Elas na direção

Mostra destaca filmes de uma minoria histórica: as diretoras mulheres

Nos primórdios do cinema, elas tinham mais espaço. Mas ficaram para trás e hoje fazem muito menos filmes do que os homens

01/08/2014 | 15h51
Mostra destaca filmes de uma minoria histórica: as diretoras mulheres Banco de Dados/Banco de Dados
Leni Riefenstahl, no set de filmagens Foto: Banco de Dados / Banco de Dados

Em cartaz desde quinta-feira no Cine Santander, a mostra Mulheres na Direção vai passar um mês (só termina no dia 3 de setembro) exibindo 27 longas e três curtas-metragens. É claro que não há espaço nem condições logísticas de apresentar a obra de todas as diretoras essenciais da história do cinema, mas se trata de um apanhado significativo do trabalho autoral que carrega as marcas das grandes cineastas. Até porque não são tantas assim – ao menos na comparação com os homens.

O que, em primeiro lugar, é um retrocesso, se olharmos para os primórdios do cinema: quando a indústria de Hollywood engatinhava, Frances Marion e Anita Loos eram mulheres de destaque no rol dos principais roteiristas norte-americanos, e Lois Weber e Mabel Normand, diretoras de prestígio – esta última, especializada em filmes cômicos, chegou a dirigir Charles Chaplin em Carlitos Hotel (1914).

Ainda que houvesse executivas de sucesso, como June Mathis, da MGM, e Mary Pickford (ela mesma), cofundadora da United Artists, quando o cinema se tornou um grande negócio, elas perderam o protagonismo. Diretora de A Vida É uma Dança (1940), que terá duas sessões na mostra do Santander (uma delas neste sábado, às 15h), Dorothy Azner é tida como a única realizadora da chamada Era de Ouro de Hollywood (anos 1930, 40 e 50). Uma espécie de correspondente de gênero, na América, a Leni Riefenstahl, a alemã que, a serviço de Hitler, assinou o histórico Triunfo da Vontade (1935).

É claro que houve mais mulheres, aqui e ali, com menos destaque do que as citadas. Até porque obter destaque era – e ainda é – uma tarefa complexa em uma arte essencialmente coletiva.

– É preciso comando para gerir um set – observa a crítica Ivonete Pinto. – O cinema surgiu a partir da máquina, do aparato técnico. Operar essa máquina é um trabalho sob certo aspecto braçal. Acho que isso tem a ver com o estabelecimento de uma estrutura que se tornou tradicional e que tem, a rigor, homens na direção e mulheres na retaguarda, aproveitando sua pecha de "mais organizadas" para cuidar da produção.

A partir da segunda metade do século passado é bem mais fácil encontrar diretoras que fizeram a diferença. Agnès Varda (de Cléo das 5 às 7) na França, Agnieszka Holland (Filhos da Guerra) na Polônia, Lina Wertmüller (Pasqualino Sete Belezas) na Itália, Margarethe von Trotta (Rosa Luxemburgo) na Alemanha, Vera Chytilová (As Pequenas Margaridas) na (então) Tchecoslováquia. No Brasil, foi Gilda de Abreu, dirigindo seu marido Vicente Celestino em O Ébrio (1946), quem abriu os caminhos para, entre outras, Suzana Amaral (A Hora da Estrela), Ana Carolina (Mar de Rosas) e Tizuka Yamazaki (Gaijin).

Mais recentemente, Carla Camurati (Carlota Joaquina) e Tata Amaral (Um Céu de Estrelas) foram nomes importantes na retomada do cinema nacional após o obscurantismo da Era Collor. Na Argentina, Lucrécia Martel (O Pântano) alcançou o posto de grande cineasta de sua geração, independentemente de gênero. Nos EUA, em 2010, depois de 82 anos do maior prêmio da indústria, finalmente uma mulher ganhou o Oscar de melhor direção – Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror.

"Mas, se mulher quiser dirigir um filme, ainda precisa passar por muitas camadas de rejeição – inclusive por mim, suponho – que fica muito difícil chegar lá. O sistema todo é feito para que elas fracassem", afirmou, em entrevista recente à revista Forbes, Amy Pascal, da Sony, uma das raras mulheres do alto escalão dos estúdios de Hollywood. De acordo com um estudo levado a cabo pela pesquisadora da Universidade de San Diego Martha Lauzen, em 2012 as mulheres representavam 18% de toda a mão de obra técnica dos 250 filmes de maior bilheteria dos EUA naquele ano. Apenas 22 desses 250 longas (menos de 10%) tinham mulheres na direção.

Em 2011, em Cannes, lembra Ivonete Pinto, um abaixo-assinado cobrava a falta de títulos assinados por mulheres entre os filmes do festival – não havia nenhum, ainda que 25% de toda a produção francesa daquele ano fosse de responsabilidade de mulheres diretoras. Falando sobre o episódio, Agnès Varda chamou a atenção para a falta de auto-confiança das diretoras "a partir de todas as experiências históricas".

– Como professora de cinema, agora me dou conta de que devo trabalhar com uma ou duas diretoras, apenas, e com muito mais diretores homens. Na crítica, há menos mulheres ainda – cita Ivonete, lembrando a participação ínfima delas nos quadros das associações gaúcha (Accirs) e brasileira (Abraccine) de críticos de cinema.

Filmes do fim de semana na mostra do Cine Santander:

Sexta-feira:
15h: Picardias Estudantis, de Amy Heckerling (EUA, 1982)
17h: Mortos de Fome, de Antonia Bird (EUA/Grã-Bretanha, 1999)
19h: Across the Universe, de Julie Taymor (Grã-Bretanha, 2007)

Sábado:
15h: A Vida É uma Dança, de Dorothy Arzner (EUA, 1940)
17h: O Jardim Secreto, de Agnieszka Holland (EUA/Polônia, 1993)
19h: O Cárcere e a Rua + A Cidade, de Liliana Sulzbach (sessão comentada com a presença da diretora)

Domingo:
15h: Anjos Rebeldes, de Ida Lupino (EUA, 1966)
17h: Os Anos de Chumbo, de Margarethe von Trotta (Alemanha, 1981)
19h: Adoráveis Mulheres, de Gillian Armstrong (Canadá/EUA, 1994)

TOP 10
Bons filmes pós-anos 2000 dirigidos por mulheres:

> O Gosto dos Outros, de Agnès Jaoui (França, 2000)
> Desejo e Obsessão, de Claire Denis (França/Alemanha/Japão, 2001)
> Casamento à Indiana, de Mira Nair (Índia/Grã-Bretanha/França, 2001)
> O Pântano, de Lucrecia Martel (Argentina/Espanha/França, 2001)
> Te Dou Meus Olhos, de Icíar Bollaín (Espanha, 2003)
> A Vida Secreta das Palavras, de Isabel Coixet (Espanha, 2005)
> Across the Universe, de Julie Taymor (Grã-Bretanha/EUA, 2007)
> A Teta Assustada, de Claudia Llosa (Peru/Espanha, 2009)
> A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow (EUA, 2012)
> Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta (Alemanha/França, 2012)

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