Coluna

Nílson Souza: "Nossa dor sempre vai parecer a maior dor do mundo, porque é nossa, intransferível"

O colunista escreve semanalmente no 2º Caderno

12/07/2014 | 06h01

Iazul é o título de uma das mais belas lendas de Malba Tahan, pseudônimo do escritor brasileiro Júlio César de Melo e Sousa, que transformou matemática em literatura e escreveu contos encantadores sobre países que nunca conheceu. De acordo com a história, a palavra Iazul estava gravada num anel de ouro, encontrado por um certo rei árabe nos despojos do inimigo vencido. Sem entender o seu significado, ele chamou o sábio do reino para esclarecer o mistério. O homem examinou o anel demoradamente e explicou que o objeto era mágico, exatamente por conter a palavra mais poderosa do vocabulário persa:

– Essa palavra tem o dom de nos tornar alegres quando estamos tristes, e de moderar nossas alegrias nos momentos de extrema felicidade e ventura – afirmou.

Antes de colocar o anel no dedo, o rei ainda quis saber qual era a tradução exata da tal palavrinha. Vamos compartilhar esta revelação no final deste texto. Nestes dias em que o céu da ilusão futebolística parece ter desabado sobre nossas cabeças, talvez seja oportuno refletir sobre uma palavra que não é consoladora nem hipócrita. É, isto sim, a expressão de uma realidade que nem sempre conseguimos ver.

Demasiadamente humano isso. Nossa dor sempre vai parecer a maior dor do mundo, porque é nossa, intransferível, ninguém poderá senti-la em nosso lugar. Somos passionais, achamos que nossas tristezas e decepções vão durar para sempre, assim como muitas vezes nos enganamos em relação às nossas alegrias e conquistas, sem considerar que ambas são finitas.

Também temos uma tendência a transferir aos outros a responsabilidade por nossas angústias, quando na verdade somos nós que as alimentamos. O jogo da vida ninguém joga por nós. Neste, queiramos ou não, temos que nos assumir como protagonistas, tomar decisões, fazer escolhas, construir o nosso próprio destino.

O anel com a palavra mágica só funciona porque nos faz entender que somos seres em constante mutação, que nada é eterno, nem o planeta, nem o sol, nem o universo e muito menos os seres humanos e os seus sentimentos.

Iazul significa simplesmente "isso passa".

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