Gigante do cinema

Biografia revela como turbulenta vida pessoal de Marlon Brando teve reflexos em sua carreira

Considerado o maior ator de todos os tempos, Brando estrelou clássicos como "Uma Rua Chamada Pecado" e "O Poderoso Chefão"

14/07/2014 | 20h37
Biografia revela como turbulenta vida pessoal de Marlon Brando teve reflexos em sua carreira warner/Divulgação
Foto: warner / Divulgação

O Duque em seus Domínios é um dos mais emblemáticos perfis de celebridades assinados por Truman Capote, tão revelador que lhe rendeu um inimigo feroz. Marlon Brando nunca perdoou o ferino escritor por tê-lo exposto, em 1956, como um bufão afetado e guloso, apreciador de enfadonhas conversas sem pé nem cabeça e, mais grave, um sujeito traumatizado pelo alcoolismo da mãe.  

Percorrendo as páginas de Marlon Brando – A Face Sombria da Beleza, biografia lançada no Brasil pela editora Objetiva (R$29,90), compreende-se a razão para o desconforto que a evocação da figura materna trazia ao grande mito do cinema. A proposta do jornalista francês François Forestier foi mergulhar na turbulenta vida privada daquele que um dia foi chamado de maior ator do mundo para iluminar a trajetória pública de Brando, astro que foi voluntariamente se apagando em vida até a morrer recluso em sua mansão, aos 80 anos, em 1º de julho de 2004, amargando tragédias familiares e problemas financeiros.

Brando é mostrado como um gigante imponente e frágil moldado numa família desestruturada. Segundo o autor, foi determinante na vida e na carreira de Brando o desajuste afetivo e social germinado na convivência com o pai autoritário e infiel e a mãe, atriz frustrada apaixonada por Shakespeare que o filho adolescente passou a resgatar entorpecida de bares e camas que ela percorria entre as idas e vindas com o marido. 

Nascido em Omaha, Nebraska, Brando cresceu confrontando qualquer tipo de autoridade. Expulso de escolas e do exército por indisciplina, decidiu seguir o caminho que a mãe viu interrompido e apontou para ele. Foi estudar interpretação em Nova York. Mais do que aprender o famoso "método" da geração formada no mítico Actors Studio, ele consagrou um estilo único de interpretação, no qual, seguindo os preceitos de Stanislavski, espelhava em seus personagens a combustão emocional gerada por seus conflitos pessoais.

Forestier destaca o marco zero da criação do mito: aos 23 anos, em 1947, Brando ganhou o papel do explosivo Stanley Kowalski na montagem da Broadway de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, com direção de Elia Kazan. O furor foi tamanho que Kazan garantiu o rapaz no elenco da versão para o cinema que se tornaria um clássico, em 1951 — no Brasil, Uma Rua Chamada Pecado.

A Face Sombria da Beleza descreve como, nesses primeiros passos, Brando ganhou fama de predador sexual e usou essa voracidade e sua beleza como instrumentos de poder e dominação.Ele tinha prazer sádico em seduzir e desprezar amantes, fossem elas Marilyn Monroe ou garçonetes Corria riscos de vida ao se meter com garotas erradas. Era disputado como troféu por anônimos e poderosos, mulheres e homens. Gostava dessa adulação. Era como deus a manipular o universo que girava ao seu redor.  

O outro lado da moeda, destaca Forestier, era ruína emocional que Brando provocava nas suas brincadeiras de jurar amor eterno por uma noite apenas, diante da incapacidade dele em se ligar afetivamente a alguém além da mãe. O crescente desprezo pelo ofício que fazia dele rico e famoso combinou-se com as escolhas equivocadas de alguns trabalhos. Os casamentos irresponsáveis se mostrariam desastrosos para sua sanidade e seu bolso.

Livros como A Face Sombria da Beleza, em geral, costumam ter caráter caça-níquel pela exposição, por vezes invasiva e desrespeitosa da vida privada do biografado. No caso de Brando, que praticamente eliminou a barreira entre o que era e o que interpretava, detalhes como sua falta de higiene, sua bissexualidade e seu animal de estimação ser uma guaxinim ,se tornam secundários diante da recriação que Forestier faz dos bastidores de alguns seus mais emblemáticos filmes e da vocação autodestrutiva e da soberba que levariam o astro à decadência física e artística.

Intriga o autor da biografia como um totem de beleza e virilidade inflou até ficar desfigurado por conta daquele que era seu único vício: comer compulsivamente. E por que razão um ator com o talento de Brando fez filmes inexpressivos e até constrangedores. E ainda: por que um homem que passou a vida celebrando suas amizades morreu solitário assistindo televisão, alguns anos depois de ter um filho preso por assassinato e amargar o suicídio de uma filha.

Desde o começo da carreira, diz Forestier, Brando mostrou-se vaidoso e inseguro. Gostava de se divertir desestabilizando colegas e diretores com seus improvisos e atrasos no set. Ao ficar famoso, passou a renegar Hollywood, vista apenas como fonte de dinheiro para financiar suas temporadas em Paris, cidade que julgava à altura de sua ambição intelectual e antítese do mundo de futilidades e aparências que frequentava. No começo dos anos 1950, Brando começou sua militância em causas sociais. Foi uma celebridade pioneira a se manifestar pelos direitos civis dos negros, a protestar contra o tratamento do governo americano aos índios e a divulgar a causa ecológica quando ninguém sabia o que era isso.  

Forestier faz considerações que podem desagradar os fãs de Brando. Segundo o autor, apenas dois filmes construíram e sustentaram no imaginário coletivo o astro em seu auge: Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões (1954), também sob a direção de Kazan e que deu a Brando seu primeiro Oscar de melhor ator. Entre esses, ele fez  filmes como O Selvagem (1953), que contribuiu para criar uma imagem icônica do ator mas não sobrevive a uma revisão crítica. Depois, o início de um lento ocaso com pontuais momentos de brilho.

Brando queria fazer apenas filmes com "sentido político". Deixou passar papeis em produções que se tornariam clássicas, mas quando precisava de dinheiro topava outras aquém do seus atributos dramatúrgicos. São particularmente saborosos os relatos que o livro traz da caótica realização de longas como O Grande Motim (1962), desastroso projeto que fez Brando se apaixonar pelo Taiti, transformado por ele em um harém particular - o diretor Carol Reed não suportou ser ignorado por Brando e pediu demissão; Lewis Milestone assumiu e resignou-se a ver o ator dirigir a si mesmo.

O pai de Brando, que sempre menosprezou o filho e seu ofício, tornou-se um parasita a drenar dinheiro para negócios nebulosos que nunca vingavam. Outra parte da grana do ator escoava por entre um fila de ex-mulheres raivosas e filhos que ele nunca conseguiu contabilizar quantos eram (entre biológicos e adotados, 16 foram reconhecidos oficialmente).

Cada vez menos gente queria arriscar dinheiro e reputação trabalhando com o indomável e imprevisível Brando. Um diretor casca-grossa como John Huston conseguiu enquadrá-lo Brando no bom O Pecado de Todos Nós (1967). A chance de uma reviravolta, aos 48 anos, veio pela mão de Francis Ford Coppola, após Laurence Olivier, antigo rival e desafeto de Brando, e George C. Scott recusarem o papel de Don Vito Corleone na obra-prima O Poderoso Chefão (1972). 

Brando teve de se submeter a cláusulas contratuais rígidas e a um humilhante teste de elenco. Mas fez valer a oportunidade com um comportamento profissional (quase) exemplar e uma performance memorável, merecedora de seu segundo Oscar - que ele mandou uma índia receber na festa. Brando precisava tanto de dinheiro à época que topou receber logo o cachê de US$ 100 mil em vez de esperar a participação na bilheteria do filme que se tornou um estrondoso sucesso (se ele tivesse aceitado os 5% propostos pelos produtores, estima-se que teria embolsado pelos menos US$ 10 milhões).

Para saldar uma dívida com o produtor italiano de Queimada (1969), longa no qual levou à loucura o diretor Gillo Pontecorvo, Brando topou fazer O Último Tango em Paris (1972), sob direção de Bernardo Bertolucci. No cultuado e polêmico filme erótico, Brando improvisou nas falas de seu personagem monólogos muito confessionais, inclusive com referências a sua mãe. O set foi como uma sessão de terapia para ele.

Brando trabalhou até 2001, entre trabalhos dignos como coadjuvante e aberrações como A Ilha do Dr, Moreau (1996). Deixou como último grande trabalho Apocalypse Now (1979), nos minutos em cena mais sofridos dirigidos por Coppola, simbólicos dos últimos instantes de brilho do gigante que sucumbiu ao próprio peso.  

Confira um trecho de Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado:

 
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