Opinião

Celso Loureiro Chaves: Geração representa música de trânsito livre entre limites inexistentes

"Se na década passada ainda não sabíamos a cara musical que o século teria, agora já podemos — pelo menos — supor"

23/07/2014 | 08h04

O que um roqueiro pretende ao compor música de concerto? Se fosse no século passado, pretenderia a validação da sua música num território mais exigente, com regras mais estritas, com públicos cheios de protocolos e críticos cheios de manias. No século 21, já não. Como já não há fronteiras a ultrapassar e nem muros a derrubar, a intenção é apenas fazer músicas mais longas e mais complexas, como diz Richard Reed Parry, do Arcade Fire, ao apresentar o seu disco Music for Heart and Breath. Não há mais desejo de surpreender num território alienígena e nem há vontade de utilizar o proverbial "sim, eu posso!".

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O próprio conceito por trás de Music for Heart and Breath poderia ser encontrado em algum festival de música contemporânea, aqui ou na Europa — músicos utilizando estetoscópios colados ao corpo para tocar seus instrumentos no ritmo da sua própria respiração, na cadência dos seus batimentos cardíacos. Parry diz que um dos seus modelos é o americano LaMonte Young, pai do minimalismo. Pois bem: é com Young que a música se parece, serena e meditativa, com pequenos sustos ocasionais. Assim como Young, também Parry vê e ouve a música de uma "maneira naïf", que é como ele descreve sua experiência orquestral e de música de câmara gravada pela Deutsche Grammophon, uma major da música clássica na qual Bryce Dessner, da The National, também gravou e lançou o seu St. Carolyn By The Sea.

Não há coincidência no fato de a gravadora ser a mesma e dos produtores serem compartilhados entre os dois discos. A Deutsche Grammophon desde há muito busca sair do atoleiro dos Beethoven e Brahms gravados centenas de vezes para imprimir certo selo de qualidade em músicos não clássicos, como Ravi Shankar, Elvis Costello e John Scofield, moldando-os para que produzam novidades que não choquem (muito). Por isso, a gravadora abraça a trilha de Jonny Greenwood, do Radiohead, para Sangue Negro, com seus ecos de Penderecki. Por isso, a Deutsche Grammophon não gravará o Concerto para Piano de Ben Folds, que é constrangedor nas suas derivações dos concertos de Rachmaninoff, margeando desconfortavelmente o território do brega e saindo dos moldes de bom gosto da gravadora.

Raphael de Bryce Dessner não estaria mal num programa de concerto de música atual. As peças para orquestra ou para música de câmara de Richard Reed Parry também não. Ou talvez o raciocínio devesse ser um pouco diferente ou, mesmo, o seu oposto. Por exemplo: uma música de Steve Reich — talvez 2 x 5, de 2008 — não ficaria mal junto com as músicas de Dessner. Indo mais longe: uma música de Hector Berlioz, músico do século 19, dialogaria com sucesso lado a lado com Richard Reed Parry. Neste apagar de fronteiras, a música do século 21 vai se fazendo. Se na década passada ainda não sabíamos a cara musical que o século teria, agora já podemos — pelo menos — supor. Música de trânsito livre entre limites inexistentes.

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