Na estante

Lançamentos tratam da participação de civis no golpe militar de 1964

Aniversário do golpe motiva novos livros sobre o tema

09/03/2014 - 17h28min

O arsenal de publicações que apontam para 1964 oferece releituras e novas abordagens para temas fundamentais do período, como a participação dos civis no golpe e os efeitos políticos e econômicos da mudança de poder, mas também reconstrói em detalhes a vida miúda e cotidiana dos brasileiros que, sem saber, viviam os últimos dias de uma democracia.

> Livros iluminam pontos nebulosos do Brasil sob a ditadura militar

Se obras como 1964: História do Regime Militar Brasileiro procuram fazer um vasto apanhado do período e de suas implicações para o país, títulos como 1964 – O Verão do Golpe e Almanaque 1964 buscam remontar as principais referências de comportamento e de manifestação artística dos anos 1960. Um país que ouvia bossa nova, mas onde já se armava o cenário para as canções de protesto. Confira alguns dos lançamentos sobre o golpe:

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1964 – O Golpe, de Flávio Tavares
L&PM, 320 páginas, R$ 44,90

Dedicado à memória dos que tombaram em defesa da liberdade, o livro do autor gaúcho traz a transcrição, na íntegra, de documentos do governo dos Estados Unidos que mostram como avaliações exageradas do embaixador americano no Brasil sobre o “perigo comunista” contribuíram para criar um ambiente favorável ao golpe. Tavares conta, ainda, como os americanos participaram intensamente da preparação para a derrubada de Jango durante mais de dois anos. O jornalista recebeu o Prêmio Jabuti de 2000 pela obra Memórias do Esquecimento, e o de 2005, por O Dia em que Getúlio Matou Allende. Também foi o último jornalista a estar com Jango no Palácio do Planalto.

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1964 – O Golpe que Derrubou um Presidente, Pôs Fim ao Regime Democrático e Instituiu a Ditadura no Brasil, de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes
Editora Civilização Brasileira, 420 páginas, R$ 40

Com chegada às livrarias prevista para 13 de março, a obra defende o ponto de vista de que a implantação da ditadura poderia ter sido evitada se indivíduos, partidos e organizações políticas tivessem tomado posições diferentes daquelas adotadas no período imediatamente anterior a 1964. Os autores destacam ainda o papel fundamental que parte da sociedade civil desempenhou no apoio ao golpe. O material é complementado por boxes com notícias de jornais da época e referências a programas de TV.

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A Ditadura que Mudou o Brasil – 50 Anos do Golpe de 1964, de Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti, Rodrigo Patto Sá Motta
Editora Zahar, 272 páginas, R$ 49,90

Lançado no começo do ano, o livro organizado pelos três autores conta com a participação de outros especialistas para analisar as causas e consequências do regime militar brasileiro, incluindo que características o período legou em termos econômicos, políticos e éticos. Uma das questões que o trabalho procura responder é: “todos os vestígios da ditadura desapareceram?”. Entre os demais assuntos abordados, estão as transformações econômicas ocorridas no período, a formação do aparato repressor, as mudanças sociais, o significado da anistia de 1979 e a política externa do Brasil.

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Ditadura e Democracia no Brasil, de Daniel Aarão Reis
Editora Zahar, 196 páginas, R$ 44,90

Nesta obra, o autor defende o entendimento de que o golpe militar teve muito mais apoio da sociedade civil do que os historiadores costumam citar. Em entrevistas, o professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) faz questão de citar que nomes associados à resistência, como Ulysses Guimarães e Dom Paulo Evaristo Arns tiveram reações iniciais favoráveis à ação dos militares – colocando-se contra elas mais tarde.

Ao longo do texto, o historiador apresenta argumentos de que a ditadura no Brasil não foi simplesmente “imposta de cima para baixo pelas elites”, simplesmente, mas fruto de uma construção histórica mais complexa.

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A Ditadura Militar e os Golpes Dentro do Golpe: 1964-1969, de Carlos Chagas
Record, 490 páginas, R$ 60

O jornalista retoma, neste livro, a mesma fórmula empregada nos dois volumes da obra O Brasil Sem Retoque (Record, 2001). Por meio dos relatos publicados em jornais, ele busca recuperar as cores e impressões da época para remontar o cenário que antecedeu a tomada do poder pelos militares e as consequências da queda de Jango.
Além de focar a análise no período que vai da destituição do presidente civil a 1969, quando o rigoroso AI-5 já estava em vigor, Chagas traz informações sobre os 10 anos anteriores que conduziram o país à mudança de rumo e à interrupção no processo democrático.

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1964: História do Regime Militar Brasileiro, de Marcos Napolitano
Editora Contexto, 368 páginas, R$ 49,90

O autor, historiador da Universidade de São Paulo (USP), faz um apanhado dos anos de exceção e procura realizar um balanço histórico de algumas questões fundamentais sobre o período – como a extensão da tolerância da população civil ao regime devido ao “milagre econômico”, se os militares pretendiam encaminhar o país de fato para a democracia com o processo de abertura política ou a volta da liberdade foi uma conquista da sociedade brasileira, e qual a reação do país à tortura e ao desaparecimento de presos políticos. Napolitano mostra, ainda, como a repressão não impediu o crescimento da violência.

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Almanaque 1964, de Ana Maria Bahiana
Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 54,50

Com lançamento programado para 24 de março, a obra reconstitui a vida cotidiana e o ambiente cultural no ano do golpe. A jornalista Ana Maria Bahiana recorda que, além das agruras da repressão, 1964 assistiu à explosão de figuras como Nara Leão, Beatles, Bob Dylan e Chico Buarque. O espião 007 dividia as telas com as criações do provocativo cineasta Glauber Rocha, e, nas areias de Ipanema, havia monoquínis e jogo de frescobol. A reconstrução da época conta com um grande número de fotos e notícias do tempo em que o mundo acompanhava a Guerra do Vietnã e a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

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A Ditadura Envergonhada, Elio Gaspari
Intrínseca, 464 páginas, R$ 39,90

A nova edição do livro que deu início à chamada “Coleção Ditadura” de Elio Gaspari, revista e atualizada com novas informações, é acompanhada pelo relançamento das outras três obras que deram sequência ao projeto: a ditadura “Escancarada”, “Derrotada” e “Encurralada”. Os livros, que voltam renovados às prateleiras 12 anos após a primeira edição, trazem acréscimos como a transcrição de conversas em que o presidente americano John Kennedy cogitou uma ação armadas para garantir a deposição de João Goulart. Outro documento revela que, em 1968, o presidente Costa e Silva discutiu a possibilidade de decretar estado de sítio antes do AI-5.

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1964 – O Verão do Golpe, Roberto Sander
Máquina Editora, 272 páginas, R$ 39,90

O jornalista Roberto Sander recria a atmosfera dos três meses que antecederam o golpe. Após uma pesquisa de cinco anos, o autor procura transportar o leitor para o dia a dia de quem viveu a atmosfera pré-golpe em 1964. O contexto incluía a bossa nova, o balanço de Jorge Ben, o cinema de Glauber Rocha, as primeiras pranchas de fibra de vidro no Arpoador. Por baixo dessa efervescência cultural, eram tramados os retoques finais do movimento militar que resultaria na implantação da ditadura. Com mais de 20 anos de atuação na imprensa esportiva, Sander é autor de obras sobre futebol e também de história.

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Ditadura à Brasileira – A Democracia Golpeada à Es­querda e à Direita, de Marco Antônio Villa
Leya, 432 páginas R$ 49,90

A interpretação do doutor em História pela USP Marco Antônio Villa promete ser uma das mais polêmicas da safra de novas obras sobre o golpe. Conhecido como um crítico ferrenho dos governos petistas de Lula e Dilma, Villa defende que o período anterior ao AI-5 não deve ser chamado de ditadura por ter permitido movimentação político-cultural, assim como o período posterior à Lei da Anistia. Embora entenda que houve excessos que levaram à perseguição, tortura e morte no período entre o final de 1968 e 1979, o historiador sustenta que “o regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos”.

 
 
 
 
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