Coluna

Luiz Paulo Vasconcellos: "um julho de coincidências fúnebres"

O colunista escreve quinzenalmente no 2º Caderno

05/08/2014 | 05h03

"Não sei, só sei que foi assim"
Ariano Suassuna, Auto da Compadecida

A morte de três grandes escritores em julho último deixou o país perplexo. Mais ou menos como aquela série de gols da Alemanha contra o Brasil e que resultou no inesquecível 7 a 1 da última Copa. Com mais conteúdo, evidentemente, porque entre a morte de um escritor e um gol vai uma grande diferença.

O primeiro foi João Ubaldo Ribeiro, dia 18. Baiano nascido na Ilha de Itaparica, João Ubaldo foi jornalista, editor-chefe do jornal Tribuna da Bahia, contista e romancista consagrado com a publicação, entre outros, dos livros Sargento Getúlio, Vencecavalo e o Outro Povo, Viva o Povo Brasileiro, O Sorriso do Lagarto e A Casa dos Budas Ditosos, que em 2004 foi adaptado para teatro por Domingos Oliveira e resultou num trabalho inesquecível de Fernanda Torres.

No dia seguinte foi Rubem Alves, professor de filosofia e escritor de inúmeros livros para o público infantil. Perseguido pelo regime militar, Alves foi para os EUA, onde se doutorou pelo Princeton Theological Seminary com uma tese que, segundo o autor, serviu de base para a Teologia da Libertação, movimento que teve Leonardo Boff como seu mais enfático representante.

O terceiro foi o genial Ariano Suassuna, fundador, junto com Hermilo Borba Filho, do Teatro do Estudante de Pernambuco, o mais importante grupo de teatro amador do país nas décadas de 1940 e 50. Suassuna escreveu, entre outras, as peças Torturas de um Coração, O Casamento Suspeitoso, O Santo e a Porca, A Pena e a Lei e o Auto da Compadecida, esta última considerada por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro". Em 1970, iniciou o Movimento Armorial, juntando as formas de expressão popular com a música erudita nordestina.

Pois foi essa a coincidência que o recém acabado mês de julho nos reservou. E, convenhamos, três mortes de três grandes escritores em um único mês é uma baita perda. Que só foi superada pelo já longínquo abril de 1616, quando os dois maiores escritores das línguas espanhola e inglesa de todos os tempos faleceram, Miguel de Cervantes no dia 22 e William Shakespeare no dia 23. Haja coincidência...

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