Coluna

Pedro Gonzaga: Elogio às vidas não vividas

Livro de Adam Phillips salienta a importância do poder imaginativo para remir nossas frustrações vitais por meio da fantasia do que poderíamos ter sido

23/07/2014 | 12h32

Cedo ou tarde isso vai acontecer: acabaremos pequenos comentaristas esportivos de nós mesmos, analisando atuações passadas com aquele cabotinismo de quem precisa de manchetes. Isso será, no entanto, melhor que a autocrítica cerebral, e produzirá, com menos dor, o mesmo efeito positivo, qual seja, o de imaginarmos que poderíamos ter feito diferente, que poderíamos ter levado uma outra vida distinta da que levamos se houvesse oportunidade.

Em A Insustentável Leveza do Ser, Tomas, um dos protagonistas, a certa altura pensa que deveria haver outros planetas, em que pudéssemos testar, como em uma espécie de ensaio, a melhor vida a levar, para só então executá-la. Pouco depois disso, o narrador define que as suposições sobre a vida nesses planetas definiriam o otimista e o pessimista. Otimista seria aquele que acreditasse que as coisas haveriam de melhorar a cada planeta posterior; pessimista, o contrário.

Este assunto das vidas possíveis me reveio da recente leitura de Missing Out: In Praise of the Unlived Life (algo como Perdendo as Oportunidades: Em Louvor à Vida Não Vivida). No livro, Adam Phillips salienta a importância do poder imaginativo para remir nossas frustrações vitais por meio da fantasia do que poderíamos ter sido. Em certo momento, o autor credita a própria existência do desejo humano a esse nosso poder de fabular o que não podemos ter.

Mas voltemos ao comentarista esportivo. Quantas vezes não ridicularizamos nossas atuações, atacando sem piedade um lance perdido? (Lembro da festa de formatura da escola, quando, depois de uma hora treinando mentalmente a chegada na minha colega preferida, consegui dizer o "vamos dançar" quando já terminava – sem que o soubesse – a última canção do bloco das lentas. E desde então o infinito replay ao estilo Barbosa em 1950.) E peço aos leitores que não mofem da alegoria. Pois também na vida nada substitui o momento real. De nada serve o antes e o depois, a não ser como forma de consolo ou vitória moral. Quantos jogadores treinam bem e na hora não jogam nada?

De fato, nunca haverá treinamento suficiente. De fato, o tempo da escolha é sempre o instante da ignorância. De fato, os outros planetas, se os houvesse, teriam a leveza do treinamento, do teste, também nesses planetas, teríamos a sensação de não estarmos aproveitando tudo. E, se é para amplificar, precisamos de mais do que uma fonte de amplificação?

VEJA TAMBÉM

     
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.