Coluna

Liberato Vieira da Cunha: Esperando Laura

Tinha sido um belo romance outonal. Ele usou na mente essa forma verbal – tinha sido – e logo bateu na mesa como para que apagá-la

17/03/2014 | 11h06

Ele não tinha especial apreço por livros, mas ia todos os anos à Feira. Um dos poucos que lera dizia, sobre um fim de caso, que "lentamente, como a fina escama de cristal de um peixe," o personagem tinha percebido que as coisas estavam mal paradas e que possivelmente ia levar um fora.

Tinha rido daquilo: um caso não terminava feito escamas de peixe. Um romance acaba porque morre o desejo, porque sucede uma briga, porque pintam a indiferença, o ciúme, o tédio, ou algum incidente súbito e inexplicável.

E no entanto agora, esperando Laura no discreto bar de sempre, se surpreendia receoso das tais escamas de peixe. Tudo vinha num crescendo: primeiro a linguagem, invariavelmente terna e amante, e de repente prática, contida, impaciente. Depois, os desencontros: não, nem pensar, sábado tem o congresso de semiótica, telefono segunda, tu-sabes-a-hora. Enfim, as ausências: meu sogro se operou; quando fui pegar o carro, quem surge? a Matilde; não viste na TV que aqui em Alhandra desabou o dilúvio universal?

Ele chamou o garçom, trocou o café por uma dose de Dimple. A visão do copo não a deixaria feliz, mas talvez o Dimple o ajudasse a juntar as peças do quebra-cabeças que vinha preferindo manter dispersas e indecifráveis. E a viagem para Búzios? E aquela história de dar um tempo? E as menções constantes ao seu dono e senhor, à filha pequena?

Tinha sido um belo romance outonal. Ele usou na mente essa forma verbal – tinha sido – e logo bateu na mesa como para que apagá-la. Haviam se encontrado numa das alamedas da Feira do Livro, em meio à multidão, celebraram o acaso trocando os números dos celulares (Laura tinha esquecido o seu e então rasgara a capa de um talão de cheques para escrever o do fixo) e alternando notícias sobre suas vidas em todos aqueles anos em que não se viam. Na despedida, ela dissera: cuidado quando ligar – uma primeira mensagem de cumplicidade que era todo um convite.

Seguiu-se um tempo maravilhoso e único em que aquela mulher esplendorosa como uma rainha se dera a ele no pequeno apartamento da Cidade Baixa, preenchendo sua vida de amor, de prazer e de ternura. E então começaram os sinais de distanciamento, a princípio tênues, logo mais pronunciados, em seguida claros como naquele entardecer.

Ele olhou de novo o relógio: Laura estava atrasada. O celular de Laura não respondia. O coração de Laura não respondia aos batimentos do seu, como tantas vezes.

Tornou a chamar o garçom para pedir um segundo Dimple. O garçom, que estava na universidade, como hoje todo mundo, queria conversa e lhe mostrou um trecho do livro que estava lendo.

Era sobre a fina escama de cristal de um peixe. 

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