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Confira dicas de leitura de Caio Fernando Abreu

ZH pediu a especialistas na obra do escritor para indicar livros do autor

25/02/2016 - 03h03min
Confira dicas de leitura de Caio Fernando Abreu Acervo pessoal - Sandra La Porta/Divulgação
Caio Fernando Abreu como ator no "Sarau das 9 às 11", nos anos 1970 Foto: Acervo pessoal - Sandra La Porta / Divulgação  

Indicações de Amanda Costa, autora de 360 Graus - Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu:

Limite Branco (1970)
Em Limite Branco, obra inaugural de Caio, estão as primeiras tintas de elementos que serão trabalhados nos livros posteriores. Já se configura seu estilo elaborado e minucioso, com delicada arquitetura de atmosferas, memórias, impressões, imagens e símbolos, articulados com criatividade e habilidade no uso de diferentes vozes narrativas, no diálogo sutil com outras obras literárias e na beleza e maestria do trabalho com a linguagem. Sob dois pontos de vista, terceira e primeira pessoa (com o recurso de um diário íntimo), narra a trajetória do personagem Maurício em dois momentos de vida, ambos fases de mudança radical: infância e passagem para adolescência no interior do Rio Grande do Sul, na cidade imaginária de Passo da Guanxuma, e adolescência e transição para a vida adulta em Porto Alegre. Aborda um período de sete anos na vida do protagonista, começando na infância, com 12 anos - em que experimenta os desafios do desenvolvimento e puberdade -, até os 19 anos, no que seria o prelúdio da idade adulta, à qual é lançado bruscamente pela perda da mãe. A sexualidade, a morte, a construção da identidade e a busca de um sentido ou finalidade para a vida, ligada à descoberta e desenvolvimento da vocação literária, são os núcleos em torno dos quais giram acontecimentos, emoções e reflexões de Maurício.

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O Ovo Apunhalado (1975)
No livro O Ovo Apunhalado seu estilo elaborado e criativo se consolida, com domínio da linguagem e trabalho minimalista da palavra, equilibrando técnica, sensibilidade e emoção. A crítica social, que aparece fortemente em Inventário do Irremediável (1970), se intensifica, assim como a utilização de imagens surreais e do gênero fantástico. Embora este fosse um procedimento frequente nas literaturas da América do Sul e Central, onde até ganhou a denominação particular de "realismo mágico", como uma forma transversa de representar as ditaduras e o autoritarismo, o escritor vai além da alegoria e explora o recurso com inventividade, não se limita à matéria específica da época. Acrescenta também novos elementos como a ecologia, o misticismo e referências simbólicas e esotéricas de diferentes tradições, Astrologia, contatos com extraterrestres, entidades e viagens astrais, a psicodelia hippie, o uso de drogas e a cultura pop. O Autor experimenta, inventa, ousa, expõe a carne viva com arte. Como poucos fizeram.

Morangos Mofados (1982)
Em Morangos Mofados, seu estilo se torna ainda mais refinado. O escritor aprimora elementos presentes nos livros anteriores - as alternâncias de ponto de vista do narrador, a incorporação da linguagem do cinema e da cultura pop, a inclusão de trechos de livros poemas e canções na narrativa e na fala dos personagens, o ritmo e as sonoridades, a exploração dos recursos gráficos como itálicos e colunas, a mistura de diversas línguas - e antecipa os seguintes, e passa a tratar mais abertamente de temas anteriormente proibidos pela censura, imprimindo de vez sua marca inovadora e sui generis. A temática do amor homossexual, limitada pela censura e abordada de modo sutil ou mesmo metafórico nos três primeiros livros, torna-se mais explícita e mostra o preconceito, as perseguições e as violências cometidas contra gays e travestis. Em Morangos mofados o quadro político brasileiro já havia se alterado; com os problemas econômicos, o poder militar foi perdendo força e iniciava-se um processo de redemocratização. Aumentaram ainda mais as diferenças sociais e a pobreza. Não há mais a censura e as patrulhas ideológicas, mas também não há mais utopias. O sonho da contracultura havia acabado, levando junto os hippies idealistas enquanto os yuppies materialistas invadiam a cena. Em seus personagens melancólicos e meio à deriva, resta um estranho gosto de morangos mofados na boca. Mesmo com todas as divisões, a solidão e o desencanto, há um final luminoso e afirmativo, simbolizado na autossuperação do protagonista do último conto e sua decisão de seguir pela longa estrada, encarar o real "de cara limpa", sem aditivos, e de plantar frescos e vermelhos morangos.

Triângulo das Águas (1983)
Com Triângulo das Águas, o escritor mais uma vez se renova ao explorar as possibilidades dos arquétipos astrológicos na forma e conteúdo dos textos e também os diferentes pontos de vista do narrador, expressando a fragmentação emocional dos personagens através de múltiplas vozes narrativas. Os aspectos poéticos de sua prosa se sofisticam, com um trabalho minucioso e delicado na criação de imagens e atmosferas. Através dos três signos de elemento Água - Câncer, Escorpião, Peixes -, é representado o processo de transformação interior de seus personagens: seres em busca da verdade, de um sentido para suas existências sufocadas pela pressão urbana e fragmentadas pela solidão. O elemento Água simboliza os sentimentos e os estados inconscientes e anímicos. Apesar da desagregação, das tensões, dores e traumas, os personagens dos três contos/novelas passam por transformações e encontram um caminho positivo.

Os Dragões não Conhecem o Paraíso (1988)
Em Os Dragões não Conhecem o Paraíso, o leitmotiv é o amor, nas suas tantas formas, conforme aponta o Autor: "amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor e alegria, amor e memória, amor e medo, amor e loucura". O amor, aliás, é um de seus grandes temas, presente em todas as suas obras, sob muitas formas. Como nos dois livros que o antecedem (Morangos mofados, Triângulo das águas), há a anunciação de esperança no final. Mesmo com todos os reveses, e com o peso do HIV em um tempo em que o amor "virou risco de vida" e da realidade tão "escassa de dragões", há a possibilidade do voo, ainda que o real seja inventado. Posição expressa no conto homônimo e que remete à criação literária e artística e à imaginação como via para recriação de si mesmo. Um caminho para todos os que, como os dragões, não conhecem o paraíso. Diferente de todas as produções anteriores, na abertura desse livro o Autor se dirige diretamente ao leitor e propõe chaves de leitura, instigando-o e chamando a participar. Sugere que os textos sejam lidos como contos independentes ou como um "romance-móbile" composto de várias partes. Uma bela forma de trazer aquele que lê para dentro do laboratório da criação, tornando-o consciente de seu papel como um co-criador, sem o qual o trabalho de arte não se completa. Neste volume o escritor retoma de modo explícito a reflexão sobre a criação literária, como fez no seu romance inaugural Limite branco, em que o personagem Maurício buscava desenvolver sua vocação para a escrita. É a maturidade da contística de Caio Fernando Abreu, narrador e narrativa unos como a geometria límpida de uma esfera de cristal. Esse outro olhar sobre o fazer literário precede o novo voo do dragão em Onde andará Dulce Veiga? em que, novamente, o protagonista será um narrador e vários personagens têm conexão com a palavra.

Onde andará Dulce Veiga? Um romance B (1990)
Em Onde andará Dulce Veiga? Um romance B, um jornalista procura uma cantora desaparecida. O subtítulo, que remete ao estilo policial noir dos filmes franceses e norte-americanos das décadas de 1940 e 1950levar o leitor desavisado a pensar que se trata de uma história de detetive, com toda a imagética do gênero. O que não falta aqui, todavia é mais um dos recursos literários e estéticos utilizados por este escritor refinado que mistura elementos da cultura de massa e clichês com referências a outras artes e códigos eruditos e canônicos. Com o mote da busca de Dulce Veiga, uma cantora que desaparece no auge da fama sem motivo aparente e sem deixar pistas, o protagonista vive uma jornada pessoal de busca de si mesmo e de seu cantar. A chave não está no óbvio, nada é o que parece ser. Assim como a "outra coisa" que a personagem Dulce Veiga tanto deseja, uma proposta a que, a certa altura, o protagonista, que é também o narrador, reconhece aderir. Como os livros da década de 1970 e 1980, que refletiam as impressões calcadas no humano, esta obra contextualiza aspectos importantes do início da década de 1990 como a vida caótica nas grandes cidades e a decadência do espaço urbano, a poluição, a miséria, a violência crescente, a manipulação da mídia e da política, o tráfico de drogas, a AIDS, a desigualdade social, a exploração e esgotamento do humano no trabalho excessivo, a falta de perspectiva, o sofrimento, a solidão e o abandono do povo brasileiro e a destruição da natureza. Aborda, também, através de um personagem ligado ao passado do protagonista, a perseguição e tortura realizadas na época da ditadura. É neste cenário que o herói, encarnado no jornalista combalido de Onde andará Dulce Veiga? deverá realizar sua missão. Como os antigos cavaleiros, lhe será ordenada uma missão de busca, simbolizada na figura de uma bela mulher, uma cantora que desapareceu misteriosamente no auge da carreira. A busca, todavia, é outra: seu Graal sagrado é o cantar. Este romance tem um tom mais leve que os livros de contos, sobretudo pelo uso frequente do humor, uma faceta do escritor que é mais presente em sua dramaturgia. O humor aparece em situações inusitadas e personagens-estereótipos, mas principalmente pelo olhar irônico do jornalista. O protagonista ri de si mesmo e de seus dramas e brinca também com o ato de narrar.

Indicações de Vanessa Souza, mestra em psicanálise e literatura:

Morangos Mofados (1982)
O mais conhecido livro de Caio Fernando Abreu é um clássico da literatura brasileira contemporânea. Um dos motivos do livro ter sido tão lido quando lançado, em 1982, foi ter contado aos leitores, durante um período em que nosso país não havia retomado a democracia, o que sentiam e faziam os gays, loucos e toda a juventude diante do imenso preconceito da sociedade e da repressão dos seus ideais. A solidão, dor, marginalização e demais sentimentos de estranhamento são abordados em contos curtos e cheios de significados nas entrelinhas.

A Vida Gritando nos Cantos (2012)
Para sustentar-se entre um livro e outro, Caio escrevia muito - crônicas, matérias, roteiros, críticas e toda sorte de textos que lhe encomendavam. Para o leitor que não está acostumado à densidade de seus contos (Caio era, sobretudo, em número de publicações, contista), a crônica é um bom jeito de conhecer sua obra. Ora irônico, ora poético, o livro traz crônicas da década de 80 até 1996, ano em que Caio faleceu. Sensíveis, pessoais e belas, as crônicas abordam questões universais e são puro deleite para os que apreciam o gênero.

Limite Branco (1970)
Escrito em 1967 e publicado em 1970, Limite Branco é um romance de formação. Apontado como autoficcional, o livro com cunho intimista traz como personagem principal um adolescente no final dos anos 60, período de transição brasileira entre o golpe militar e o AI-5. Muito bem escrito, 25 anos depois de publicado Caio Fernando Abreu revisou-o a pedido do editor Pedro Paulo de Sena Madureira. O escritor relata ter ficado chocado com a inocência do livro, do personagem Maurício e do Caio (25 anos mais jovem) que o escreveu. Uma bela narrativa.

Poesias Nunca Publicadas de Caio Fernando Abreu (2012, organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva)
Caio Fernando Abreu escreveu poesias durante toda a sua vida, e poucos sabem disso. Ele se considerava um contista e, durante sua vida, jamais pensou em publicar suas poesias, não gostava delas. O livro traz 116 poemas inéditos do autor, que tinha como amigos grandes poetas como: Ana Cristina Cesar (artista homenageada da FLIP 2016), Hilda Hilst e Mario Quintana. Imperdível também para quem prefere ler prosa _ como eu.

Caio Fernando Abreu: Cartas (2002, organização de Ítalo Moriconi)
Sabe aquela sensação de estar violando a correspondência alheia? O prazer voyeurístico é potencializado quando a correspondência é fluída, forte, divertida, ácida, instigante. Com o advento da internet, as cartas estão quase obsoletas. Caio F. era um correspondente voraz. Escrevia mais de uma carta por dia. Seu único livro de cartas, organizado por Ítalo Moriconi, é visceral. Ainda há muitas cartas não publicadas de Caio e seus correspondentes. Fica a torcida para que um segundo volume seja lançado.

Indicações de Márcia Ivana de Lima e Silva, professora do Instituto de Letras da UFRGS

As Frangas (1989, infantil)
As Frangas conta a história das frangas do quintal da casa, partindo da história infantil A Vida Íntima de Laura, de Clarice Lispector. O pequeno leitor conhece Caio e já fica curioso para conhecer Clarice. Belo começo!!!

Girassóis (1997, infantil)
Girassóis é um trecho da última crônica escrita por Caio, A morte dos Girassóis, publicada em 07 de fevereiro de 1996 no jornal O Estado de São Paulo. As ilustrações são de Paulo Portella Filho.

Zona Contaminada (teatro)
Peça que tematiza o fim da raça humana, contaminada por um vírus letal. Visionário, Caio percebe a fragilidade do homem diante de ameaças que não consegue explicar nem solucionar. Faz-nos pensar nas doenças do corpo, como AIDS ou dengue, e nas da alma, como preconceito e discriminação.

 
 
 
 
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