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Ator participa de sessão comentada de "Tabu" em Porto Alegre

Ivo Müller é um dos protagonistas do filme de Miguel Gomes, eleito o melhor de 2013 pelos críticos brasileiros

29/07/2014 | 12h15
Ator participa de sessão comentada de "Tabu" em Porto Alegre Espaço Filmes/Divulgação
Müller, com Ana Moreira, em Tabu Foto: Espaço Filmes / Divulgação

Eleito o melhor longa de 2013 pela Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs), o português Tabu, de Miguel Gomes, voltou a cartaz na Cinemateca Paulo Amorim. Nesta quarta-feira, às 19h, a Sala Eduardo Hirtz apresenta sessão comentada com o ator catarinense Ivo Müller, que interpreta um dos protagonistas (o marido de Aurora) da parte da trama ambientada na África.

Tabu, que foi duplamente premiado no Festival de Berlim (ganhou o prêmio da crítica internacional e o Alfred Bauer de inovação artística), além de também ser eleito o filme do ano para a Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine), é dividido em duas metades: o tempo presente em Lisboa e acontecimentos de décadas anteriores, no continente africano.

Leia, abaixo, a íntegra da entrevista que Ivo Müller, hoje com 36 anos, concedeu a ZH à época da estreia do longa na Capital.

>> Confira, no blog Cineclube ZH, um comentário sobre as referências e o encanto de Tabu


Como foi a sua participação em Tabu? Do processo de seleção, em Portugal, às filmagens, em Moçambique?
Como cota pela participação brasileira na produção, o Miguel (Gomes) queria um ator e um técnico do país na equipe. A seleção teve 500 intérpretes brasileiros, e ele me viu em testes de vídeo. Já em Lisboa, apresentou-me um roteiro inicialmente batizado Aurora. O prólogo do filme era completamente diferente, também. Cheguei a perguntar se ele queria que eu revisse os filmes de F.W. Murnau (Tabu, de 1931, e Aurora, de 1927, que são referenciados por Gomes). Respondeu que não, que o melhor era construir o personagem com menos referências e sem direcionar muito as influências, ou seja, deixar a intuição responder pela composição.

O fato de não haver diálogos na segunda parte do filme, na qual se vê o seu personagem (há apenas narração em off), é determinante para essa composição. Valoriza as questões físicas do ator, por exemplo.
Toda a segunda parte é um grande flashback. Um acerto do Miguel foi trabalhar essa coisa da memória imprecisa, mais visual do que verbal. Quando lembramos de algo, não é assim certinho, com os diálogos conforme eles aconteceram. Nesse sentido, compor o personagem a partir de referências imprecisas era mesmo adequado. E o Miguel dá muita liberdade aos atores, mas dentro de um limite. Ele tem o controle absoluto da criação, sabe bem o que quer.

Trata-se um projeto especial, diferenciado em todos os sentidos. Imagino que a experiência do set, até por ser em Moçambique, também tenha sido sui generis.
Só chegar ao lugar das filmagens e sentir o clima já representou 40%, talvez 50% da preparação. Ficamos hospedados numa cidade muito pequena. Desde que cheguei, as crianças moçambicanas riam muito do meio jeito de andar, me achavam muito estranho. Aquilo ali foi fundamental para compor o personagem: passei a me ver com mais humor e a perceber o quanto o colonizador branquelo pode ser engraçado. Tudo em função da compleição física, dos trejeitos, que de fato ficam ressaltados num projeto de dramaturgia sem diálogos.

Ao ver o filme pronto, você ficou surpreso?
Fiquei impactado, até porque Tabu foi muito alterado na montagem. Vê-lo na tela do cinema foi arrebatador. Mas há de se levar em conta que o assisti no Festival de Berlim, e estar lá já era um impacto para mim. Não sei o quanto daquele baque foi provocado pelo filme e o quanto o foi pelo contexto. Mas não tenha dúvidas de que Tabu é daqueles "filmes da vida". Ainda vou colher muitos frutos a longo prazo por ter participado deste projeto. É algo que fica para sempre.

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