Coluna

Nilson Souza: Estranhos beijos

Alguém já disse que o beijo é a única linguagem verdadeira no mundo. Mesmo quando as pessoas não se conhecem, como mostra o curioso vídeo "Firt Kiss", o entendimento é praticamente instantâneo, dispensa palavras

15/03/2014 | 11h12

Faz sucesso na internet, com mais de 25 milhões de visualizações quando comecei a escrever este texto, um vídeo chamado First Kiss (Primeiro Beijo), com cenas de 20 casais se beijando. O inédito do filme assinado pela cineasta Tatia Pilieva, a pedido de uma grife de roupas, é que as pessoas escolhidas para as cenas não se conheciam, nunca haviam se visto antes. São estranhos colocados frente à frente com o desafio de se beijar na boca – uma gesto historicamente reservado à intimidade, embora tenha se tornado corriqueiro nesta era de exibicionismo explícito que estamos vivendo. Adolescentes festeiros, especialmente, passaram a incluir beijos fortuitos nos seus rituais de passagem, na maioria dos casos apenas para contar aos amigos e para autopromoção nas redes sociais.

Mas beijo é beijo – a maior expressão de ternura humana, sempre que consensual, evidentemente. É exatamente isso que mostra o vídeo. As pessoas submetidas à experiência aproximam-se constrangidas, trocam cumprimentos tímidos, fazem gracinhas, riem amarelo, baixam a cabeça, tocam-se com cuidado, até que rola o encontro de lábios. Então, tudo se transfigura. O que era estranho e pouco natural transforma-se magicamente em proximidade, carinho, confiança mútua e entrega. Depois do primeiro toque, não há mais estranhamento. Siameses momentâneos, homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres, todos suspendem suas individualidades por incontáveis segundos e passam a respirar o mesmo ar de cumplicidade.

Comovem aqueles estranhos beijoqueiros. A sucessão de encontros habilmente editada me fez lembrar a cena final de Cinema Paradiso, uma inesquecível sequência de beijos censurados pelo padre da cidade, que o operador cortou de filmes célebres e transformou numa espécie de documentário amoroso da história do cinema. Difícil não chorar.

Alguém já disse que o beijo é a única linguagem verdadeira no mundo. Mesmo quando as pessoas não se conhecem, como mostra o curioso vídeo, o entendimento é praticamente instantâneo, dispensa palavras. Não há momento de silêncio mais revelador, como bem flagrou o poeta chileno Pablo Neruda: “Num único beijo saberás tudo aquilo que tenho calado”.

Beijos são marcas indeléveis na trajetória humana. Tanto que já inventaram até um Dia Mundial do Beijo, que algumas pessoas celebram em abril, outras em junho.

Na dúvida, celebre-o hoje mesmo.

 
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