Coluna

Juarez Fonseca: Novo disco de Maria Bethânia é forte e íntegro

O colunista escreve semanalmente no Segundo Caderno

22/07/2014 | 08h01
Juarez Fonseca: Novo disco de Maria Bethânia é forte e íntegro Gringo Cardia/Divulgação
Com quase 70 anos e cerca de 50 discos, Bethânia lança novo álbum em grande forma Foto: Gringo Cardia / Divulgação

Pode uma cantora com quase 70 anos de idade, às vésperas de completar 50 de palco, com cerca de 50 discos, estar no auge da carreira? Não conheço nenhuma na história da música brasileira senão Maria Bethânia. Aliás, não conheço nenhuma nem nenhum. Comparo com cinco gigantes: embora ainda tenham grande força criadora, Chico, Caetano, Gil, Milton e Paulinho já ultrapassaram seu auge. Pensei nisso ao ouvir o novo disco dela, Meus Quintais. É muito forte e íntegro, letras sobre a vida natural, canções que parecem emergir do folclore, belos arranjos levados por grandes instrumentistas (Maurício Carrilho, Toninho Ferragutti, Luciana Rabello, Fábio Nin, o gaúcho Pedro Franco), dando até mais do que sua atuação normal de profissionalismo e competência, ligadíssimos na temperatura do todo. Na capa e no encarte, os detalhes também dizem, o candeeiro, os entalhes em madeira (feitos por ela), a escultura da indiazinha abraçando a onça, as flores, a cabeça centenária da mãe no ombro da filha.

Na contracapa, é a filha de Dona Canô que mostra seus próprios cabelos brancos emoldurando a face serena. Cada vez mais Bethânia vem valorizando a sabedoria, o essencial, e transmitindo isto com felicidade pessoal e artística. Tornou-se uma intérprete clássica porque única, acima de ocasiões e modernidades. E o disco? Da primeira faixa, Alguma Voz (Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro), só ela e o mágico piano de André Mehmari, à penúltima, Folia de Reis (Roque Ferreira), Bethânia canta o Brasil de rios, matas, índios, caboclos, pescadores, luas, ventos, lendas, folias, em músicas atemporais de Paulo Vanzolini, Custódio Mesquita/David Nasser, Zé do Norte, Adriana Calcanhotto/Clarice Lispector e, em especial, o baiano Roque, que traduz de perto suas intenções. Entre valsa, samba, moda caipira, afro-samba, toada, anotei como curiosidade a melancólica Xavante, de Chico César, que mescla fado e milonga.

E a última? Aparece como faixa extra, uma surpresa, quase antítese, mas Bethânia mostra que não: Dindi, pura bossa nova, com Wagner Tiso e quarteto.

Meus quintais
Maria Bethânia
Biscoito Fino, 13 faixas, R$ 25 (em média)

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Música para ouvir e dar passagem

O que vim fazer aqui
Alzira E

Assinada por ela e Itamar Assumpção, Norte, faixa de abertura, é uma canção de cores regionais que evoca sua origem, Campo Grande (MS): “Viajo pro sul deixando o oeste/ Lá quando chegar deixo meu frete/ Isso quer dizer que meu norte é este”. Trata-se de uma das músicas inéditas guardadas por Alzira após a morte de Itamar, em 2003.  Para fazer este nono disco, a compositora e cantora esperou 10 anos até mergulhar na memória do parceiro que foi decisivo para sua trajetória. Alzira tem um trabalho de personalidade, mas o espírito de Itamar marca cada momento do álbum, o que o torna especialmente emocionante. Além das inéditas, como Chuva no Deserto (letra encontrada nos papéis dele com a anotação “para Alzira”) e Conversa Mole (parceria com a filha, Iara Rennó), ela reprocessa canções de seu disco AMME, produzido por ele, como Já Sei (dos dois + Alice Ruiz) e Itamar É (dos dois), entre outras da parceria. Poesia de primeira com acabamento idem, por jovens músicos que têm a Vanguarda Paulista como uma referência. Ácido, denso, às vezes amargo, o álbum tem pressão roqueira – e nenhuma percussão. ProAC/ Traquitana Discos, 11 faixas, R$ 25 (em média).

Na medida do impossível
Fernanda Takai

Ainda ouço com frequência o primeiro álbum solo de Fernanda Takai, Onde Brilhem os Olhos Seus (2007). Foi uma homenagem à altura de Nara Leão, leve, delicada, definitiva. Agora chega o quarto disco, Na Medida do Impossível, mistura surpreendente de épocas e estilos. Nunca a imaginei cantando, por exemplo, o samba Como Dizia o Mestre (Benito di Paula); muito menos a católica Amar Como Jesus Amou (Padre Zezinho), e mais, com a participação do Padre Fábio de Mello. Ou então A Pobreza (Renato Barros), hit jovem-guardista de Leno e Lilian. E o que dizer de Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme (Reginaldo Rossi), em que divide o vocal com Zélia Duncan? Takai diz que é sua memória de menina ouvindo rádio. Entre as novidades, tem Doce Companhia (Julieta Venegas), You and Me and The Bright Blue Sky (de Cholly, norte-americano professor na Unisinos), canções dela e parceiros, como De Um Jeito ou de Outro (Marcelo Bonfá) e Seu Tipo (Pitty). Ela supera as estranhezas. Apoiada nos arranjos de John Ulhoa no padrão do pop perfeito, Takai está em casa. Com sua voz macia, dá unidade e encanto ao repertório díspar. Mas não chega à altura do primeiro disco. Deck Disc/Natura Musical, 13 faixas, R$ 25 (em média).

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