Coluna

Juarez Fonseca: chorando em Porto Alegre

Nova geração de músicos de choro se multiplica na cidade

Por: Juarez Fonseca
25/04/2015 - 06h02min
Juarez Fonseca: chorando em Porto Alegre Fernando Gomes/Divulgação
Integrantes da Oficina de Choro e Samba do Santander Cultural Foto: Fernando Gomes / Divulgação  

Nesta semana a cidade está cheia de chorinho. Neste sábado mesmo (25/4), o bandolinista Elias Barboza será um dos solistas do concerto da Orquestra Unisinos Anchieta dedicado ao ancestral gênero, às 20h30min, no Teatro da Santa Casa. Neto de Paulo Barboza, acordeonista da velha guarda que foi um dos fundadores do Clube do Choro de Porto Alegre, Elias é também, além de grande músico, um dos líderes da nova geração de chorões porto-alegrenses – que se multiplicam desde a criação, em 2004, da Oficina de Choro e Samba do Santander Cultural. Ele se criou nesse ambiente e tem orgulho de contar histórias como a visita à Oficina, sábado passado, do diretor musical do show de Maria Bethânia, Jorge Helder:

– Ele ficou impressionado com o envolvimento dos jovens com essa música que, durante tanto tempo, foi privilégio dos mais velhos.

Mas a Oficina abriga gente de todas as idades. O participante mais velho, Jorge Lemos, pandeirista, tem 82 anos. Não há conflito de gerações, pelo contrário, os mais experientes ajudam os novatos, ressaltam Elias e o atual coordenador da Oficina, o violonista Mathias Pinto. Oficineiro antigo, Mathias foi indicado para o posto pelo criador da Oficina, o também violonista Luiz Machado, nome importante da educação musical em Porto Alegre que se afastou em 2014 depois de 10 anos de trabalho bem-sucedido. A Oficina tem sempre entre 40 e 50 participantes, que se inscrevem no próprio Santander Cultural nos sábados à tarde, quando ocorrem as reuniões. Mais de 400 músicos já passaram por lá, muitos se profissionalizaram, formaram grupos e alimentam o circuito gaúcho do choro.

Não só o gaúcho: há ex-oficineiros que partiram em busca de outros ares, como o Rio de Janeiro, onde atuam os precoces Pedro Franco (violão, bandolim) e Luís Barcelos (bandolim), que se destacam nas rodas de choro cariocas e tocam e gravam com artistas como Yamandu Costa e a própria Bethânia – Pedro esteve agora no Teatro do Sesi como integrante da banda fixa da cantora. Vários locais apresentam choro em Porto Alegre, mas os três pontos fixos são o Santander Cultural aos sábados; o Ipiranga F.C., sede do Clube do Choro, às quintas, quando se misturam gerações; e o Bar Parangolé, onde às terças podemos encontrar caras da nova geração, de Mathias e Elias a Samuca do Acordeon, Fernando Sessé (percussão), Lucian Krolow (flauta), Guilherme Sanches “Feijão” (percussão), Fábio Azevedo “Cabelinho” (cavaco)...


Representantes do choro gaúcho no Rio

Neste sábado (25/4) a Oficina do Choro e Samba do Santander Cultural não funciona. Mathias Pinto está no Rio de Janeiro, junto com Luiz Machado, participando da semana comemorativa à inauguração oficial da Casa do Choro, que começa hoje e segue até o dia 30.

A Casa, que abriga o projeto Escola Portátil de Música, liderado pelos chorões Luciana Rabello e Maurício Carrilho, está instalada em um prédio centenário na Rua da Carioca, coração do Centro Histórico do Rio, restaurado com patrocínio da Petrobras e do BNDES. Lá também está o Museu do Choro. A programação é extensa, com muitos shows e palestras diários. Na próxima quarta (29/4), Mathias e Machado falarão sobre “O Choro no Sul”, uma história que começa no início do século 20 com Octavio Dutra, passando por Gnattali, Dante Santoro, Jessé Silva, Plauto Cruz e tantos mais.

Leia as colunas anteriores de Juarez Fonseca

Mais novidades musicais:

SEXTA-FEIRA (Juliano Guerra) –
Pelotas sempre surpreendendo. Vem de lá o segundo álbum do compositor, cantor e violonista que desde já pode ser colocado entre as boas novidades da música produzida no Estado. Ele faz basicamente samba, mas um samba moderno, que não se parece com nenhum outro que eu tenha ouvido. Já a referência para falar de sua voz “pequena” seria João Gilberto. Mas não é imitação, é um jeito.
Autor de melodias também econômicas, sem o contraste gaúcho, Juliano tem verve própria – há sempre um tom meio irônico nas letras urbanas que falam de relações pessoais. E não é só samba, também há uma milonga, uma moda de viola e a valsinha Tanta Novela, que diz assim: “Quanto te vi fechando a porta/ E encenando o mesmo ato/ Eu tinha a mesma vergonha/ E usava o mesmo sapato”. A melhor faixa é um samba-choro, 1983. Bons músicos e arranjos sublinham o trabalho. CD à venda em www.julianoguerra.com por R$ 25

LE QUATTRO STAGIONI (Zózimo Rech e Adrianne Simioni) – Os guitarristas porto-alegrenses Zózimo e Adrianne se dedicam desde 1991 à interpretação de música clássica com seus instrumentos “profanos”. Adquiriram certa notoriedade em países como EUA, Canadá e França junto ao público do rock progressivo, da new age e da space music, consumidor de dois discos dele e um dela. Agora, como parte do projeto Astronomusic, eles lançam o álbum Le Quattro Stagione. Sim, são os concertos para violino e orquestra compostos por Vivaldi em 1723 e conhecidos como As Quatro Estações. Guitarras e sintetizadores reproduzem nota por nota, frase por frase, andamento por andamento da famosa obra, como se a traduzissem para outro idioma, eletrônico, ruidoso, com distorções, mas igualmente belo. Os puristas poderão odiar, mas eu achei o resultado sensacional. É um trabalho muito sério. Saiba mais em www.astronomusic.com, onde está o contato para compra do CD, a R$ 25

ORQUESTRA UNISINOS ANCHIETA & RENATO BORGHETTI – Em dois discos dos anos 1990, o gaiteiro incluiu faixas com a Ospa, a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro e a Orquestra Sesi-Fundarte. Mas este disco é seu primeiro registrado inteiramente com arranjos orquestrais. E ficou um dos melhores do gênero já feitos no RS. Embora captada em diferentes sessões de estúdio ao longo de um ano, a sonoridade da orquestra regida por Evandro Matté está exemplar, o mesmo ocorrendo com os sons da gaita (e do violão de Daniel Sá). O ouvinte é capturado já na primeira faixa, Barra do Ribeiro, com suave arranjo de Arthur Barbosa acentuando o lirismo do toque de Borghetti. São 13 músicas de vários autores, entre elas Merceditas, Sétima do Pontal, Fronteira, O Mal Dormido e Pout Pourri de Rancheiras, com arranjos de Daniel Sá, Alexandre Ostrovski Jr., Sérgio Rojas, Ricardo Bordini e Alfred Hülsberg. CD à venda na Coordenação Cultural Unisinos (51 3590-8228) a R$ 30

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.