Embalado no passado

Zé do Bêlo volta a Porto Alegre para lançar seu novo disco

Com canções da primeira metade do século 20, Zé do Bê se apresenta no Cult Pub com o lançamento do terceiro álbum

30/07/2014 | 06h02
Zé do Bêlo volta a Porto Alegre para lançar seu novo disco Braulio Saenger/Divulgação
Zé do Bêlo se apresenta nesta quarta-feira, às 20h30min, no Cult Bar Foto: Braulio Saenger / Divulgação

Em tese, ele fez o caminho inverso, pois historicamente são os nordestinos que migram para o Sul — no caso, Rio e São Paulo.

Pois o gaúcho Maurício Cambraia Sanches, notório na virada dos anos 1990 para os 2000 em Porto Alegre como Zé do Bêlo, elegeu a paraibana João Pessoa para seu novo lar, e de lá imagina projetar seu trabalho primeiro para o Nordeste e, logo, para o Brasil.

Nesta quarta-feira, às 20h30min, no projeto Dr. Samba Convida do Cult Pub, depois de um período de ostracismo (pelo menos para o público da cidade), ele retorna a sua Porto Alegre natal com o show de lançamento do terceiro álbum, A Moda Chegando Eu Vou Ver Como É, em que canta músicas da primeira metade do século 20.

Entre o Zé do Belo underground e clown daquela época, e o focado pesquisador musical de hoje, há uma distância aparentemente enorme. Mas ele diz que não, e conta que foi seu próprio público que o incentivou a mudar.

A pesquisa musical para chegar ao disco apareceu para Zé do Bêlo como uma revelação. E ele se empolgou com a possibilidade de apresentar às plateias de hoje sua descoberta.

Músicas praticamente desconhecidas de Braguinha, Noel Rosa, Almirante, Manezinho Araújo e João da Baiana, entre outros, chegam ao futuro como joias praticamente inéditas. Zé se mostra empolgado com gêneros/ ritmos como a centenária embolada, e vislumbra um novo universo:

— Não posso deixar essas músicas soterradas lá no passado.

Gravado entre Porto Alegre e Brasília, o disco tem arranjos do conhecido violonista Marco Pereira, Luiz Mauro Filho nos teclados e coprodução de King Jim. Presente em todas as canções, o violão de Zé do Bêlo, de influência joão-gilbertiana, dá um tempero especial aos versos centenários.

Confira entrevista com o artista:

Como foi essa história de te mudar para João Pessoa?

Já tem uns dois anos que eu queria mudar para o Nordeste porque os artistas antigos que eu estava pesquisando eram nordestinos: Jararaca, Manezinho Araújo, João Pernambuco. As letras das músicas falam das coisas do Nordeste, então tem tudo a ver eu estar aqui cantando isso. E também tem a questão da sustentabilidade. Recife está a 150 km daqui, Natal fica a 120 km, são capitais antigas, que têm turismo o ano todo e a movimentação cultural é intensa. Enxergo muita oportunidade para trabalhar com música no Nordeste. De fora parece que é só forró, mas não é, há espaços para todos os gêneros.

Quando "foste embora" de Porto Alegre?

Comecei a ir embora em 2006, quando o Brasil foi desclassificado na Copa e acabou meu contrato de garoto-propaganda na campanha de uma cerveja. Fui pra Santa Catarina, depois voltei pro Rio Grande do Sul, em 2010 fui pra Brasília e no início deste ano fui pra João Pessoa. Sou meio cigano. Mas agora eu vou sossegar na Paraíba, gostei do clima daqui.

Em Porto Alegre não chegaste a ter uma carreira "normal" na música. Lembro de uma evidência maior no início dos anos 2000, depois pouco se ouviu falar de ti por aqui.

Sim, a evidência começou nessa época porque o produtor Egisto Dal Santo incluiu minhas músicas em coletâneas como As 15 Mais da Ipanema FM, que estourou na época. Depois ganhei mais notoriedade quando o produtor Carlos Branco me contratou e lançou meu primeiro disco autoral pelo selo Barulhinho, em 1999. Apresentei diversos shows com boa divulgação e excelente assessoria de imprensa. Logo me chamaram para apresentar um programa na Ipanema e foi um sucesso, bati na casa dos 13 pontos de audiência. Abriram-se portas na publicidade, fui garoto-propaganda de celular, moto e cerveja. Gravei o segundo disco em 2006, mas a gravadora não investiu, passou batido. Depois fiz uns shows em São Paulo e andei por aí até ir para Brasília, onde resolvi encerrar o Zé do Bêlo personagem. Tô voltando agora totalmente repaginado.

Naquela época eras visto meio como um "clown", fazias um tipo, roupas coloridas, boné, cabelão, óculos escuros. Teus shows ocorriam num ambiente mais roqueiro, mas não eras exatamente um roqueiro. O que eras?

Era um trovador. Andava com o violão a tiracolo, tocando de bar em bar na Osvaldo Aranha. Teve várias fases. O repertório eu criei em parceria com o poeta Marcos Prado, de Curitiba, onde morei em 1994. Fiquei um ano lá e voltei a Porto Alegre, mas não sabia o que fazer com aquelas músicas, então inventei o personagem cantor para interpretar os meus sambas. O produtor Rei Magro passou a me empresariar. O pessoal do rock achava meu show divertido, eu fazia uma comédia musical tosca. Quando fiquei famoso mudei o estilo. A partir da Ipanema passei a ser empresariado pelo Eduardo Santos, abandonei o bonezinho sujo, desapareceu o personagem, arrumei umas roupas estilosas, lembro de um show que fiz numa das festas da rádio, com Wander Wildner, Júpiter Maçã, Ultramen, Bidê ou Balde. Tinha cinco mil pessoas na plateia cantando comigo o hit Reprise. Nessa fase eu já tava bem pop. Claro que um pop do mundo alternativo.

Podes contar como entraste na música, de onde vieste, qual tua formação, qual era a tua turma?

Tinha um tio que tocava uns boleros no violão, mas só se tomasse umas pingas, diziam, e eu era criança, ficava só correndo na volta. Tinha outro tio que tocava na banda da Brigada Militar, e nas apresentações eu tava lá com meu avô assistindo. Sou de Porto Alegre mesmo, era um adolescente do Partenon quando ganhei um violão e comecei e tocar. Depois arrumei uma guitarra e fui fazer barulho na garagem com uma turma da rua Barão do Amazonas. Eu escutava as bandas do disco Rock Garagem, curtia o Clube do Jazz de Dona Yvone Pacheco, as bandas Cheiro de Vida e Raiz de Pedra, ia aos shows direto, Nelson Coelho de Castro, Nei Lisboa, Bebeto Alves. Em 1986 fui estudar música na Academia Prediger, e lá aprendi tudo. Cheguei a me aventurar ao saxofone também, na banda Lorenzo Y La Nota Falsa, isso no começo dos anos 1990. Toquei guitarra em algumas outras formações de rock, era a turma da Osvaldo Aranha, que depois migrou para o Garagem Hermética. Pretendo investir mais na minha formação, atualmente me preparo para prestar uma prova na Universidade Federal da Paraíba, para ingressar no curso de bacharelado em violão.

Qual a diferença essencial do Zé do Bêlo daquela época para o atual?

Uma das diferenças é o repertório. Eu podia fazer um tipo nas minhas músicas autorais. Agora, esse tipo não cabe. Outra diferença é que eu era despretensioso com minha música, e agora sou pretensioso. Com o novo disco eu pretendo formar platéia em todo o Brasil. Antes eu não pensava em fazer mais do que Bom Fim, Barros Cassal, Cidade Baixa e região metropolitana.

O que te levou a gravar só compositores de 100 anos atrás?

Não é justo que músicas tão boas fiquem soterradas no passado. Me identifiquei muito, por exemplo, com Manezinho Araújo. A letra do cara é genial, é um filme. Descobri ele por acaso, fuçando em fonogramas antigos que a gente acha na internet. Nunca imaginei que naquela época poderia haver músicas populares tão magníficas, pensava que era tudo marchinha de carnaval. Fui conhecendo a produção do Jararaca, do Bando de Tangarás, do sambista Canuto, e não parei mais. Uma música melhor que a outra. Me identifiquei muito com as emboladas, música divertida, inteligente, contagiante. Cada vez que remexo nesse baú descubro coisas novas. Vai ser genial apresentar isso ao público, porque as músicas soam como inéditas.

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