No começo dos tempos

Sebastião Salgado apresenta a exposição 'Genesis' na Usina do Gasômetro

O fotógrafo visitou lugares remotos ao longo de oito anos, distribuídos em diferentes continentes

12/03/2014 | 15h47
Sebastião Salgado apresenta a exposição 'Genesis' na Usina do Gasômetro Sebastião Salgado/Divulgação
Pinguins-de-barbicha sobre icebergs entre as ilhas Zavodovski e Visokoi, situadas ao sul do Oceano Atlântico, entre o continente americano e a Antártica Foto: Sebastião Salgado / Divulgação

O olhar descolorido sobre os contrastes sociais que marca a fotografia de Sebastião Salgado fez de sua trajetória, iniciada ainda nos anos 1970, um testemunho épico de flagrantes da luta do homem pela sobrevivência.

Em Genesis, projeto que levou novamente o mais renomado fotógrafo brasileiro a cruzar continentes, Salgado deixa de lado os instantâneos de exclusão, miséria e opressão humana para revelar, com seu inconfundível registro em preto e branco, o que ainda se mantém quase intocado no planeta.

Às vésperas de completar um ano da estreia, no Museu de História Natural de Londres, e depois de passar por capitais da Europa, pelo Rio e por São Paulo, Genesis chega a Porto Alegre pela programação do 7º FestFotoPOA – Festival Internacional de Fotografia. A exposição será apresentada na Usina do Gasômetro, mesmo local onde Salgado mostrou Êxodos em 2000. A abertura nesta quinta-feira, às 19h, contará com a presença do fotógrafo, que fará o lançamento do livro Genesis (Taschen) e da biografia Da Minha Terra à Terra (Companhia das Letras). Na sexta, às 10h, Salgado palestra no Salão de Atos da UFRGS. No campus central da universidade, estarão expostas 56 imagens complementares da exposição.

Com curadoria de Lélia Salgado, companheira do fotógrafo há 50 anos, Genesis apresenta mais de 245 fotos que oferecem uma síntese de 39 ensaios-reportagens realizados entre 2004 e 2012 em mais de 30 países, distribuídos por África, Ásia, Américas, Oceania e Antártica. Tal jornada, que envolveu expedições a lugares remotos e povos isolados com caminhadas, helicópteros e canoas, é dividida na mostra em cinco núcleos geográficos.

– Praticamente tudo me tocou em Genesis, foram oito anos que passei envolvido por um prazer profundo. Eu me dei o melhor presente que uma pessoa poderia se dar, ao ter a possibilidade de ir a locais tão maravilhosos. Posso dizer que tive muitos momentos fabulosos – conta Salgado, 70 anos, em entrevista exclusiva a ZH.

A mudança do foco da desigualdade social para a natureza praticamente preservada que marca Genesis se deu em grande parte pelo envolvimento de Salgado com questões ecológicas. Em Minas Gerais, ele e a mulher mantêm desde 1998 o Instituto Terra, pelo qual desenvolvem um projeto ambiental no Vale do Rio Doce.

A exemplo de ensaios como Trabalhadores (1986-1992) e Êxodos (1994-1999), Genesis é um projeto monumental. Para a série de incursões ao redor do globo, o financiamento se deu por meio de um fundo que reuniu patrocinadores como a mineradora Vale do Rio Doce, além de instituições dos EUA e cerca de uma dezena de revistas e jornais que publicaram partes do trabalho ao longo da realização das viagens.

Depois do livro e da exposição, Genesis ainda terá um documentário, Sal da Terra, assinado pelo cineasta alemão Wim Wenders e por Juliano Salgado, filho do fotógrafo. O lançamento está previsto ainda para este ano.

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Zero Hora – Genesis mostra lugares intocados pela noção de progresso e, por conta disso, localizados em regiões do planeta de difícil acesso. O quanto as viagens lhe exigiram fisicamente?

Sebastião Salgado – Fisicamente, foi muito duro. Tive que andar muito, acampando o tempo todo. Enfrentei condições muito difíceis. Se esses lugares ainda estão protegidos, é porque são mesmo de difícil acesso. Os de fácil acesso, nós (o homem) já quebramos. Então, nesse lado físico, houve momentos que não foram nada fáceis.

ZH – Poderia comentar algum desses momentos?

Salgado – Ao trabalhar com um grupo de nômades no norte da Sibéria, foi duríssimo. Antes de chegar lá, estava com o maior medo porque sabia que iria enfrentar temperaturas muito baixas. Quando você vai ao norte da Sibéria, está penetrando no círculo polar ártico, trabalhando em um lugar onde a temperatura chega a -45°C. Não tem como não ficar com medo. Mas foi uma viagem muito especial, pelo fato de ter convivido com um grupo de pessoas, ao modo delas. Viajávamos entre 15 e 18 integrantes na expedição. Subimos para o norte da Sibéria viajando com esse pessoal na neve, em cima de trenós puxados por renas, que era a forma como também levávamos nossa bagagem. O trenó tem entre 70 e 80 centímetros, os grandes chegam a ter três metros de comprimento. Só que não há como carregar muita coisa. Além do reduzido tamanho dos trenós, os animais têm seu limite. E aí você percebe que eles (os siberianos) vivem com o mínimo para a subsistência, porque o que se consegue carregar nos trenós é pouca coisa em relação ao que a gente acha que uma família precisa. E esse mínimo de coisas é para sobreviver naquela temperatura extrema.

ZH – Em regiões inóspitas, como o frio extremo da Sibéria, como eram organizadas as viagens?

Salgado – Estávamos acompanhando uma transumância (nome dado à migração que o homem empreende com rebanhos pelas montanhas). No fim do dia, quando a gente chegava em determinado ponto para comer e dormir, eles pegavam uns paus que levavam nos trenós, cruzavam, faziam uma espécie de tenda. Armavam uma pele de rena e colocavam outra em cima da neve. Ali também era feito um fogo para fazer uma comida quente, que a gente comia uma vez por dia. E tudo o que uma família possuía estava ali dentro daquele círculo, que não tinha mais que três metros de raio. Passávamos a noite ali dentro. Quando terminávamos de comer, eles apagavam o fogo. Daí, uma hora depois já estava -15°C, depois -30°C e daí -40°C...

ZH – Imagino que a sobrevivência nessas condições imponha uma série de situações adversas.

Salgado – A gente ainda tinha que fazer as necessidades fisiológicas na neve. Só que, além do frio extremo, havia dias com tempestade de neve, temperatura de -40°C e sensação de -60°C. Fiz uma viagem com eles (os siberianos) em que passei 47 dias sem me lavar. É tão frio que eles não se lavam, pois não têm água. Quer dizer, a água existe, mas você está em cima dela, da água materializada em forma de neve e gelo. Essa viagem foi fabulosa para mim. No dia de ir embora, foi duro. Tive vontade de seguir com eles, porque aprendi a sobreviver naquelas condições, a gostar e a respeitar profundamente aquele povo.

ZH – O senhor conheceu tribos que ainda vivem como no período pré-histórico da Idade da Pedra?

Salgado – Sim, como os Korowai, que não chegam a ser tribos, mas clãs de pouco mais de 10 pessoas. Parte dos Korowai ainda vive na Idade da Pedra, porque todos os seus instrumentos são de pedra. Acessamos esse grupo ao penetrar nas selvas da West Papua (Oeste Papua ou Papua Ocidental). A ilha de Nova Guiné está dividida em duas. De um lado, é a Papua Nova Guiné, um antigo protetorado da Austrália, que se retirou dali na II Guerra e, assim, criou-se o país Nova Guiné. A outra metade era um protetorado da Holanda. Também no fim da II Guerra, a Holanda se retirou, mas, nesse momento, a Indonésia invadiu e tomou. Esse lado da ilha que continua fazendo parte da Indonésia está em um estado, digamos, muito mais puro do que o outro lado que virou país. Foi na West Papua, esse lado indonésio, que encontrei esse grupo de Korowai.

ZH – São os que vivem em cima das árvores?
Salgado –
Exato, eles vivem em árvores e fazem as casas entre 30 a 40 metros de altura, muito mais pra defesa do que outra coisa. Só que, quando você está lá em cima, não tem mosquito, por exemplo. E, por estarmos na copa das árvores, não sentimos o calor abafado da floresta. Mas é muito complicado subir. Eles fazem umas escadas com pedaços de pau e cipó, só que eles são levinhos, pesam uns 50 quilos. E eu, mais pesado e com equipamento, não teria como subir. Depois de muito negociarmos, conseguimos que eles aceitassem que a gente reforçasse os cipós. Ficamos um dia trabalhando nisso. Aí, subimos e fomos às casas, ao estilo do início dos tempos.

ZH – Como os clãs se organizam?

Salgado –
Eles são mais coletores que caçadores, porque o que eles caçam mais é o porco do mato. Enquanto estive com eles, mataram um. Mas a grande base da alimentação é a proteína, mas dos insetos. Eles comem aranha, abelha, louva-a-deus... Catam insetos o dia todo no mato, em grupos, mas com arco e flecha, porque pode aparecer um porco. Eles têm uma palmeira da qual ralam o interior e tiram algo para fazer uma farinha, que é a base da alimentação além da proteína. Fazem uma espécie de disco de pizza e comem isso com tudo. Quando cortam a palmeira, também deixam a outra parte caída no chão. Daí, tem um besouro que chega e coloca o ovo dele ali dentro. Isso acaba gerando uma larva branca, grande, do tamanho de um dedo polegar. Passados de 3 a 4 meses, eles tiram centenas dessas larvas e comem cruas ou grelhadas. Ela cresce dentro da madeira e tem gosto de coco. Eu comi, é uma delícia.



Genesis

A exposição é dividida em cinco núcleos geográficos:

Planeta Sul – Da Antártica e da Patagônia, há paisagens de geleiras e animais como pinguins, leões-marinhos e baleias. Outras fotos mostram a fauna e a flora das Ilhas Malvinas (Argentina), das Ilhas Diego Ramírez (Chile) e das Ilhas Sandwich (território britânico, pertencente às ilhas da Geórgia do Sul).

Santuários – Inclui paisagens vulcânicas e a fauna do arquipélago Galápagos (Equador), além de povos isolados e da vida selvagem na Nova Guiné, na Guiné Oeste, em Sumatra (ilha da Indonésia) e na ilha de Madagascar.

África – Nos desertos da Namíbia e do Saara, revela uma série de lugares pouco visitados. Da vida selvagem, há os gorilas encontrados nas fronteiras de Ruanda, Congo e Uganda. Entre as tribos, estão os Himba da Namíbia, os Dinkas do Sudão e os Omo Sul da Etiópia, além de povos do Deserto Kalahari, em Botswana, e de ancestrais comunidades do norte da Etiópia.

Terras do Norte – Apresenta paisagens raras do Alasca, do Colorado (EUA) e do Parque e Reserva Nacional Kluane (Canadá). Há também cenas do extremo norte da Rússia, incluindo o local de reprodução do urso polar, na Ilha Wrangel, e a península de Kamchatka, na ponta mais oriental do país. O núcleo ainda mostra a população indígena Nenet do norte da Sibéria

Amazônia e Pantanal – Na Floresta Amazônica, flagra povos indígenas como os Zo’e do Pará, que até os anos 1980 estavam isolados. Na Venezuela, apresenta o Tepui, as formações geológicas consideradas as mais antigas da Terra. E do Pantanal apresenta a vida selvagem.

Genesis
> Abertura nesta quinta-feira, às 19h, com presença do fotógrafo Sebastião Salgado. 
> Visitação de terça a sexta, das 9h às 21h; sábado e domingo, das 10h às 21h. Entrada franca. Até 12 de maio. 
> No evento, também será lançado o livro Genesis (Taschen) e a biografia Da Minha Terra à Terra (Companhia das Letras).
> Usina do Gasômetro (Avenida Presidente João Goulart, 551), em Porto Alegre, fone (51) 3289-8100.
> A exposição: parte da programação estendida do 7º FestFotoPOA, apresenta mais de 200 fotografias do ensaio-reportagem Genesis, resultado de oito anos de viagem por mais de 30 países. Sebastião Salgado percorreu lugares de difícil acesso, procurando regiões e povos isolados. 
> Sebastião Salgado fará palestra na sexta, às 10h, no Salão de Atos da UFRGS (Avenida Paulo Gama, 110), em evento dos 80 anos da universidade. Entrada gratuita. Não haverá distribuição de senhas, e o acesso será por ordem de chegada.

 
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