
Para fazer seu vigésimo álbum autoral, Danças, o saxofonista carioca Mauro Senise cercou-se de velhos amigos que, como ele, integram o primeiro time da música instrumental brasileira, mesclando-os com convidados especiais e músicos da nova geração. O resultado é um dos mais inspirados e bem resolvidos trabalhos feitos em muito tempo no que se pode chamar também de jazz brasileiro, com produção e acabamento de luxo. O álbum inclui um DVD com quatro músicas do CD, sendo duas coreografadas por Deborah Colker e Chico Diaz. Estendendo-se por uma hora e 16 minutos, o CD alterna composições, arranjos e desempenhos de Gilson Peranzzetta (piano), Cristóvão Bastos (piano) e Jota Moraes (vibrafone), em duos com Senise, em quartetos e quintetos, três deles com orquestra de cordas. O convidado Antonio Adolfo fez o arranjo e toca piano em sua Chorosa Blues (com solo do guitarrista Leonardo Amuedo). O baixista Zeca Assumpção, companheiro de Senise no grupo de Egberto Gismonti nos anos 1970/80, participa de Vou Deitar e Rolar (Baden/Paulo César Pinheiro).
É complicado destacar-se faixas em um trabalho tão íntegro e de qualidade muito acima da média, música de altas esferas mesmo, definido pelo crítico de jazz (e aluno de sax com Senise) Roberto Muggiati como "um grande baile de almas e/ou auras irmãs". Mas digamos que algumas me tocaram mais, como a densa Miles (Sueli Costa), com quarteto e cordas; a lírica valsa Garoto de POA (Jota Moraes), só vibrafone e sax; a fortemente jazzística Ilusão à Toa (Johnny Alf), com quinteto e cordas; o belo choro Levitando (Peranzzetta), arranjo de câmara com o autor no acordeão, Jota no vibrafone, Cristóvão no piano e Senise no sax soprano. Exceto nesta e, obviamente, nos duos, os quartetos e quintetos se completam com os músicos do atual grupo de Senise, Gabriel Geszti (piano), Rodrigo Villa (baixo) e Ricardo Costa (bateria). Nos 23 minutos do DVD, filmado por Walter Carvalho em preto e branco, as sombras e luzes dão ao som e à dança configurações expressionistas. Show de lançamento quarta-feira próxima no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro.
Danças
De Mauro Senise
Música instrumental, Biscoito Fino, 13 faixas (CD) e quatro faixas (DVD), R$ 42 (em média).
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Ernesto Nazareth em clima de jazz
Às vésperas de completar 50 anos de carreira, Antonio Adolfo já atingiu a condição de lenda da música instrumental no Brasil, tanto pela obra quanto pela capacidade de trabalho. Seu novo álbum, Rio, Choro, Jazz..., vem dos EUA, onde hoje vive, e é um tributo a Ernesto Nazareth (1863 - 1934), criador do choro, avô da música brasileira moderna e cujas partituras agora são patrimônio cultural da humanidade, integrando a categoria Memória do Mundo, da Unesco. O que faz o pianista, mais uma vez de forma pioneira? Traduz Nazareth para uma linguagem jazzística, mantendo a essência brasileira. O CD começa com a composição de Adolfo que lhe dá o título, dedicada ao mestre, em clima de samba-jazz dos anos 1950/60. Depois, todas de Nazareth, tem Brejeiro, Fon-Fon, Tenebroso, a valsa Coração que Sente, Nenê. Na bailante Não Caio Noutra, os banjos do brasileiro Rick Ferreira e do americano Bobby Whitlock levam Nazareth para o ragtime, associando-o a seu contemporâneo Scott Joplin - igualmente um "pianeiro". O clássico Odeon mostra Adolfo na melhor das formas, fazendo o tanguinho brasileiro em arranjo marcante, repleto de improvisos. O grupo de músicos se completa com os não menos ótimos Claudio Spiewak (guitarra), Marcelo Martins (flauta, sax soprano), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria) e Marcos Suzano (percussão).
Rio, Choro, Jazz...
De Antonio Adolfo
Instrumental, AAM/Sala de Som, 10 faixas, R$ 32,90.
ANTENA
> Julio Rizzo e Pata de Elefante
Este disco reunindo o trombonista Julio Rizzo e a Pata de Elefante já saiu faz tempo, fevereiro, até foi comentado por Gustavo Brigatti em ZH. Mas decidi registrá-lo aqui mesmo assim, para não esquecer de colocá-lo em minha lista de melhores do ano. É um álbum póstumo, pois a Pata, pra mim a mais efetiva banda de rock instrumental do país, lamentavelmente dissolveu-se em 2013. Daniel Mossmann (guitarra), Gabriel Guedes (guitarra) e Gustavo Telles (bateria), acrescidos de Luciano Leães (teclados) e Edu Meirelles (baixo), têm uma competência e uma pegada que não se encontram todo dia; mas o divertido Julio, grande músico da Ospa e do conjunto de Arthur de Faria, faz a diferença. Seu trombone reveste a sonoridade da banda de um brilho extra, mais jazzístico, redimensionando-a. Tem rock, rockabilly, balada italiana, baladão tipo Ventures e até valsa. Selo Fonográfico 180, 10 faixas, $ 27,50
> Live Sessions at Mosh, de Tony Babalu
Pouco conhecido fora de São Paulo, Babalu é um guitarrista histórico do rock brasileiro, a começar por ter integrado, nos anos 1970, a banda Made in Brazil. Depois passou por outros grupos menos notórios, produziu discos de cantoras, até lançar o primeiro álbum solo, instrumental, em 2003. Para este segundo, convocou o também veterano baterista Franklin Paolillo (Tutti-Frutti, Joelho de Porco, Terço), o tecladista Adriano Augusto e o baixista Leandro Gusman, e fez a gravação ao vivo no estúdio, em equipamento analógico. Sua venerável Fender Stratocaster 1972 é limpa, e no geral as composições são calmas, com certo espírito jazzy, como em Valsa à Paulistana, a balada Suzi e Brazilian Blues. Tony Babalu só senta a mão mesmo na última, Vecchione Brothers (homenagem aos criadores do Made in Brazil), rocknroll com muita distorção e cama de órgão. Amellis Records/Tratore, seis faixas, R$ 25 (em média)
> Duo Calavento, de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani
Sim, o violinista Leonardo Padovani é o que está envolvido nessa polêmica do suposto plágio de Tangos & Tragédias. Mas o primeiro disco do duo que ele forma com o violonista Diogo Carvalho não tem nada a ver com isso. Ambos virtuoses e de formação acadêmica, criaram o Duo Calavento em 2008, em São Paulo, para fazer uma música de resultado simultaneamente popular e erudito - e já começam a ser reconhecidos em países da Europa. Usando violões (seis e oito cordas) e violino amplificados, tocam composições próprias, como Suíte da Sogra, em quatro movimentos; músicas de Tom Jobim (Bangzália, da trilha da série de TV O Tempo e o Vento); de Piazzolla (Night Club 1960, da suíte A História do Tango); e de autores eruditos, entre eles Tchaikovsky (Dança da Fada do Açúcar, do balé O Quebra-Nozes), Debussy (Rêverie), Gabriel Fauré (Après un Rêve) e Eric Satie (Gnossienne 3). Tratore, 15 faixas, R$ 25 (em média)