Crônica

Fábio Prikladnicki: Decadência cultural

Precisamos de mais política e de menos panos quentes

06/03/2014 | 15h20

Queixas sobre a decadência do nosso nível cultural não são de hoje. Quando digo “nosso”, refiro-me a todo mundo mesmo. Lembro da primeira vez que li sobre isso: era um texto do filósofo alemão Theodor Adorno. Já no início do século 20, ele estava preocupado com o poder da música popular frente à música clássica. Era a época de ouro do jazz. Não tivesse o nobre filósofo frankfurtiano nos deixado em 1969, fico a imaginar o que diria hoje caso fosse convidado a conhecer o gosto musical exibido nas festinhas de debutantes ou de formandos por aí. (Adorno que, a propósito, teria completado 110 anos no dia 11 de setembro – ô, data – do ano passado.)

Por exemplo: quem vai substituir a geração de intelectuais veteranos do Brasil, aqueles que se formaram antes do golpe de 1964, falam quatro idiomas e entendem de filosofia a literatura, passando por política e economia? Estamos criando gente menos interessada em um projeto intelectual de uma vida porque está excessivamente envolvida com a contabilidade do número de resumos em anais de congressos, presenças em eventos e participações em comissões julgadoras. De bolsa em bolsa, almejam a estabilidade do funcionalismo público e já projetam uma boa aposentadoria.

Leio, no Estado de S. Paulo, que algumas escolas ensinam finanças e empreendedorismo a partir dos três anos de idade. As crianças têm aulas de inteligência emocional e de administração de sentimentos, seja lá o que for isso. A citação que encerra a reportagem é de um dos alunos: “Quero trabalhar em um banco, igual ao meu pai”. É bom que queiram trabalhar em um banco, porque, se quisessem ser professores do Ensino Básico, teriam que penar para fechar as contas do mês. A não ser que resolvêssemos o problema da educação no país, mas não é isso que queremos, não é mesmo?

O utilitarismo, em sua acepção mais rasteira, tomou conta. Mirando no exemplo do Google e do Facebook, começamos a estimular, desde cedo, a imaginação nos nossos filhos, mas apenas porque isso pode resultar em inovação. Queremos que usem piercing, cabelo colorido e roupa rasgada para ver se conseguem emprego em uma promissora startup.

Vejo jovens reclamando da ideologização dos debates e sinto um desalento. Os jovens não costumavam ser aqueles que se revoltavam contra o mundo? Precisamos de mais política e de menos panos quentes. A estética vem a reboque.

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