte que dá certo. A Liga da Associação das Escolas de Samba, a Liesa, organizadora do desfile, não deixa por menos: tudo funciona como um relógio, sem enrolação, sem jeitinho, sem carimbo e sem guichê. Quem chega à Sapucaí de metrô, táxi ou van passa por uma vizinhança meio degradada, é verdade, mas com acessos bem sinalizados. No sambódromo, funcionários uniformizados orientam o visitante, e um ágil esquema de segurança garante a paz. Há maqueiros, garis, bombeiros e equipes de manutenção dando expediente e cordialidade.

Quem tenta abater meu entusiasmo com o Carnaval do Rio alega que os desfiles são coisas para inglês ver e que tudo é muito caro. Concordo: uma turistada invade a avenida e os preços de alguns ingressos quase se equiparam aos da Copa do Mundo. Mas onde, em que lugar deste país as coisas têm funcionado tão bem? Tão dentro do orçamento? Com tanta disciplina e pontualidade? Com tanta dignidade?

Quem, por exemplo, vê passar na avenida a velha guarda da Portela, a ala das baianas do Salgueiro ou a bateria da Mocidade Independente, sabe que todos ali amam as comunidades que representam. E que os 48 mil desfilantes passaram boa parte do ano às voltas com confecção de fantasias, ensaios, montagem de carros e, sobretudo, com a alegria de dividir o sonho de sucesso na avenida. O Carnaval é uma parte da brasilidade que, por mais mercantilização que tenha sofrido, ainda permanece nobre e bela.

Comparando a excelência do Carnaval carioca com os preparativos para a Copa do Mundo, a conclusão óbvia é que tudo foi mal planejado justamente para tungar o contribuinte. É evidente que no Rio o município e o Estado entram com dinheiro para o Carnaval, mas perto dos incessantes investimentos nas obras da Copa, os gastos com a folia representam uns poucos caraminguás. Pensando bem, é bem mais lógico atender ao padrão de excelência da Liesa do que às regras impostas pela Fifa e com as quais, é bom lembrar, bovinamente concordamos desde o início.

Pelo andar do desfile da Copa, vai ter muita alegoria inacabada na avenida. Liesa urgente para organizar nossa eterna bagunça.

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