Era uma vez 1994

Por que o ano de 1994 tornou-se um marco da indústria musical

Há 20 anos o som de Seattle atingia seu pico de popularidade, indies ganhavam espaço, o punk rock tomava as rádios FM e o Brasil se permitia misturar

13/03/2014 | 15h12
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O Oasis lançou o álbum "Definitely Maybe" em 1994 Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

Um ano em que o som de Seattle atingiu seu ápice de popularidade, a música indie ganhou corpo, o punk rock tomou de assalto o mainstream e o Brasil se permitiu misturar como nunca. Coincidência, divina providência ou resultado lógico de uma conjunção de fatores, não importa: 1994 foi um dos anos mais importantes para a música nas últimas décadas.

O produtor Carlos Eduardo Miranda não apenas testemunhou o redemoinho da época como estava no epicentro. Trabalhando no cenário musical independente como jornalista e agitador, fundou o Banguela Records, selo alternativo atrelado à Warner Music e responsável pelas estreias dos Raimundos e do Mundo Livre S/A.

– A turma de 1994 estava ligada ao pessoal de 1984, que começou a absorver influências suficientemente diferentes para dar outro rumo à música feita no Brasil – lembra. – Sem contar que era barato: com o preço de uma banda grande, eu gravava quatro.

O jornalista e crítico musical Ricardo Alexandre avança um pouco no tempo: para ele, a bomba detonada em 1994 foi armada em 1991 pelo Nirvana. O grupo de Seattle mudaria as regras do jogo ao provar que era possível ser alternativo e fazer sucesso comercial – lição aprendida rapidamente pelo mundo inteiro. O resultado foi a primeira geração que nasceu fora das grandes gravadoras.

– Essa consciência do alternativo permitiu uma certa busca pelo inusitado, pelo inesperado. De repente, era possível fazer forró-core, reggae mineiro e manguebeat – diz, referindo-se a Raimundos, Skank e Nação Zumbi.

O grande legado dessa turma, aponta Alexandre, foi a pavimentação da trilha da independência artística. Mas alerta que isso só foi possível com um distanciamento histórico que poderá, logo, contemplar outros momentos.

– Quem viveu o ano de 1994 não tinha consciência do que estava acontecendo como se tem hoje. Daqui a 20 anos, quem sabe não olharemos para 2014 e ver que ele também foi um grande ano? – provoca.

Confira cinco músicas que fizeram sucesso em 1994 e você não sabia:


REVOLUÇÕES POR DISCOS

O punk rock invadiu o mainstream

Com o mesmo espírito juvenil e atitude contestatória – mas um bronzeado melhor –, o punk rock finalmente virou sucesso popular. Vindos da costa oeste dos EUA, bandas como Green Day, Offspring, NOFX e Bad Religion fizeram de 1994 o novo 1977 para o gênero, pavimentando uma estrada que depois seria usada por dezenas de outras bandas ao longo da década. Algumas delas, como o Green Day, conseguiram emplacar logo de cara: Dookie, seu primeiro disco por uma grande gravadora (e terceiro da carreira), vendeu 10 milhões de cópias. O Offspring também venceu sem fazer muito esforço graças ao petardo Smash, terceiro trabalho da banda e considerado um dos álbuns independentes mais bem-sucedidos da história, com seis milhões de unidades vendidas. Mas muitos já tinham uma boa estrada e só ganharam notoriedade naquele ano – caso dos tiozões do Bad Religion, que viram seu fã-clube crescer após o lançamento do multiplatinado Stranger Than Fiction. O NOFX foi outro que viu sua estrela brilhar em 1994 com o lançamento de Punk in Drublic, que continha os clássicos Linoleum e Don’t Call Me White e é até hoje o disco mais vendido do grupo.



A música indie tomou corpo

Impulsionadas pelo Nirvana, bandas indies que até então se arrastavam nos subterrâneos começaram a botar seu bloco na rua. Naquele ano, uma penca de heróis do indie provou que, além de captar o Zeitgeist de uma geração, também conseguiu faturar um bom trocado. Foi o caso de Jeff Buckley, que vivia de tocar em botecos até lançar Grace, estupendo disco de estreia que, além de ter se tornado o álbum mais vendido de 1994, catapultou o guitarrista ao estrelato – o que aparentemente não lhe fez bem, tendo sido encontrado morto dois anos depois, vítima de afogamento. Melhor sorte teve o Weezer: menos de dois anos depois de ter sido formado, o grupo de Rivers Cuomo estreou com um disco homônimo que continha os hinos noventistas Say It Ain’t So, Undone e Buddy Holly, que até hoje frequentam seu set list. Também foi o ano em que Beck Hansen pediu para ser morto de tão perdedor que era – o que não apenas não foi atendido como acabou fazendo de Loser um hit imediato do cantor. Feliz, Beck lançou nada menos do que três álbuns naquele ano: Stereopathetic Soulmanure, Mellow Gold e One Foot in the Grave. Outro que aproveitou bem a porta aberta pelo Nirvana foi o Pavement, que conseguiu atingir o mainstream com o clipe do single Cut Your Hair, retirado do clássico Crooked Rain, Crooked Rain.



O metal extremo atingiu o topo

Com mais de 10 anos de atividade e alguns milhões de discos vendidos, o Pantera sentava-se à cabeceira da grande mesa dos guerreiros do metal quando lançou Far Beyond Driven. A missão do disco, o sétimo da carreira do grupo, não era fácil: precisava superar o clássico Vulgar Display of Power. Após uma campanha massiva de marketing – que incluiu um documentário feito pela MTV –, o álbum não vendeu tanto quanto seu predecessor, mas atingiu o topo das listas de mais comercializados da Billboard, feito até então inédito para um disco de metal extremo. Bem-aceito pela crítica e com execução regular no rádio, Far... ainda rendeu ao Pantera uma indicação ao Grammy de melhor performance de metal.



O grunge deu seu último suspiro

Ao mesmo tempo em que a música alternativa chorava seu maior ídolo, Kurt Cobain (1967 – 1994), o som de Seattle comemorava seu provável último grande ano. O Stone Temple Pilots, depois de uma excelente estreia com Core no ano anterior, decolava impulsionado pelos singles Vasoline e Interstate Love Song, do disco Purple. Ao contrário do que dizia o título de seu quarto trabalho, Superunknown, o Soundgarden se tornou superconhecido – muito graças à balada Black Hole Sun, até hoje a faixa de rock que mais tempo permaneceu no topo da Billboard. Outro que experimentou o gostinho do sucesso foi o Alice in Chains, que conseguiu sua melhor marca (quatro milhões de cópias vendidas) com o EP Jar of Flies – primeiro trabalho neste formato a debutar, na história da música, como número 1 das listas de mais vendidos. Quem também vendeu horrores foi o Pearl Jam com Vitalogy, trabalho mais pesado e experimental que os anteriores, mas, mesmo assim, muito bem-recebido – especialmente as faixas Corduroy e Better Man. Segundo disco do Hole, Live Through This ainda hoje é motivo de polêmica. Para muitos, o álbum foi composto por Kurt Cobain, então marido da dona da banda, Courtney Love, encontrado morto quatro dias antes de Live... chegar ao mercado – talvez por isso, um sucesso unânime de crítica. Mas Cobain teria seu quinhão de sucesso no ano da própria morte com o lançamento póstumo do álbum acústico do Nirvana. Gravado em novembro de 1993 e lançado um ano depois, o Unplugged in New York fechou 1994 em grande estilo.

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O brasil se misturou (de verdade)

Entorpecido pelo sertanejo e pelo axé que reinavam absolutos, o mercado fonográfico brasileiro oficial nem notou o que borbulhava no caldeirão underground. Era um caldo diferente de tudo o que já havia surgido até então, composto de referências diversas, rebeldia e (quase) nenhum apelo comercial. Dessa mistura surgiram três bandas que definiriam a sonoridade do rock brasileiro: Raimundos, Skank e Chico Science & Nação Zumbi. O primeiro apostava no hardcore com fortes doses de música regional nordestina e letras que fariam corar até o poeta do duplo sentido Beto Jamaica; o segundo, uma banda com forte sotaque mineiro, mas com os dois pés no reggae; e o terceiro, direto dos manguezais do Recife, capitaneando o manguebeat, movimento que expunha a rica cultura local a influências do pop e do rock e forçava passagem para o resto do Brasil. E os três lançaram discos que ajudavam a espalhar sua mensagem naquele ano: Raimundos com um álbum homônimo, Chico Science & Nação Zumbi com Da Lama ao Caos e Skank com Calango. A mistura ainda rendeu com o Mundo Livre S/A e seu Samba Esquema Noise, que misturava samba com elementos eletrônicos.



O britpop nasceu

As bases do pop britânico como o conhecemos foram sendo plantadas desde os anos 1960, mas foi em 1994 que as referências do passado foram explicitamente retomadas para inspirar um novo momento da música inglesa. Graças, sem falsa modéstia, a um único disco: Definitely Maybe, do Oasis. Misturando o melhor do rock das ilhas com o pior da marra inglesa, os irmãos Gallagher criaram um álbum que não só foi um dos mais vendidos daquele ano como abriu caminho para que seus conterrâneos – e desafetos – pudessem dar o seu recado ao resto do mundo. Foi o caso do Blur, que, depois de fracassar com Modern Life Is Rubbish (1993), recuperou o prestígio e ampliou alcance com Parklife, dono dos hits Girls & Boys, End of a Century e To the End. Terceira perna do britpop, os decanos do Pulp estavam quase jogando a toalha quando lançaram His ‘n’ Hers, primeiro disco a colocar o grupo nas listas de mais vendidos – e seu mentor, Jarvis Cocker, no rol dos grandes nomes da música britânica. O ano foi tão generoso para o movimento que até um dos seus renegados, The Stone Roses, lançou disco: Second Coming foi o segundo e último álbum do grupo de Ian Brown. Pelo menos até agora.

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