
Sentado em uma cancha de bocha ao lado do restaurante em que almoçou, em Santa Tereza, Selton Mello, 42 anos, conversou com ZH por 20 minutos antes de embarcar rumo a outra locação. Nesta entrevista, ela fala sobre a inspiração e as expectativas para o novo longa, o terceiro como diretor depois de O Palhaço (2011) e Feliz Natal (2008).
O livro Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta, deu origem ao roteiro, mas os nomes dos personagens mudam no filme. O protagonista Jacques, por exemplo, tornou-se Tony. O que o levou a fazer as trocas?
Tenho fixação por nome de personagem. Acho que tem de ser curto e marcante. Nunca pensei nisso, mas entrevista às vezes é como terapia: ao falar, você elabora coisas que não pensou antes. Vá saber se, inconscientemente, não fiz essas trocas para me sentir um pouco mais livre para minha criação?
Skármeta tem acompanhado o desenvolvimento do filme?
Ele está sendo um interlocutor de alto nível. O roteiro teve seis versões até chegar a esta que estou rodando. Mandei todas a ele, que sempre respondeu de maneira muito sutil, apontando coisas que gostou e sugerindo alterações com muita delicadeza, deixando-me sempre à vontade para minhas escolhas. Além disso, ele fará uma participação especial no filme, contracenando com meu personagem.
Por que filmar na serra gaúcha?
Fui muitos anos ao Festival de Gramado, adoro a região e sempre tive vontade de filmar algo no Sul. Um dia, Skármeta me ligou e disse que adorava o Brasil, mas que nunca tinham filmado nada dele aqui. Ele estava me oferecendo o livro para filmar, pois tinha se encantado com O Palhaço (longa anterior dirigido por Selton, lançado em 2011) e achou que eu era a pessoa adequada para adaptar a obra dele. É um livro que se passa na serra do Chile e, ao ler, além de ficar encantado, pensei: perfeito, é minha oportunidade de filmar na região!
Você é muito conhecido como ator. Como tem equilibrado a arte de atuar e dirigir?
Eu me desloco atrás do brilho no olho. Cheguei a uma altura como ator que não estava gostando do que fazia, aí comecei a dirigir, e o brilho no olho voltou. Só no Sessão de Terapia (série exibida no GNT), dirigi sozinho 115 episódios em três temporadas. Recentemente, tive uma experiência de ator em Trash (2014), de Stephen Daldry, e ele me instigou muito como intérprete, me dando de novo algo que estava me faltando. Então, creio que agora a tendência é eu equilibrar mais as duas coisas. Faço um coadjuvante neste filme, e estou voltando à TV agora em uma adaptação de Ligações Perigosas (clássico de Choderlos de Laclos) para o Brasil dos anos 1930. Trata-se de uma minissérie de 10 capítulos, que será exibida na Globo. É o que vou fazer como ator no próximo semestre, ao lado da Patrícia Pillar.
Este é um momento empolgante para fazer TV? A forma como se faz e se consome televisão está mudando.
Não é só a TV. Tudo está mudando. Sessão de Terapia tinha um público muito fiel, grande. Se você pensar no Porta dos Fundos, além da qualidade do trabalho dos meninos, perceberá que eles foram visionários. Se alguém pensasse antes em fazer uma série para o YouTube, outro diria "ninguém vai ver isso". Agora há milhões de visualizações. No futuro, esta entrevista poderá ser motivada por uma série na internet. Além disso, o conceito de grade também caiu, as pessoas não aguardam para ver um programa, acessando-o quando quiserem.
Hoje, as grandes bilheterias de filmes nacionais são comédias. Não te assusta investir em um filme que se aproxima do drama?
O Palhaço foi um filme que surpreendeu o mercado. Tem humor, mas é basicamente um drama, um filme sensível, e teve 1,5 milhão de espectadores. Então, tenho motivos para sonhar alto com este também, pois a experiência anterior deu certo. Há hoje, no Brasil, filmes autorais, que pouca gente vê, mas que são importantes e circulam em festivais internacionais; e há as grandes bilheterias das comédias, que também são importantes, pois criam o nosso público. E o meio do caminho entre uma coisa e outra? É onde quero ficar.
Alguém o inspira?
Quem faz isso de modo brilhante, no Brasil, é o Jorge Furtado. O Homem que Copiava (2003) e Meu Tio Matou um Cara (2004) são assim: filmes inteligentes, mas voltados para o grande público. Quero isso: ser acessível, mas elegante. Furtado é o cara, e estou feliz de estar na terra dele.