Paixão cinéfila

Lançada em DVD no Brasil, série de TV britânica passa em revista a história do cinema

Primeiro volume traz cinco discos com oito dos 15 episódios do documentário dirigido por Mark Cousins. Segundo volume sai em agostoo

14/07/2014 | 06h03
Lançada em DVD no Brasil, série de TV britânica passa em revista a história do cinema Reprodução/Reprodução
Buster Keaton no filme "O Homem das Novidades" (1928) Foto: Reprodução / Reprodução

Livros e filmes sobre a história do cinema existem aos montes e ao gosto dos diferentes graus de interesse no tema. Ao debruçar-se sobre os fatos emblemáticos e a mitologia que embalam os mais de cem anos de realizações e revoluções na chamada sétima arte, o pesquisador e documentarista irlandês Mark Cousins pautou-se por um desafio: empreender uma profunda e didática revisão crítica tangenciando aspectos que costumam balizar esse tipo de compilação, como sucessos de bilheteria, astros famosos, vencedores de prêmios, glamour e marketing.

Cousins empreendeu sua investida arqueológica sob a perspectiva da inovação, destacando nomes e obras que por vezes se enquadram na catalogação acima referida, e outros tantos que, embora relevantes em seus aspectos visionários e criativos, são pouco iluminados pelos registros oficiais.

Em 2004, Cousins lançou o robusto livro História do Cinema, editado em 2013 no Brasil (Martins Fontes, 512 páginas, R$ 89). Na sequência, caiu na estrada com sua câmera e rodou por seis continentes em busca de depoimentos, cenários e personagens relacionados aos mais de mil filmes que lista como fundamentais para compreender a evolução dessa arte popular também sob os contextos social, político e antropológico.

O resultado dessa viagem foi a série de televisão A História do Cinema: Uma Odisseia, exibida em 2011 no canal britânico More4. Com 15 episódios de uma hora de duração cada, a produção ganha lançamento em DVD no Brasil, pelo selo Europa Filmes, em dois volumes. O primeiro, com oito episódios, cobre o período de 1895 a 1969 e já está à venda (R$ 99,90). O segundo, de 1969 aos anos 2000, está prometido para agosto.

Colaborador de publicações prestigiadas como  a revista britânica Sight & Sound, curador de festivais e eventos de cinema independentes, Cousins é guia e narrador de uma viagem trilhada com paixão e profundo conhecimento do caminho. Mais do que apresentar, ele interpreta o que exibe. O resultado seduz iniciados e iniciantes na paixão cinéfila, tanto que o jornal The New York Times classificou o empenho de Cousins como ponto de partida obrigatório para futuras revisões da história do cinema.

Diretor entrevistou grandes nomes do cinema

O realizador Mark Cousins combina em A História do Cinema ordenamento cronológico e digressões que aproximam filmes realizados em diferentes épocas — de Luis Buñuel a David Lynch, Jean Cocteau a Christopher Nolan, de John Ford e Orson Welles a Bela Tarr e Michael Haneke.

A fartura de material de arquivo é costurada por depoimentos que Cousins registrou ao redor do mundo. Como é do ramo, ele embala seu documentário com intervenções visuais inventivas e complementares aos temas iluminados. O cineasta Bernardo Bertolucci fala de Pier Paolo Pasolini e Sergio Leone. Paul Schrader destaca como seu roteiro deTaxi Driver foi influenciado de Robert Bresson. Lars von Trier descreve seu impacto ao descobir Ingmar Bergman. Stanley Donen revê sua impressão sobre o coreógrafo Busby Berkeley. Aleksandr Sokurov presta tributo a Andrei Tarkovsky. E por aí vai.

Cousins conversa com as atrizes Claudia Cardinale (musa de Fellini e Visconti) e Kyôko Kagawa (estrela de Ozu, Mizoguchi e Kurosawa) e com o grande astro do cinema indiano Amitabh Bachchan. Também entrevista diretores do porte de Abbas Kiarostami, Gus van Sant,  Ken Loach, Tsai Ming-Liang, Baz Luhrmann e Wim Wenders, o roteirista Robert Towne e o o crítico Jean-Michel Frodon, entre outras personalidades.

E viaja para destacar inovações que vêm dos mais variados pontos do mundo que, independentemente — e não apenas das mecas mais conhecidas do cinema. Do Brasil, são lembrados Mario Peixoto, Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha.

Confira um resumo dos primeiros oito episódios de A História do Cinema – os outros sete estarão no segundo volume, a ser lançado em agosto.

O início (1895 a 1918)
Dos experimentos com imagem em movimento de Thomas Edison e outros pioneiros chega-se à sessão dos irmãos Auguste e Louis Lumière em Paris, dia 28 de dezembro de 1895, que marca o nascimento oficial do cinema. Logo entram em cenas visionários que perceberam que a nova arte precisava de linguagem própria: Georges Méliès, Edwin S. Porter, Charles Pathé, D.W. Griffith, Cecil B. De Mille e outros cujas experiências sobrevivem apenas em fragmentos. Na Austrália, Charles Tait faz o primeiro longa-metragem: The Story of Kelly Gang (1906), com 70 minutos. Hollywood é erguida em Los Angeles e vira a meca do cinema industrial, mas é na Escandinávia que surgem experiências pictóricas, cenográficas e narrativas ousadas como as dos dinamarqueses Benjamin Christensen e Urban Gad e do sueco Viktor Sjöström.

Triunfo do cinema americano (1918 a 1928)
Os chefões dos estúdios se tornam onipotentes em Hollywood. A comédia revela dois criadores geniais que desafiam as amarras criativas e miram muito além do humor burlesco: Charles Chaplin e Buster Keaton. Diretores europeus, como o austríaco Erich von Stroheim, chegam aos EUA e trazem consigo a ousadia para desafiar padrões morais da nova casa. Robert Flaherty realiza o seminal documentário Nanook do Norte (1922). Na Europa, os russos vivem sua revolução cinematográfica com Yevgeni Bauer, Yakov Protazanov e Dziga Vertov. Um ícone brilha na Dinamarca: Carl Theodor Dreyer, autor da obra-prima silenciosa A Paixão de Joana d'Arc (1928).

Rebeldes mundo afora (1918 a 1932)
O alemão Ernst Lubitsch se impõe como um dos mais brilhantes e inovadores cineastas da pulsante Hollywood, consagrando um estilo único de humor e elegância. Na França, cineastas inspiram-se em movimentos artísticos como o dadaísmo, caso de René Clair, e o impressionismo, exemplo de Germaine Dulac e Abel Gance, autor do literalmente grandioso épico Napoleão (1927). A Alemanha apresenta as sombras e distorções expressionistas de Robert Wiene, Fritz Lang e F.W. Murnau — que faz o espetacular Aurora (1927) em Hollywood. O espanhol Luis Buñuel apresenta com Salvador Dalí as viagens ao inconsciente do surrealismo em Um Cão Andaluz (1929) e A Idade do Ouro (1930). A escola russa é reforçada por Sergei Eisenstein e Alexander Dovzhenko. Carioca vivendo em Paris, Alberto Cavalcanti assina Rien que les Heures  (1930), filme experimental que teria inspirado Salvador Dalí na intervenção que este fez em Quando Fala o Coração (1945), de Hitchcock.

Gêneros americanos e brilhantismo europeu (anos 30)
Rouben Mamoulian dá um passo além na novidade do cinema sonoro explorando os ruídos de uma cidade como uma sinfonia em Ama-me Esta Noite (1932). Hollywood passa a consagrar o cinema de gênero: o terror, com Frankenstein (1931), os gângsteres de Inimigo Público (1931) e Scarface (1932), os faroestes de John Ford, as comédias refinadas como Levada da Breca (1938), as animações de Walt Disney O realismo poético surge com força em Paris, apresentado por Jean Cocteau e Jean Vigo. A França revela ainda o cinema humanista de Jean Renoir (de A Grande Ilusão). Na Inglaterra, desperta o gigante Alfred Hitchcock, um "criador de imagens mais importante que Picasso", diz Mark Cousins. Mario Peixoto, no Brasil, refina os impressionistas franceses com seu Limite (1931) — filme que muito encantou Eisenstein, sublinha o narrador.

A devastação da guerra e a nova linguagem do cinema (1939 a 1952)
Cousins destaca como inovações estéticas de John Ford em No Tempos das Diligências (1939) influenciaram Orson Welles em Cidadão Kane (1941) e obras de nomes como John Huston, em O Falcão Maltês (1941), e William Wyler, em Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946). Na Itália arrasada pela II Guerra, surgem o neorrealismo, com Roma , Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini, e os roteiros como foco social de Cesare Zavattini — em filmes como Ladrões de Bicicletas (1948), de Vitorio De Sicca. Se Hitchcock, dizia que "cinema é a vida sem as partes chatas", para Zavattini, destaca Cousins,  cinema era a parte chata da vida. Surge o cinema noir capitaneado por mestres como Billy  Wilder, em  Pacto de Sangue (1944), e Howard Hawks, com À Beira do Abismo (1946). Não menos importante no gênero, Joseph H. Lewis, assina Mortalmente Perigosa (1950). Cousins elege o drama de espionagem O Terceiro Homem (1949), do inglês Carol Reed, como o filme síntese do cinema dos anos 1940.

Cinema mundial fervendo (1953 a 1957)
O grande marco cinematográfico do período Cousins localiza no Egito, onde Youssef Chahine realiza Cairo Station, filme ousado em seu conteúdo erótico, social e que é considerado a pedra fundadora do moderno cinema africano e também árabe. Outro epicentro da renovação do cinema está na Índia, país que produz filmes desde 1913 mas que só ganha visibilidade com a aclamação internacional de A Canção da Estrada (1955), de Satyajit Ray. O segmento destaca dois grandes diretores que imprimiram em seus trabalhos um tom crítico ao conservadorismo e ao sonho de consumo que embalavam os EUA do pós guerra: Douglas Sirk (Tudo o que o Céu Permite, 1955) e Nicholas Ray (Johnny Guitar, 1954, e Juventude Transviada,1955).

Cinema moderno  (1957 a 1964)
Mark Cousins começa este bloco rendendo tributo a quatro grandes mestres do cinema: o sueco Ingmar Bergman, o italiano Federico Fellini e os franceses Jacques Tati e Robert Bresson. Ele centra foco na bomba criativa que estourou na França com a nouvelle vague: François Truffaut e Os Incompreendidos (1959), Jean-Luc Godard ("o maior terrorista do cinema") e Acossado (1960), Alain Resnais e O Ano Passado em Marienbad (1961) e Agnès Vardá e Cléo das 5 às 7 (1962). Os efeitos dessa explosão de inventividade foram sentidos em todo o mundo e tiveram como consequência uma reinvenção do cinema Cousins encerra o episódio com a potência das contradição marxista-religiosa de Pasolini, a exuberância de Visconti e as aflições de Antonioni.

Cinema moderno se espalha (1965 a 1969)
A nouvelle vague ilumina cinematografias periféricas: Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha no Brasil,  Andrzej Wajda e Roman Polanski na Polônia, Milos Forman, Vera Chytilová e Jirí Trnka na Tchecoslováquia, Ousmane Sembène no Senegal,  Forugh Farrokhzad no Irã. Escolas tradicionais renovam seus talentos: na Rússia, destaca-se Andrei Tarkovsky, enquanto Shohei Imamura e Nagisa Oshima despontam no Japão, Ritwik Ghatak assina sucessos populares na Índia, e a classe trabalhador ganha voz na Inglaterra com Ken Loach. A renovação de ares no cinema americano, iniciada em 1959 por John Cassavetes, em sintonia com a nouvelle vague, teria como marcos o genial ecletismo de Stanley Kubrick, a bagagem teatral de Mike Nichols e a rebeldia de Dennis Hopper forçando a porta da Nova Hollywood.

 
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