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Por que os brasileiros leem tão pouco?

Pesquisa da Fecomércio-RJ mostrou que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014

07/04/2015 - 20h02min
Por que os brasileiros leem tão pouco? Reprodução/
Foto: Reprodução

Quantos livros você leu no ano passado? Se você é como a maioria da população brasileira, deve ter respondido "nenhum". Uma pesquisa divulgada na semana passada pela Federação do Comércio (Fecomércio) do Rio de Janeiro mostrou que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Para especialistas, o dado é preocupante – principalmente pelo fato de o percentual ter aumentado em relação ao ano anterior. Mas por que o Brasil lê tão pouco?

Entre professores e escritores, as respostas passam, inevitavelmente, pelo investimento que é feito em estudo, pela falta de vontade política, pelo processo de alfabetização tardio e pela própria cultura do povo brasileiro, mais oral do que textual. A professora Regina Zilberman, do Instituto de Letras da UFRGS, lembra que as crianças brasileiras passaram a ser alfabetizadas de maneira séria há menos de 100 anos:

– Nós ignoramos a alfabetização por boa parte da nossa história. A obrigatoriedade é de meados de 1930, não tem 100 anos. Ou seja, saímos atrasados em relação a outros países. E no Brasil existe a cultura da oralidade muito mais forte do que a cultura letrada, como há na Europa. No continente europeu, o livro sempre desempenhou um papel importante, inclusive religioso. Aqui, não.

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Até por isso, o dado é visto como lamentável, mas não surpreendente. O Brasil nunca foi um expoente da leitura, mas, de um ano para o outro, a taxa de leitores (isso se usarmos "leitor" para o sujeito que leu um livro durante o ano inteiro) caiu cinco pontos percentuais.

– Historicamente, somos um país analfabeto. E a resposta mais simples, que é um clichê, é dizer que tudo envolve o processo educacional, que no Brasil se mostrou ser um fracasso – avalia Diego Grando, poeta e professor de literatura.

Os especialistas tendem a concordar que a educação no Brasil é um problema que não se restringe à literatura, mas projetos paliativos não vão solucionar a questão central. Regina lembra que há uma tentativa de popularização do livro, mas que o preço de uma obra ainda é alto. O professor Sergius Gonzaga, ex-secretário da Cultura de Porto Alegre, avalia que só uma "discussão ampla" e uma "mudança radical dos currículos" podem fazer com que as gerações futuras mudem essas taxas.

– Sem uma ação efetiva do Estado, não vejo alternativa. O Brasil iniciou tardiamente o seu processo de escolarização, e isso se deu no início dos anos 1960. Na mesma época, o país entra na era do audiovisual, com TV e cinema. Ou seja, o país pula do analfabetismo direto para o audiovisual, não consegue formar uma cultura de leitura.

Sem ler, país tem dificuldades de discutir com profundidade

As consequências de ter uma população que não lê é que o Brasil apresenta muita dificuldade de discutir questões um pouco mais complexas. Todos os especialistas lembram, sem exceção, que o processo de leitura – de literatura, principalmente – estimula habilidades cognitivas. Sem elas, é difícil praticar ações como se colocar no lugar do outro, pensar em soluções criativas para problemas do dia a dia, ir a fundo em debates éticos, apresentar como argumento fatos de outras épocas e lugares. Em resumo, ao não ler, o Brasil se torna um país raso.

– A leitura envolve fantasia e imaginação, elementos formadores importantes, que ajudam a entender o mundo ao nosso redor e a nós mesmos. Se eu consigo entender o que está escrito, consigo entender melhor o mundo à minha volta – avalia Regina.

A opinião da professora se assemelha muito ao que diz Sergius Gonzaga. O professor chega a comparar o Brasil com países vizinhos, como Uruguai e Argentina. Por serem países que leem muito mais do que nós, eles têm, segundo o professor, "muito mais informações sobre o mundo":

– Não estou falando de ficar sonhando acordado ou compor músicas, mas da capacidade imaginativa que serve para a ciência, para toda a atividade humana, no fim das contas. Eu trabalhei na prefeitura e notei que há muita gente sem iniciativa. E não é preguiça, mas uma incapacidade de tomar decisões ousadas, de pensar criativamente, de imaginar algo diferente no dia a dia.

Diego Grando leva essa discussão para a rotina do Brasil, de intolerância e dificuldade de superar questões básicas. Segundo ele, o brasileiro tem dificuldade de aceitar outros pontos de vista, muito por culpa dessa falta de leitura:

– Colocar-se no lugar de outra pessoa é um ato de imaginação, adotar outros pontos de vista exige desprendimento intelectual. O texto escrito é um suporte para o desenvolvimento do raciocínio complexo, e não é à toa que a filosofia se assentou quando foi escrita.

A única maneira de encerrar esta matéria, portanto, é agradecer a você, caso tenha chegado até o final. Infelizmente, você ainda é minoria.

 
 
 
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