Mãe aos pedaços

Marieta Severo estrela montagem brasileira do espetáculo "Incêndios"

Confira entrevista com a atriz que está no ar em "A Grande Família"

17/03/2014 | 14h42
Marieta Severo estrela montagem brasileira do espetáculo "Incêndios" Leo Aversa/Divulgação
Cena da peça de teatro Incêndios, com a atriz Marieta Severo Foto: Leo Aversa / Divulgação

Indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011, o longa canadense Incêndios provocou impacto com a potência dramática e o desconcertante desfecho.

O roteiro da produção dirigida por Denis Villeneuve foi adaptado da peça homônima do dramaturgo Wajdi Mouawad, que ganhou sua primeira montagem brasileira com Marieta Severo à frente do elenco.

O espetáculo, que estreou no Rio em setembro e consagrou-se como sucesso de público e crítica, será apresentado de quinta-feira (20/3) a sábado (22/3), no Theatro São Pedro.

Incêndios tem como personagem central Nawal Marwan, mulher de quem se conhece a história por fragmentos que embaralham tempo e espaço. No presente, no Canadá, o casal de gêmeos filhos de Nawal é informado que a mãe, ao morrer, deixou duas cartas. Em uma, pede que encontrem o pai deles e, na outra, um irmão mais velho. Os jovens estranham aquele último desejo, porque o primeiro tinham como morto, e o segundo desconheciam existir.

A jornada dos filhos ruma para o Oriente Médio, onde Nawal viveu uma trágica saga pela sobrevivência, narrada em paralelo às descobertas que os irmãos vão juntando acerca do passado da mãe. Embora não seja explicitado, o cenário onde a jovem Nawal mergulha nos horrores de uma guerra civil é o Líbano cindido pelo conflito entre muçulmanos e cristãos nos anos 1970 e 1980 – Wajdi Mouawad é libanês radicado no Canadá.

A direção da montagem nacional de Incêndios é de Aderbal Freire-Filho, marido de Marieta. Em entrevista a ZH, a atriz garante que mesmo quem conheceu o texto pelo cinema vai se impactar com peça:

– Tem muita gente que diz: “Adorei o filme, mas me emocionei mais na peça”. No teatro, essa emoção fica mais direta, crua, envolve o espectador. Mouawad arma a peça como um thriller. Ele é muito hábil porque vai soltando os elementos da história, e você vai seguindo, monta o quebra-cabeças e, no final, diz: “Meu Deus”.

Confira a entrevista:

Zero Hora – Incêndios ficou conhecido no Brasil pelo filme inspirado na peça. Quais são as principais diferenças entre essas duas leituras do texto de Mouawad?

Marieta Severo – O roteiro do filme foi baseado na peça. É uma história que foi concebida como texto dramatúrgico, para o palco. Tem uma estrutura muito rica, que acredita muito na força, na magia do teatro. Passeia no tempo e no espaço. O bacana é que deste texto saiu o roteiro extremamente cinematográfico, que conta esta mesma história mais com a força da imagem do que com a da palavra. A história começa a ser contada no Canadá e depois vai para um país do Oriente Médio, que o Mouawad não especifica qual é.

ZH – É o Líbano, por dedução.

Marieta – Exatamente, mas que ele fez questão de não dar nome. O que a peça aborda é universal. Pega várias realidades, várias questões do ser humano, questões sociais. Fala de irmão matando irmão, de uma guerra civil. Lá no país de Mouawad foi uma guerra civil real, mas, se você for pensar bem, aqui no Brasil a gente vive uma espécie de guerra civil não declarada, de irmão matando irmão, de grande violência. A peça toca nessas questões, na necessidade de você resgatar sua própria história. É uma peça muito rica, que bebe também nos mitos gregos. Os psicanalistas que a assistem adoram, porque, se for fuxicar, é rica também nesse sentido. Eu falando parece que é uma peça hermética, intelectualizada. Mas não. É de um clareza muito grande. Na temporada no Rio, a comunicação com a plateia foi avassaladora.

ZH – O êxito de Incêndios parece destoar da realidade do teatro brasileiro, que tem exemplos de sucesso mais entre as comédias e os musicais. Você concorda?

Marieta – No Rio, a gente tem essa vertente dos musicais. Não tenho nada contra. Mas o público vai ficando viciado nesse tipo de teatro. E, tirando isso, tem os monólogos. Então, é gratificante ver o público atender tão prontamente, responder com tanto entusiasmo a uma peça que é uma tragédia. Você não vai rir. É uma peça que vai por regiões dolorosas do ser humano.

ZH – Quem viu o filme tem esse elemento surpresa prejudicado?

Marieta – Tem gente que viu o filme, vê a peça e diz : "Adorei o filme, mas me emocionei mais na peça". Ou: "Fiquei impactado com o filme, mas não chorei como chorei na peça". No teatro, essa emoção fica mais direta, mais crua, envolve mais o espectador.

ZH – Questões como maternidade e laços familiares são muito presentes em Incêndios. De que forma suas vivências pessoais refletem na composição da personagem?

Marieta – A peça toca especialmente as mães, nessa busca da Nawal pelo filho que tiraram dela. Mas eu me abasteci muito, muito mesmo das mães que conheci e que tiveram os filhos mortos na ditadura. Eu dedico esse trabalho a Zuzu Angel. Eu era colega da Hildegard Angel (filha de Zuzu) no (grupo de teatro) Tablado, com 16, 17 anos. Frequentava a casa da Zuzu, conheci o Stuart garoto (filho da estilista que foi assassinado durante a ditadura militar, sob tortura, em 1971). Depois, quando eu estava com o Chico (Buarque), ela ia à nossa casa, buscava nosso apoio. Eu me abasteci disso, de uma realidade que é nossa. Minha personagem é presa e torturada numa conjuntura de guerra civil. Não preciso ir ao Líbano ou ao Oriente Médio para falar disso. Minha geração viveu isso no meu país.

ZH – Esta temporada de 2014 será mesmo a última de A Grande Família?

Marieta – Vai. Não imagino como vai ser minha vida. A gente está parando por um acordo do elenco com a emissora. Estamos saindo como sempre sonhamos sair, com o programa no seu auge de excelência e qualidade. Mas não dá para fazer mais. A gente precisa fazer outras coisas. A dona Nenê já é quase uma segunda natureza para mim. Não vivi nenhuma outra personagem, e nem viverei, tão avassaladora quanto a Nenê. É uma ficção que se confunde com a realidade. A gente, conversando um com o outro, já não tem mais fronteira. Fico falando "Nanini", daí começa a gravar e vem "Lineu". É muito maluco isso. Geralmente você cruza uma fronteira para viver um personagem. Mas (em A Grande Família) esse lugar já está tão interiorizado na gente que é assustador. Mas é bonito também. Agora, em cada coisa que a gente faz, eu olho para os colegas e fico pensando: "Meu Deus, é o último ano, meu Deus, é o último ano". Vai ser uma despedida muito dolorosa.

Incêndios

Os ingressos para o espetáculo, de quinta (20/3) a sábado (22/3), às 21h, no Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), custam R$ 40 (galeria), R$ 70 (camarote lateral), 100 (camarotes central) e R$ 120 (plateia e cadeira extra). Desconto de 50% para sócio do Clube do Assinante nos primeiros 100 ingressos e de 20% para sócio e acompanhante nos demais. Pontos de venda: bilheteria do teatro (segunda a sexta, das 13h às 18h30, em dias em que não há espetáculos noturnos; das 13h às 21h em dias com espetáculo; sábado, 15h às 21h; domingo, das 15h às 18h) e pelo site www.compreingressos.com (há cobrança de taxas no site).

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