Humanidade a conta-gotas

Luís Henrique Pellanda autografa livro 'Asa de Sereia' nesta quarta-feira

A coletânea reúne crônicas sobre vida na cidade

11/03/2014 | 15h14
Luís Henrique Pellanda autografa livro 'Asa de Sereia' nesta quarta-feira Matheus Dias/Divulgação
Escritor Luís Henrique Pellanda Foto: Matheus Dias / Divulgação

Em uma entrevista concedida em janeiro deste ano, Luis Fernando Verissimo compartilhava a impressão de que, apesar de haver cronistas por toda parte, na internet e na imprensa, a linhagem da crônica poética que Rubem Braga elevou à arte parecia haver desaparecido.

Talvez possa haver uma ou duas exceções, e uma delas é o jornalista paranaense Luís Henrique Pellanda, que autografa sua nova coletânea, Asa de Sereia, nesta quarta-feira, às 19h, na livraria Palavraria (Vasco da Gama, 165), na Capital.

A crônica à qual Verissimo fez referência, aquela ao estilo Rubem Braga, é lírica, poética, menos uma expressão das opiniões do autor sobre seu tempo e sim uma reação epitelial, emotiva, ao confronto com a realidade. É o tipo de texto como o que Braga celebrizou em sua série A Borboleta Amarela, na qual o mestre capixaba da crônica estendia ao longo de mais de um texto o relato admirado do voo de uma borboleta pelo centro do Rio. É a essa escola que se filiam os relatos reunidos por Pellanda em Asa de Sereia, um mapa da geografia urbana de uma Curitiba que poderia ser qualquer cidade.

Pellanda é jornalista e escritor. Já publicou outro volume de crônicas, Nós Passaremos em Branco, e foi, durante anos, editor do jornal literário Rascunho, uma das poucas publicações a se dedicar exclusivamente ao universo literário. Embora firmemente ancoradas no espaço urbano da capital paranaense, as crônicas de Pellanda, a maioria publicada entre 2010 e 2013 no portal Vida Breve, do qual Pellanda é editor, não são cerebrais relatos da vida em Curitiba, e sim tentativas de fixar em iluminuras poéticas pequenos momentos vividos no cotidiano de uma cidade grande.

Os temas de Pellanda são instantes fugazes de humanidade, destilados a conta-gotas da fisionomia cada vez mais impessoal da metrópole: o lixeiro que recebe um drinque pela janela de um carro lotado de animadas patricinhas, o personagem que ensaia uma dança sem música com o zelador de uma galeria, o homem que sonha com a chuva morando em um buraco na rua... Seus personagens são tanto os anônimos quanto os folclóricos que gritam para o céu e pedem, sem palavras, o reconhecimento dos passantes.

Talvez esse tipo de crônica tenha se tornado rara porque é arriscada, com sua linguagem que é ela própria tão importante (às vezes mais) quanto o que se está contando. O que, de início, já vale como um elogio ao autor por aceitar tal risco. O segundo vai pelo resultado. Pellanda consegue tecer lirismo sem afetação e soar elegante e, ao mesmo tempo, contemporâneo, não como se escrevesse, embevecido e saudosista, de alguma esquina do século retrasado.

 
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