Uma era em revista

Sexo, drogas e publicidade: conheça as referências de "Mad Men"

A partir de segunda-feira, série que acompanhou mudanças comportamentais dos anos 1960 se encaminha para o final

Por: Fernanda Grabauska
04/04/2015 - 04h03min | Atualizada em 06/04/2015 - 08h45min
Sexo, drogas e publicidade: conheça as referências de "Mad Men" HBO/Divulgação
Foto: HBO / Divulgação  

Ao longo de suas sete temporadas — a segunda parte da última começa a ser exibida segunda-feira no Brasil —, a série Mad Men incorporou o imaginário de uma época com grande eficiência. Saiba como os históricos anos 1960 foram abordados na trama de Don Draper e companhia

Música

Um dos maiores trunfos da série é sua sincronia com a música do período.

Na primeira temporada, que se passa em 1960, a dança da época era o educado twist. Mas, com os Beatles e o rock'n'roll tomando conta dos Estados Unidos conforme a década avança, a trilha sonora de Mad Men dá uma virada perfeita e se mantém apurada com o espírito dos swinging sixties: dá ênfase aos fab four e aos Rolling Stones, mas passeia por outras canções emblemáticas em seus momentos pivotais — como esquecer a performance de Zou, Bisou, Bisou, de Megan (Jessica Paré), durante um malsucedido aniversário de Don?

Exemplos são Bleecker Street, de Simon and Garfunkel, e, para citar um dos poucos dissabores dos fãs, Don't Think Twice, It's Alright, de Bob Dylan — lançada em 1963, mas que embala um episódio que se passa em 1960.

Drogas

Mad Men é uma ode à experimentação dos anos 1960: desde as drogas de escolha dos cool kids da época — a maconha dos beatniks entra nos escritórios da agência Sterling & Cooper já nas primeiras temporadas e as viagens de ácido rendem alguns dos melhores momentos de Roger Sterling (John Slattery) na série.

Sinalizando a liberdade da época, o tabagismo era livre no ambiente de trabalho, e não oferecer uma dose de uísque a um potencial cliente era uma completa falta de educação (o scotch para relaxar durante entregas de campanha também era aconselhado, se não obrigatório).

Mas o seriado também vai aos extremos característicos da década, abordando a febre da anfetamina, aprovada em 1960 pela Food and Drug Administration com o nome de Obetrol, e mostrando o núcleo de criativos e atendimento da agência enfileirado para receber uma "injeção de ânimo".

Estilo

Do new look consagrado por Christian Dior ao mod da década de 1960, o trabalho da figurinista Janie Bryant torna o visual das personagens tão interessante quanto a saga desregrada de Don Draper.

A série fez bem a transição entre grandes saias rodadas para calças cigarrette bem cortadas, microssaias e batas esvoaçantes de mangas boca de sino para as moças modernas, enquanto as business women permaneciam fiéis aos tailleurs.

Já os homens vão se desvencilhando pouco a pouco do terno e da gravata para adotar o visual despojado dos beats e, depois, o look mais rock'n'roll da época — se, no início, havia homens que vestiam ternos praticamente idênticos, no desenrolar da trama cada um deles desenvolveu um estilo pessoal no melhor reflexo da individualidade que marcou a década.

Política

Mesmo parecendo isolados na rotina da agência de publicidade, os personagens tomam o trem da história, e suas atitudes mudam com o desenrolar da década.

Se a única preocupação, no início, era com o embate entre Nixon e Kennedy, não demora até que o movimento por igualdade de direitos para os negros transforme a conduta de todos — o fato de um dos publicitários namorar uma negra deixa de ser um escândalo entre os colegas, e a questão da igualdade racial logo toma a agência. A secretária Dawn (Teyonah Parris), negra, torna-se em pouco tempo grande amiga de Don e, mais para o fim da série, assume uma posição de prestígio na agência.

Outros episódios tratados com destaque são a morte de JFK, que, mais do que acabar com a festa de casamento da filha de Roger, cria um clima de nervosismo que abala ainda mais os nervos dos personagens, e toda a corrida espacial até a chegada de Neil Armstrong à Lua — ponto essencial para entender o último episódio exibido da série.

Cinema

Dividido entre a vida em Nova York e o casamento com Megan, que passou as últimas temporadas em Los Angeles, Don assiste, entre tragos de uísque, a O Segredo Íntimo de Lola (1969), carta de amor do diretor Jacques Démi à cidade californiana.

As influências cinematográficas em Mad Men são tantas que, em homenagem aos últimos episódios da série, uma mostra foi organizada no Museum of the Moving Image, em Nova York. Entre os filmes, a maior parte lançada entre as décadas de 1950 e 60, estão clássicos de Hitchcock, mas também títulos da nouvelle vague como Entre Amigas (1960), a comédia romântica Coração Querido (1964), a comédia de humor negro Não Podes Comprar o Meu Amor (1964) e o melodrama de escritório A História de um Egoísta (1956).

As referências à publicidade também estão presentes, como no episódio da malograda gravação de uma das faixas de Adeus, Amor (1963) para o comercial de um refrigerante diet da Pepsi.

Literatura

Simbolizando o início do fim de uma sociedade mais moralista, um dos primeiros episódios da primeira temporada mostra as jovens da agência Sterling & Cooper emprestando umas às outras, entre risinhos, exemplares de O Amante de Lady Chatterley, livro censurado nos Estados Unidos até 1959.

Algumas das referências literárias podem até ser sutis (um dos redatores recita, sob efeito de maconha, os versos finais de Os Homens Vazios, de T.S. Eliot, de 1925), mas outras conexões são muito bem feitas.

Entre a crise dos mísseis e um turbilhão em sua vida pessoal, Don se apega ao livro de poemas Meditations in an Emergency (1957), de Frank O'Hara. Já em outro momento de desgraça e profunda neurose, ele se concentra em uma leitura do clássico Complexo de Portnoy, de Philip Roth, lançado em 1969.

Cultura pop

Mad Men recria um período de transição histórica em que as tendências culturais e sociais que dominariam a segunda metade da década estão em ponto de ebulição.

Vai desde a decoração em motivos japoneses do escritório de Bert Cooper (Robert Morse) — o chamado japonismo, que ficou em voga até os idos de 1970 — até o poder da TV, cada vez mais presente nas residências e no cotidiano como difusora de entretenimento. E da literatura: é inspirada pelo romance The Group (1963), de Mary McCarthy, que Betty (January Jones) confronta o então marido Don sobre suas mentiras em relação ao passado.

Referências mais obscuras também estão presentes: em um dos episódios, Megan é vista usando uma camiseta estampada com uma estrela vermelha, similar a uma vestida por Sharon Tate em uma foto famosa — uma das muitas ligações da mulher de Don com a atriz, assassinada quando estava grávida, em 1969, captadas por fãs mais atentos.

 
 
 
 
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