Cíntia Moscovich: Um doce "Doce de Mãe"

Colunista escreve quinzenalmente no Segundo Caderno

06/04/2014 | 10h03

Doce de Mãe, série realizada pela Casa de Cinema de Porto Alegre em parceria com a Globo e que surgiu de um especial de 2012 – o mesmo que rendeu o Emmy Internacional a Fernanda Montenegro pelo papel de dona Picucha –, é uma das coisas mais arrojadas (e mais singelas) já feitas na teledramaturgia nacional.

Criação de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, a série não tem mais do que a pretensão de contar as vidas de dona Picucha, viúva de 85 anos, e de seus filhos Sílvio (Marco Ricca), Elaine (Louise Cardoso), Fernando (Matheus Nachtergaele) e Susana (Mariana Lima). Misto de sitcom e comédia de costumes, o conflito começa quando Zaida, vivida pela impagável Mirna Spritzer, empregada de Picucha por 27 anos, anuncia que vai se casar e ir embora. Os filhos de dona Picucha se perguntam o que todos os filhos do universo se perguntariam: quem vai ficar com a mãe? É claro que dona Picucha consegue driblar todas as soluções propostas. Vai parar numa casa de repouso e revoluciona a vida dos residentes (um deles é a também impagável Irene Brietzke).

O mais ousado, ao menos para os gaúchos, é o fato de Furtado ter desbancado Rio e São Paulo do posto de cidades-cenário e mais uma vez transferido a ação para as ruas de Porto Alegre – locações nas quais os produtores da Casa são peritos. Dona Picucha e família já foram vistos no Auditório Araújo Vianna, no Theatro São Pedro (participação de dona Eva Sopher) e até no cemitério São Miguel e Almas.

Elogiar Fernanda Montenegro é chover no molhado. Então que se elogie o texto, que é só suavidade, um humor bom, no qual não há lugar para trocadilhos, gags ou duplo sentido. Tudo na série é depuração e essencialidade: gente normal vivendo a vida normal, o que já é grande aventura.

A  trilha sonora conta com joias de Paulinho da Viola e Cartola, que dão unidade aos capítulos e que imprimem um tom honestamente afetivo à série. Num dos episódios, Sílvio e Fernando, os dois irmãos, caminham abraçados pela Praça da Alfândega, cantando Dois Irmãos, de Chico Buarque, coisa de arrepiar. Em fevereiro, foi a vez de se ouvir Tango da Mãe, de Claudio Levitan, interpretada por Nico Nicolaiewsky, que recém tinha nos deixado, homenagem de comover as pedras. Tudo muito querido, muito triste, muito de verdade: um doce de série.

 
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