Coluna

Luiz Antonio de Assis Brasil: Antonio Candido

Colunista de ZH escreve sobre o autor fundamental na literatura brasileira

23/03/2014 | 16h11

Se a idade significa algo, é bom atentar para o ano de nascimento de Antonio Candido: 1918, o que significa que viveu as principais transformações políticas, artísticas, filosóficas, científicas, ideológicas e sociais do século 20. Isso aconteceu a muita gente, mas foi este professor da USP, com sua lucidez analítica, o que melhor soube aproveitar esta já longa vida. Sua atividade intelectual voltou-se preferentemente às letras, sendo mais conhecido como o autor dos fundamentais Formação da Literatura Brasileira e Literatura e Sociedade, livros incontornáveis quando se pensa sobre o tema.

O professor deu há algum tempo uma luminosa entrevista ao semanário alternativo Brasil de Fato. O tom geral é de balanço de uma vida e de um pensamento, mas não só. Ele se permite, no decorrer da fala, a dar opiniões contundentes, inclusive avaliando de modo opinativo sua própria trajetória, mostrando sua evolução, na qual, entretanto, guardou uma coerência: a fé no socialismo – nem tanto como prática, mas como doutrina. É capaz de dizer: "O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele", entre outras frases – que não são de efeito.

A destacar, nos escritos (e na fala) de Antonio Candido a extrema simplicidade e bom humor. Quem já conversou com ele sabe que se trata de um homem simples (e que, a propósito, sabe exercer a esquecida arte de ouvir os outros). Pois é com essa simplicidade que ele diz que não lhe interessam as novidades. Não leu algo novo nos últimos 30 anos. Dedica-se, isso sim, a reler. O que pode arrepiar os novidadeiros é, para Antonio Candido, uma prática com a qual ele sabe conviver sem qualquer trauma. Diz ele, também, que doou quase toda sua biblioteca de 15 mil livros. Pois o despojamento levou-o à evolução de seu método de análise literária; partiu de uma visão fechada, puramente sociológica, até que, conhecendo a escola do new criticism norte-americano, partiu para análises em que a própria obra ditava a perspectiva da análise. Foi o "ovo de Colombo", diz ele.

Para um homem que afirma serenamente haver parado na máquina de escrever e no telefone, é muita audácia, que nem sempre a têm os vidrados na última tecnologia. Podemos imitá-lo: vamos reler Antonio Candido, o que não gosta das novidades. Isso fará com que entendamos melhor o que de novo circula por aí.

 
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