Coluna

Juarez Fonseca: Geraldo Flach, que completaria 70 anos, foi um músico renascentista

O colunista escreve quinzenalmente no 2º Caderno

Por: Juarez Fonseca
01/08/2015 - 03h01min
Juarez Fonseca: Geraldo Flach, que completaria 70 anos, foi um músico renascentista Marcelo Martins/Divulgação
Foto: Marcelo Martins / Divulgação  

Um dos maiores pianistas nascidos no Rio Grande do Sul, Geraldo Flach completaria 70 anos na próxima quinta-feira. Para marcar a data, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) fará no dia 23, no Auditório Araújo Vianna, um concerto somente com composições dele. A sonoridade da orquestra se completará com um quarteto que foi ligado a Geraldo – o baixista Ricardo Baumgarten, o percussionista Fernando do Ó e o baterista Ricardo Arenhaldt tocaram com ele durante muito tempo, e o jovem pianista Cristian Sperandir, que a cada dia mais se destaca, tem grande influência dele. A homenagem é uma ideia do secretário de Estado da Cultura, Victor Hugo, levada adiante pelo maestro Evandro Matté e apoiada pelo secretário da Cultura de Porto Alegre, Roque Jacoby.

Geraldo era um músico do tipo renascentista, completo como pianista, compositor, arranjador, produtor, também um líder que estimulava outros artistas – como Luciah Helena e Marcelo Delacroix, que participarão do concerto. Mesclava jazz, bossa nova, ritmos regionais... e um gremismo a toda prova. Ficou famoso um clipe que fez para a RBS TV tocando o Hino do Grêmio com o piano no centro do gramado em um Olímpico vazio. Sua obra está materializada em nove álbuns instrumentais solo e com seus grupos, um com Luiz Carlos Borges e três acompanhando os cantores Victor Hugo, Lucinha Lins e Virgínia Rosa, sem contar dezenas de shows e participações em discos de outros, trilhas para cinema e TV, incontáveis jingles publicitários.

Conheci Geraldo Flach no fim dos anos 1960 e fomos muito próximos até a morte dele, em 3 de janeiro de 2011. Pensando nele agora, veio uma curiosidade de saber sobre outros pianistas profissionais da história de Porto Alegre. Com a ajuda de amigos, cheguei a mais de cem nomes, do lendário Paulo Coelho dos anos 1930, e Nico Nicolaiewsky, aos garotos Cristian Sperandir e Matheus Kleber de hoje. Uma lista dos atuantes hoje, com discos próprios, tem Olinda Allessandrini, Dúnia Elias, Arthur de Faria, Catarina Domenici, Celso Loureiro Chaves, Yanto Laitano, Luciano Leães, Simone Rasslan, Ney Fialkow, Léo Ferlauto, Bethy Krieger, Flávio Oliveira, André Loss, Sérgio Olivé, Maly Weisenblum, Cristina Capparelli, Dimitri Cervo, Norberto Baldauf, Benito Crivellaro...

Listo aqui apenas pianistas, não os que tocam outros instrumentos de teclado nem os que integram grupos, caso contrário a relação ficaria enorme. Fiz este levantamento com a ajuda de Marcello Campos, Arthur de Faria, Yanto Laitano e Aury Hilário. É uma primeira lista. Nela não estão pianistas integrantes de grupos e orquestras que atuavam em clubes, dancings e casas noturnas do passado e que não tiveram notoriedade - quem se interessar por saber deles, a dica é o ótimo livro "Jazz em Porto Alegre", de Hardy Vedana, lançado em 1987 por L&PM Editores e nunca reeditado. Entre os eruditos, alguns atuam apenas acompanhando cantores líricos, sem ter um trabalho próprio. A maioria dos citados deveria ter aqui pelo menos uma linha sobre sua importância, mas este não é o objetivo da lista - fica a ideia para que alguém faça um livro sobre o piano/teclado em Porto Alegre. Seria uma obra enriquecedora. Para comentários e acréscimos à relação (é fatal esquecermos alguém), meu e-mail é juafons@gmail.com.

Falecidos

Radamés Gnattali, Natho Henn, Tasso Corrêa, Paulo Coelho, Armando Albuquerque, Arthur Elsner, Herbert Gehr, Wilson Baraldo, Manfredo Fest, Geraldo Flach, Roberto Szidon, Glauco Sagebin, Nico Nicolaiewsky, Hubertus Hofmann, Ângelo Crivellaro, Ella Milner, Alcides Gonçalves, Délcio Vieira, Rui Silva, Aderbal d'Ávila, Zé Gonçalves, Rubens Britto, Lila Martins, Adão Pinheiro, Osvaldo Carreiro, Nicolau Kersting, Wilson Ayala, Ana Mazzotti, Carlos Garofalli, Romeu Fossatti, Peixoto Primo...

Eruditos

Zuleica Rosa Guedes, Giovanni Porzio, Alexandre Dossin, André Loss, Olinda Allessandrini, Catarina Domenici, Ney Fialkow, Celso Loureiro Chaves, Miguel Proença, Cristina Capparelli, Flávio Oliveira, Dirce Knijnik, Maly Weisenblum, Lea Roland Kiefer, Dimitri Cervo, Alessandra Feris, Paulo Bergmann, Fernando Cordella, Luciane Cardassi, Anne Schneider, Darci Von Fruhauf, Jeanine Franke Mundstock, Marcelo Vicentini, Jordana Brusa, Elda Pires, André Carrara, Fernando Rauber, Marcelo Nadruz, Benito Crivelaro, Leandro Faber, Marcelo Cazarré, Cristina Gerling, Adrian Borges, Alexandre Constantino, Jessé Martins, Fernando Rauber, Erico Bezerra, André Carrara, Ana Althoff...

Música popular

Paulo Dorfman, Norberto Baldauf, Arthur de Faria, Cristian Sperandir, Matheus Kleber, Yanto Laitano, Michel Dorfman, Lucio Dorfman, Luciano Leães, Vitor Peixoto, Dudu Trentin, Marcelo Lehman, Astronauta Pinguim, Simone Rasslan, Bethy Krieger, Dionara Schneider, Leo Ferlauto, Luiz Mauro Filho, Dúnia Elias, Sergio Olivé, Ivone Pacheco, Fernando Corona, Garoto, Marco Farias, Paulo Pinheiro, Peixoto Primo, Breno Sauer, Leonardo Bittencourt (Marmota), Ricardo Farfisa (Laranja Freak), Otávio Santos, Marcos Ungaretti, Tonda Pecoits, Chico Ferretti, Eloy Fritsch, Rafael Vernet, Dado Jaeger, New Cidinho...


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PODRES PODERES

Eles têm todo o direito de pedir R$ 400 mil por um show de voz e violão. As duas gulosas empresas que os contratam (Time for Fun e DC Set) têm todo o direito de cobrar de R$ 190 a R$ 750 pelos ingressos*. Assistirá ao show no Araújo Vianna, que aliás é patrocinado, quem puder pagar, e muita gente pode – para as autoridades do poder judiciário, por exemplo, isso é uma ninharia. Mas não se trata só de números. Há um valor maior que Caetano e Gil estão desprezando, que é o contato com o público que sempre esteve ao lado deles e que com esses preços absurdos é afugentado. O que choca e incomoda as pessoas é ver seus ídolos assumirem posturas incompatíveis com o que sempre pregaram, ou, em outras palavras, se venderem. Bem podiam comemorar seus 50 anos de música com shows para grandes plateias a preços populares. Os ingressos em Porto Alegre são mais caros do que os do show que fizeram segunda passada em Tel Aviv. E a turnê ainda terá 18 shows na Europa e 15 na América Latina. Podres poderes

* Esclarecendo: a Opus Promoções não tem interferência nesses números, está apenas locando o auditório e fazendo a promoção local.

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ANTENA

Prospecto
De Marmota

A escolha do Prêmio Açorianos de melhor disco instrumental de 2015 será uma parada dura. Se já tinha concorrentes fortes nos CDs de Carlos Badia e Matheus Kleber, com o lançamento do primeiro álbum do Marmota a coisa complicou. O quarteto de jazz formado por Leonardo Bittencourt (piano), Pedro Moser (guitarra), André Mendonça (baixo) e Bruno Braga (bateria) é um fenômeno. Individualmente qualificados, como grupo conseguem uma interação de excelência rara. Para chegar a isso, ouviram "de Coltrane, Evans e Pastorius, a Mehldau, Rosenwinkel e Aaron Parks", estudaram e tiraram suas conclusões. Estão aptos para tocar um clássico de Miles Davis/Bill Evans, Nardis, e compor de forma saudavelmente pretensiosa entre o tradicional e o contemporâneo. O jazz hipnótico de Maraca#7 e Ogaden, por exemplo, diz que o Marmota não está para brincadeiras. Independente, à venda no site marmota.bigcartel.com, R$ 30

O Piano e a Casa
Vários artistas

Em ação desde 2011, em São Paulo, a Casa do Núcleo é um centro cultural dedicado à música criativa, especialmente a instrumental. No ano passado, realizou-se lá o projeto O Piano Brasileiro, com nove pianistas de três gerações fazendo oficinas e shows, todos na confluência – para mais ou para menos – das músicas erudita e popular. E todos brilhantes, premiados ao redor do mundo. Gravado ao vivo com qualidade nota 9, este é um disco para os amantes do piano e resume o projeto. Tiago Costa (do grupo Vento em Madeira), Benjamim Taubkin (mentor de tudo), Zé Godoy, Fábio Torres (do Trio Corrente) e Heloisa Fernandes tocam composições suas. Amilton Godoy, do Zimbo Trio, toca Odeon (Ernesto Nazareth), Karin Fernandes toca a Valsa da Dor (Villa-Lobos), Júlia Tygel toca a folclórica Caicó e Hércules Gomes manda em Duda no Frevo, de Senô. Núcleo Contemporâneo, R$ 30

Tema
De Antonio Adolfo

A trajetória de Antonio Adolfo começa em 1963, aos 18 anos, acompanhando Leny Andrade no Beco das Garrafas, território da bossa nova no Rio de Janeiro. Raros pianistas em atividade têm uma carreira tão extensa e múltipla, tanto na música instrumental quanto na canção – são dele sucessos como Sá Marina, Teletema e BR-3. Este é seu 24º álbum, gravado entre o Rio, Miami e Hollywood, com edição norte-americana – lá se apresenta mais do que aqui. O roteiro é formado por 10 composições de várias épocas da carreira, com novos arranjos tocados pelos ótimos Marcelo Martins (flauta, sax), Leo Amuedo (guitarra), Claudio Spiewak (violão), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria) e Armando Marçal (percussão). A base brasileira de quase todas as faixas, como a "nordestina" Alegria for All e a "carnavalesca" SamboJazz, sustenta uma concepção completamente jazzística. AAM Music/Rob Digital, R$ 29

 

 
 
 
 
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