Coluna

Pedro Gonzaga: ao sul da fronteira

Colunista escreve quinzenalmente em ZH

06/08/2014 | 05h01

Em uma de suas clássicas gravações, Frank Sinatra, secundado por um arranjo de sopros que soa agora com uma gaiatice anacrônica (nossa cultura só conhece hoje a alegria efusiva), apregoa as delícias de se ir para o sul, para além da fronteira, lá onde então vibrava o México exótico, com suas fiestas e promessas sensoriais. A sul, sempre a sul da fronteira.

Ainda que a letra seja um pouco boba, e mesmo que de resto nada tenha a ver com nossa experiência do que aqui é ir para o sul, por uma dessas transposições absurdas que a arte permite, esse apelo se atualiza para mim quando tomo a direção do Uruguai, ajudando a vencer estradas abandonadas por sucessivos governos, à espera de uma fantasmagórica duplicação. Não haverá o exótico, é certo – somos quase uma só e mesma terra –, mas nem por isso deixarão de estar lá as coisas que me fazem (e espero que também aos leitores) voltar ao sul, como a um destino de coração, a um Uruguai erguido por uns contos de Onetti, continuamente a morrer em Madri enquanto percorremos as ruas de sua provinciana e imaginária Santa Maria. Uruguai da melancólica Montevidéu das páginas de Mario Benedetti, de quem pude traduzir para a L&PM o devastador romance A Trégua. Uruguai das zonas francas, a nos volver em reis do contrabando, como aquele valente Jango Jorge a lutar pelo enxoval da filha. Uruguai de suas praias selvagens, de sua Punta elegante e cínica, armada com feéricas máquinas que nos tomarão os últimos pesos enquanto nos deixamos enganar pelos salamaleques das atendentes dos cassinos. Para além o seu Prata, suas ramblas para o esporte ou o amor, seu Mercado do Porto, em que competem, ferozes e simultâneas, mais de dez parrillas, em um espetáculo bárbaro que apenas a alma gaúcha compreende em sua mais carnívora perfeição. Uruguai de seu presidente de memes, de sua boa gente do interior, de suas cidades desoladas, da aparente ingenuidade (provavelmente falsa), da cortesia verdadeira, da ciência (tão uruguaia) de fazer com que as coisas básicas ainda tenham sabor real: o leite, o pão, o presunto, a manteiga quase branca, o doce de leite quase negro. A sul da fronteira, voltaremos um dia.

Como na vez em que cruzamos a ponte entre Jaguarão e Rio Branco, com destino ao La Fogata, com Alfredo Aquino na direção e eu no banco de trás, ambos a ouvirmos as histórias profanas e infinitas de Don Aldyr Garcia Schlee.

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